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1636–1696

AO MESMO ASSUMPTO.

Gregório de Matos Guerra

Ao pé de uma junqueirinha nasce uma fonte de prata, assentei-me junto dela, bem tolo é, quem se mata.

Por divertir saudades de Fílis do céu traslado quis escolher meu cuidado por alívio as soledades:

e revolvendo as verdades da fé, e firmeza minha, como cessado não tinha, de sentir, e imaginar,

me deitei por descansar Ao pé de uma junqueirinha. Tomou-me o sono os sentidos, e em sonhos e fantesia

arrebatado me guia a ver uns campos floridos: e para mais divertidos meus cuidados, me retrata

uma graciosa mata fabricada de craveiros, donde entre verdes oiteiros Nasce uma fonte de prata.

Estava as graças notando de tão linda arquitetura, quando a melhor formosura à fonte se vem chegando:

um véu de rosto tirando para melhor poder vê-la, conhecer ser Fílis bela, a que a minha alma roubou,

e vendo, que se assentou, Assentei-me junto dela. Eis que gozando de amor as delícias, acordei,

e só sem Fílis me achei da junqueirinha ao redor: que presto vence uma dor qualquer aparência grata!

quem em seus amores trata de glórias, não tem razão, e por deleites em vão Bem tolo é, quem se mata.

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