Um doce, que alimpa a tosse,
cousa muito grande era,
se eu não trocara, e pudera
a doçura pelo doce:
se quisera Amor, que eu fosse
tão digno, e tal me fizera,
que juntos vos merecera
ora o doce, a doçura ora,
maldita a minha alma fora,
se tudo vos não comera.
Mas há grande distinção.
e discrímen temerário
entre os doces de um almário,
e as doçuras de uma mão:
e quem é tão sabichão
destro no ré mi fá sol
mal pode errar, em seu prol,
quando sabe, que a doçura
se se come, é por natura,
e os mais doces por bemol.
O que enfim venho a dizer,
é, que se à minha ventura
negais comer da doçura,
doces não hei de comer:
não hei de troca fazer,
mais que a palos me moais,
e se comigo apertais,
que os vossos doces almoce,
é fazer-me a boca doce,
quando a mim é por demais.
Trocai o doce em favor,
e curai meu mal tão grave
co’aquela ambrósia suave,
com que foi criado o Amor:
o néctar será melhor,
que destilam vossas flores,
que são tão secos favores
são de amor efeitos pecos,
tão mais são amores secos,
como são secos amores.