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1636–1696

À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.

Gregório de Matos Guerra

Um doce, que alimpa a tosse, cousa muito grande era, se eu não trocara, e pudera a doçura pelo doce:

se quisera Amor, que eu fosse tão digno, e tal me fizera, que juntos vos merecera ora o doce, a doçura ora,

maldita a minha alma fora, se tudo vos não comera. Mas há grande distinção. e discrímen temerário

entre os doces de um almário, e as doçuras de uma mão: e quem é tão sabichão destro no ré mi fá sol

mal pode errar, em seu prol, quando sabe, que a doçura se se come, é por natura, e os mais doces por bemol.

O que enfim venho a dizer, é, que se à minha ventura negais comer da doçura, doces não hei de comer:

não hei de troca fazer, mais que a palos me moais, e se comigo apertais, que os vossos doces almoce,

é fazer-me a boca doce, quando a mim é por demais. Trocai o doce em favor, e curai meu mal tão grave

co’aquela ambrósia suave, com que foi criado o Amor: o néctar será melhor, que destilam vossas flores,

que são tão secos favores são de amor efeitos pecos, tão mais são amores secos, como são secos amores.

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