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1636–1696

A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.

Gregório de Matos Guerra

Filena: eu que mal vos fiz, que sempre a matar-me andais, uma vez, quando me olhais, outra quando me fugis:

vi-vos, e logo vos quis tão inseparavelmente, que nem a vista ao presente ao menos sabe dizer-me,

entre ver-vos, e render-me qual foi primeiro acidente. Vós sois tão esquiva, e tal, que outras cousas não sabendo,

da vossa esquivança entendo, que o meu amor me fez mal: não cabe em meu natural fugir, de quem me maltrata,

e se me sai tão barata a vingança de querer-vos, quero amar-vos, e sofrer-vos, porque fiqueis mais ingrata.

Não sinto esta pena atroz, que me fazeis padecer, antes folgo de morrer, vendo, que morro por vós:

e se com passo veloz vejo a morte já chegar, não sinto ver-me acabar, sinto a glória, que vos cresce,

que uma ingrata não merece a glória de me matar. Vivam vossas esquivanças, e vossa crueldade viva,

que a sem-razão de uma esquiva acredita as esperanças: tudo tem certas mudanças, também se muda o rigor,

e se Amor me dá valor para sofrer-vos, e amar-vos, claro está, que hão de mudar-vos firmezas do meu amor.

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