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1811–1882

XXXVII

Gonçalves de Magalhães

Tudo está profanado! As vestes da virtude o vício adornam; Da lisonja nas aras arde o incenso Que só devera embalsamar o templo!

Murchas flores, que a fronte ao vício ornaram, Atiram-se em despeito ao altar do Eterno. Tudo está profanado! Levanta a estupidez a hirsuta coma

Coberta de poeira, E a sacode no rosto da Ciência, Ou no alcáçar da lei se assenta ufana; A Moral a seus pés serve de sólio,

De cúpula o capricho. Tudo está profanado! A cívica coroa Dá-se à ambição, que sobe intumescida

Como a onda do mar, e tudo alaga. Exauriram-se os nomes das virtudes, E um só não há que ao crime se não desse. Os lugares são prêmios da baixeza,

Da feia adulação, da vil intriga! O hino cantam da vitória; e a Pátria Geme aflita co’o peso da ignorância Dos homens, cuja estrela é o egoísmo;

E até a lira, para mor opróbrio, Vendidos sons só verte! Tudo está profanado! Como posso louvar-te, ilustre Veiga,

Santuário da honra foragida? Que nome te darei? que flor? que incenso? Como o bronze que soa em torre excelsa, Chamando a Deus os homens,

Tu bradaste, pregaste o amor da Pátria; A teus brados os homens surdos foram, E tu enrouqueceste. Apóstolo da ordem,

Caíste, enfim caíste! — Mas com glória! Caíste, mas sem nódoa! Sim, caíste! Mas Sócrates também sofreu a morte! Qual se vê nas cidades arrasadas,

O templo solitário, esparsos bustos, Rotas colunas, capitéis dispersos, Combros de terra, montes de ruínas; E no meio, inda envolta de poeira,

Uma estátua, que o tempo respeitara, E que os olhos atrai do peregrino; Assim te eu vejo em pé! e assim um dia A geração futura, pesquisando

No meio das relíquias desta idade Alguma cousa inteira, pura e bela, Sacudirá o pó, que hoje te lançam, E dirá: Eis aqui um Homem probo.

Mas que digo? — Ainda vives! Envenena-se a flor, se a serpe a morde, E a virtude definha, conculcada! Mas tu amas a Pátria, como eu amo;

Amas com amor puro, Sem mescla de interesse, como se ama Uma mãe terna, que não tem tesouros, Mas só lágrimas tem para legar-nos.

Ah! praza ao céu que a estrada em que brilhaste, Seja aquela em que morras. E assim foi.

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