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1811–1882

XXXIX

Gonçalves de Magalhães

Eis aqui o lugar, onde eclipsou-se O Meteoro fatal às régias frontes! E nessa hora em que a glória se obumbrava, Além o sol em trevas se envolvia!

Rubro estava o horizonte, e a terra rubra! Dous astros ao ocaso caminhavam; Tocado ao seu zênite haviam ambos; Ambos iguais no brilho, ambos na queda

Tão grandes como em horas de triunfo! Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime Este nome revela à Humanidade! Um Oceano de pó, de fogo, e fumo

Aqui varreu o exército invencível, Como a explosão outrora do Vesúvio Até seus tetos inundou Pompéia. O pastor que apascenta seu rebanho;

O corvo que sanguíneo pasto busca, Sobre o leão de granito esvoaçando; O eco da floresta, e o peregrino Que indagador visita estes lugares:

Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam. Aqui morreram de Marengo os bravos! Entretanto esse Herói de mil batalhas, Que o destino dos Reis nas mãos continha;

Esse Herói, que co’a ponta de seu gládio No mapa das Nações traçava as raias, Entre seus Marechais ordens ditava! O hálito inflamado de seu peito

Sufocava as falanges inimigas, E a coragem nas suas acendia. Sim, aqui stava o Gênio das vitórias, Medindo o campo com seus olhos de águia!

O infernal retintim do embate de armas, Os trovões dos canhões que ribombavam, O sibilo das balas que gemiam, O horror, a confusão, gritos, suspiros,

Eram como uma orquestra a seus ouvidos! Nada o turbava! — Abóbadas de balas, Pelo inimigo aos centos disparadas, A seus pés se curvavam respeitosas,

Quais submissos leões; e nem ousando Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam. Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora! Foi destino, ou traição? — A águia sublime

Que devassava o céu com vôo altivo Desde as margens do Sena até ao Nilo, Assombrando as Nações co’as largas asas, Por que se nivelou aqui co’os homens?

Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória O hino da vitória ouviu três vezes; E três vezes bradou: — É cedo ainda! A espada lhe gemia na bainha,

E inquieto relinchava o audaz ginete, Que soía escutar o horror da guerra, E o fumo respirar de mil bombardas. Na pugna os esquadrões se encarniçavam;

Roncavam pelos ares os pelouros; Mil vermelhos fuzis se emaranhavam; Encruzadas espadas, e as baionetas, E as lanças faiscavam retinindo.

Ele só impassível como a rocha, Ou de ferro fundido estátua equestre, Que invisível poder mágico anima, Via seus batalhões cair feridos,

Como muros de bronze, por cem raios; E no céu seu destino decifrava. Pela última vez co’ a espada em punho Rutilante na pugna se arremessa;

Seu braço é tempestade, a espada é raio. Mas invencível mão lhe toca o peito! E’ a mão do Senhor! barreira ingente Basta, guerreiro! Tua glória é minha;

Tua força em mim stá. Tens completado Tua augusta missão. — És homem; — pára. Eram poucos, é certo; mas que importa? Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,

Surdo aos trovões da guerra que bradavam: Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro; O teu Imperador aqui te aguarda. Ah! não deixes teus bravos companheiros

Contra a enchente lutar, que mal vencida Uma após outra em turbilhões se eleva, Como vagas do Oceano encapelado, Que furibundas se alçam, lutam, batem

Contra o penedo, e como em pó recuam, E de novo no pleito se arremessam. Eram poucos, é certo; e contra os poucos Armadas as Nações aqui pugnavam!

Mas esses poucos vencedores foram Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz. Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos Viram passar as águias vencedoras!

E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates Embalde à sua marcha se opuseram. Eram os poucos, que jamais vencidos Os dias seus contavam por batalhas,

E de cãs se cobriram nos combates; O sol do Egito ardente assoberbaram, A peste em Jafa, a sede nos desertos, A fome, e os gelos dos Moscóvios campos.

Poucos que se não rendem; — mas que morrem! Oh! que para vencer bastantes eram! A terra em vão contra eles pleiteara, Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores! Vergonha eterna à geração que insulta O Leão que magnânimo se entrega. Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas, Que murmuram seu cântico de morte. Braços cruzados sobre o largo peito, Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram; Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo. Que grande idéia o ocupa, e turbilhona Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara Da linha de seus bravos, o traírem. Ao longe mil pigmeus rivais divisa, Que mutilam sua obra gigantesca;

Como do Macedônio outrora o Império Entre si repartiram vis escravos. Então um riso de ira, e de despeito Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho Soa em seu coração, e de seus olhos A lágrima primeira se desliza. E de tantas coroas que ajuntara

Para dotar seu filho, só lhe resta Esse Nome, que o mundo inteiro sabe! Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho, A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.

Mas firme era sua alma como o mármore, Onde o raio batia, e recuava! Jamais, jamais mortal subiu tão alto! Ele foi o primeiro sobre a terra.

Só, ele brilha sobranceiro a tudo, Como sobre a coluna de Vendôme Sua estátua de bronze ao céu se eleva. Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade ele era o mensageiro. Sua espada, cometa dos tiranos, Foi o sol, que guiou a Humanidade. Nós um bem lhe devemos, que gozamos;

E a geração futura agradecida: NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.

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