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1811–1882

XXXI

Gonçalves de Magalhães

Como é bela a Natura! Pode o parto de um gênio em febre intensa Rivalizar tais cenas? Ver das águas a queda ruidosa

Deslizar entre seixos, formando De cristal mil festões, que se esmaltam Da palheta do íris, pintando Retab’los, onde o toque da mão mestra

Em matiz variado delineia Sucessivas belezas, como a idéia, Que outra idéia desperta, vinculando Das sensações o quadro reanimado;

Onde terna saudade em ledo arroubo, Volteia esperançosa Sobre as asas divinas da memória, Que em seu grêmio renova eras passadas;

Misteriosa fênix de nossa alma! Propércio e Cíntia, Catulo, Horácio, Mecenas, tudo

Do antigo Lácio Patente sobre as ruínas vejo errarem, Como nuvens de fósforo cerúleo, Ou vapores num lago, matutinos,

Ou nas selvas noturnos pirilampos. E tu, oh linda Zenóbia, Que com teu pranto nutriste Estas águas sempiternas,

E solitária carpiste Tua coroa, teu cetro, Armadas, marmóreos paços, Vastos templos de Palmira,

Que Roma fez em pedaços. Já foste Paládio, e ídolo Do teu povo soberano; Mas quebrou-te o templo, as aras,

O iconoclasta Romano. Vem, princesa desgraçada, Vem solitária comigo, Vem chorar a antiga glória,

Que eu também choro um amigo. Se ora invoco teus manes neste ensejo, Não turbo as régias cinzas, que humilhadas No exílio findaram sem momento.

Como tu, solitário a vida gemo, E a passada ventura, que gozara, Entre amicais amplexos, venturoso. Mas que voz na soidão remonta aos ares?

Celeste Querubim baixa do céu, E na flauta divina exalta o hino, Que a terra a Jeová diurna envia. Mas não; alto prodígio se levanta;

Providente Natura Companheiro me envia; alado vate, Homero da floresta, Em melódico metro, o estro exalça,

Meus suspiros conforta, adoça as mágoas. Salve, oh vate Rouxinol, Salve, à luz misteriosa Deste archote, que de noite

Faz a terra duvidosa. Salve, oh Lua alvinitente, Mãe de amor, do vate amante, Do silêncio grata esposa,

Salve, salve neste instante! Mas quem turba teu manto de silêncio, E a voz levanta em prolongado ronco? São as do Anio

Tartáreas águas, Que sempre vivem Quais minhas mágoas. Da história imagem,

Das estações Vivo retrato Seus borbotões; Qual vida, e morte,

De vaga em vaga, Se esconde, e surge, Se acende, e apaga. Assim batem as águas rugidoras,

Que os átomos confundem, dilatando A contínua torrente, que retrata Do infinito a imagem! Onde está o infinito, oh Deus Eterno?

Esse marco onde esbarra a mente humana, Que sem tino volteia titubante, E no abismo do peito se aprofunda, Face a face encontrando a consciência?

Oh consciência, ao teu clarão se rasga O véu das ilusões! Ele nos mostra Das paixões o troféu dentro do túmulo, E ao pé quadro da vida, que demonstra

O nada da vaidade, e o desengano Majestoso sentado Na cadeira da escola da verdade, Donde colhe a virtude os seus ditames!

Pálida Lua, teus suaves raios, Que plácidos se esbatem nas campinas, E as fugitivas ondas argenteiam, Da consciência nossa a imagem pintam,

Que fala ao coração com tal potência, Sem nos lábios volver um som de frase. Misterioso acento, alta harmonia Desenvolve a Natura em seus concertos.

Enquanto a voz uníssona do Anio, Que em equóreos cilindros vai rolando, E entre seixos ribomba, De medonho fragor o ar pejando;

Canoro rouxinol prelúdio exalta, E sublime se acorda ao som horrível, Que as águas tangem em contínuos vórtices Entre o limo, e as areias das cavernas,

Variando as estrofes; lá prolonga Suavíssimo gorjeio, que se perde Em ventrílocos ecos; quais soluços De enamorada virgem, que receia

Do coração trair ternos afetos. Volve a paz, o silêncio, ronca a onda Em perpétuo murmúrio; Da fadiga repousa alado vate,

E inspirada canção alto redobra. Mais sublime retoma o retornelo, Em agudos sibilos elevando-se; Quebra a voz; vem morrendo suspiroso;

Doce, e doce remonta, enche o espaço; Majestoso se espraia, floreando; Qual rojão que remonta além das nuvens, E no ar arrebenta um firmamento

De efêmeras estrelas luminosas. Volve a paz, o silêncio, ronca a onda Em perpétuo murmúrio; Da fadiga repousa alado vate,

E inspirada canção alto redobra. Melancólico entoa em nova escala Amorosa canção, que invejam dúlias: Té que alfim tiritando se arrebata,

Entrecorta o trinado, e pouco a pouco Em fluente florido se evapora. Volve a paz, o silêncio, ronca a onda Em perpétuo murmúrio;

Da fadiga repousa alado vate, E inspirada canção alto redobra. Mesclado efeito de sublimes notas, Ora forte, ora lento vai soltando;

Finge o pranto, sorri-se, e desenvolve Insólita harmonia, que assimilha Batalhões com clarins, rufos, e tímbalos; Emaranha um confuso regorjeio,

Que se perde num som prolongadíssimo. Triunfante cala a cítara, Desaparece qual relampo.; Ronca a onda sempre a mesma,

E o silêncio toma o campo. Oh Rossini das aves, tu que buscas A soidão, o silêncio, Pra teu canto esmaltar sem o marulho

Da vigília do dia; e como um gênio, Que no leito desdobra mil prodígios Ao cansado mortal em grato sonho, Nesta hora me recordas

Ao coração lanhado imagens ternas, Tão tristes, que ante mim se desenrolam Qual penacho de fumo De apagado brandão junto ao esquife,

Que um cadáver de virge’avaro oculta. Oh Rossini das aves, que linguagem Teu discurso soltou? Não é da terra. Ah! cantas porventura

Os fastosos anais, a decadência, Os triunfos, e a queda dos Romanos? A saudade, as delícias da amizade, Ou a história amorosa de uma vítima?

Marmóreos átrios, áureos peristilos, Conquistas dessa indústria, que assoberba A terra, o mar, os montes, e os abismos, Tudo o tempo desfez co’a mão dos séculos.

Sibilinas paráfrases De místicos oráculos, Que o futuro previam, não previram Essa mãe de desastres

Cimitarra de Totila, Que a Palestra, o Ninfeu, a Academia, E mais d’arte primores derrocara Nesse mundo do belo, que Adriano

Colocara engenhoso sobre a encosta Das ridentes colinas, que te adornam, Oh decantada Tibur! Qual túmulo sagrado, o viajante

Vem teu solo beijar, e espavorido Desses restos augustos que te cobrem, Vai na pátria narrar tais maravilhas, Maldizendo a ignorância, e Caracala.

Esta, outrora soberba, áurea cidade Minha imagem retrata em quadro icônico! Onde está teu Liceu, onde o teu Foro? Os teus templos, e muros formidáveis?

Que sepulcro encerrou os Paladinos? Eleva, eleva moles gigantescas, Pelo gênio das artes inventadas, Oh vaidoso mortal! marca os teus fastos

Com marmóreos padrões; que o dia chega Em que, a um leve aceno do destino, Com teus paços irás dormir na terra. Novos combros de areia gera um vento,

Que outro vento derruba, nivelando-os. Muros reticulares De calcinada argila, Que arrendadas abóbadas sustentam,

De grinaldas de amoras adornados, Em vão querem mostrar primeva pompa. Onde outrora tangeu Horácio a lira, E Tibulo chorou ternos amores,

Mortais serpes se enroscam, Aguardando findar pastor incauto, Que a fadiga do sol chama ao repouso. Sobre o alto das colinas,

Que em torno ao Anio vecejam, Vis choupanas, restos sacros, Inda glória mal lampejam. Teus acantos de Corinto,

E o teu luxo oriental, Jazem na terra, e aos insetos Servem hoje de pousal. Mas, oh Deus, se a vista volvo

Ao Catilo, e suas águas, Lá no templo da Sibila Vão findar as minhas mágoas. Supina Tibur, espraia

No horizonte larga vista, Vê como geme na terra A Rainha da conquista. Como tu, mudei de aspecto;

Já me viste rico, ufano, Quando junto ao meu amigo Te saudei lá do Lucano. Onde vás, Peregrino estudioso?

Em que albergue feliz pedes pousada? Acaso sobre um túmulo deserto Entre rotos sofitos, Na cítara brasília merencório

Teus suspiros a Deus grato sublimas? E baixando ao amigo, também sentes No ádito do peito, Como ele, trespassar-te agra saudade,

Que fere o coração, e ilude a mente? Se a mansão de Petrarca, Nas Colinas Euganeas, visitares, No marmóreo portal grava estas linhas:

“Se junto, ou longe “Da Laura diva “A lira altiva “Tangeste sempre:

“Qual tu, o amigo “Saudoso agora, “De mim se lembra, “E por mim chora.”

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