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1811–1882

XXVIII

Gonçalves de Magalhães

Do céu as estrelas Acaso no brilho São todas iguais? São umas mais belas,

E outras parecem Funéreos fanais. Assim são os fados Dos tristes mortais.

Cada qual tem sua sorte; Um foi para a dor gerado, E outro pela ventura Ao nascer foi embalado.

Quanto mais penso, mais creio Neste mistério profundo; E a mim mesmo então pergunto: Para que vim eu ao mundo?

Como resposta esperando, Escuto silencioso; No coração, que palpita, Murmura um som lutuoso.

Soa essa voz em meu peito Como em caverna profunda, Como um suspiro exalado Pela vaga gemebunda.

Para a dor, me diz, nasceste; Para a dor, para o tormento; Teus males só terão termo Co’o teu último momento.

Sofrer, tal é meu fado! — Eu me resigno. E que hei de fazer? Curta é a vida... E quem me tolhe qu’eu de todo a encurte? Não serei livre de lançar por terra

Um fardo que me acurva, um fardo inútil? É a vida para uns néctar suave, Tóxico é para mim;... devo tragá-lo? Acaso Deus me disse

A ti toca sofrer por mil que gozam. Mas eu blasfemo, oh céus! Que voz me grita: “Mortal, olha o que fazes! Contra a vida Não ouses atentar. Quem vida deu-te

Só quando lhe aprouver tirar-ta pode.” Oh meu Deus! compaixão; minha alma humilde Graça implora da sua insana idéia. Rir, ou chorar, eis só o que o homem sabe;

Se não canta, blasfema! A sorte choremos, Que avessa nos é; Mas não blasfememos,

Vivamos co’a Fé. Qual a esponja de líquido embebida, De perpétua, letal melancolia Pejado tenho o peito;

Minha alma amortecida, E como que em seu túmulo encerrada, Só pela dor à vida é revocada. Oh minha alma, tu és como a lanterna

Do cemitério, Que ante o altar, sobre um esquife solta Palor funéreo. A sorte choremos,

Que avessa nos é; Mas não blasfememos, Vivamos co’a Fé. Oh prazer! Oh doçura da existência!

Meta tão desejada De todos os mortais, para quem inda Brilha no céu a estrela da esperança. Oh benigno sol, que a vida aqueces,

Para mim te eclipsaste! E se às vezes fosfórico lampejas, Quando eu, afeito à dor, não te desejo, É para exacerbar meu sofrimento.

Ah! nem me afaga da esperança o riso, Nem me consola amor; tudo me foge. A sorte choremos, Que avessa nos é;

Mas não blasfememos, Vivamos co’a Fé.

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