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1811–1882

XXVI

Gonçalves de Magalhães

Folga minha alma, quando se me antolha A cândida virtude, E Varões dignos de louvor me indica. Eu prostro-me a seus pés venerabundo;

Que a mente minha, de louvar ansiosa, Encômios jamais nega à heroicidade. Apareça quem já colheu aromas, Que impura a minha destra

Nas aras da lisonja profanara. Descerra os lábios, rígida virtude, Diz se ouvidos teus já se irritaram, Se coraste de pejo ao ouvir meus cantos?

Não, não, tu me respondes; fiel sempre Aos sacros meus ditames, Hinos teceste à Pátria, à Liberdade, E a Varões beneméritos, que eu prezo.

Canta, canta; que é esse o único prêmio De quem sem egoísmo à Pátria serve. Orgão é da verdade a consciência; E da virtude é órgão

O coração que fala, e nunca mente. Firme Varão, imóvel nas tormentas Que vezes o Brasil amedrontaram, Rocha, quem no Brasil teu nome ignora?

Tu foste um dos primeiros que firmaram A Independência nossa. De tua alma o vigor, e o entusiasmo, Os povos animavam, que te ouviam;

E unindo-se em prol da augusta causa, Para ser seu apoio te escolheram. Quando a injustiça e a ingratidão armadas Os raios da vingança

Contra os Varões da Pátria fulminaram, Salvo não foste, não; a Pátria viu-te, Inda no seu desmaio, com teus filhos Inocentes, marchar ao injusto exílio.

Quem não sabe que a morte te aguardava, Dura, afrontosa morte, Nessa terra, onde algemas se forjavam Para o Brasil escravizar de novo?

Quem perfídia tão negra não conhece, E os intentos da cega tirania? Da sorte das Nações só Deus decide. Quando elas o invocam,

E credoras se fazem do que aspiram, Deus um Anjo velar sobre elas manda; Esse Anjo tutelar não mais as deixa, Esse Anjo é quem contrários planos burla.

Por milagre desse Anjo salvo foste; Por milagre desse Anjo Cem, e cem vezes o Brasil foi salvo Das cruas garras de cruéis abutres;

Só por milagre dele em breve espero Ver o Brasil subir à mor altura. Oh! que doce é no meio dos perigos De horrenda tempestade,

Já lânguido de fome, e de fadiga, Ver aberta numa onda a sepultura, E armada contra si dura companha Exclamar: — Tudo sofro pela Pátria!

Outro tanto dizer muitos não podem. Digno tu és de inveja! Ah! se invejosos tens, eu os desculpo. Sempre a inveja assim foi; sempre ela investe

A quem mais por virtudes se distingue; Sempre vilões Aristides tiveram. Mas quando a imparcial posteridade, Que só a láurea outorga

A quem por ações nobres merecera, Teus títulos julgar, ela gostosa Tecerá teus encômios; e o meu hino Á memória dos homens será grato.

Quem deu fulgor ao sol, deu alma ao homem, Também cobriu os campos Co’o brilhante matiz de lindas flores; Nem porque de mil sóis mantém a ordem,

Desleixa as pequeninas criaturas Ao acaso, sem lei, sem um instinto. Assim o homem digno de tal nome, Que memorandos feitos

Em prol da Humanidade praticara, Não despreza as domésticas virtudes; Aquelas de imortal glória o revestem, Estas o resplendor da glória esmaltam.

Quantos o Mundo viu Coriolanos, Que o esclarecido nome Infamaram depois com ações negras? Tu porém sempre firme, sempre o mesmo,

És à Pátria fiel, e a vida tua Sempre tem sido de virtude exemplo.

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