Que vim eu aqui ver? — Uma masmorra Úmida, estreita, onde respiro apenas! Se a fronte elevo, o negro teto roço; Se estendo os braços, a largura abranjo;
Dous passos bastam a medir seu fundo. Que vim eu aqui ver? — Nomes escritos De um lado e de outro de centenas de homens, Que como eu curiosos peregrinos
Vieram visitar este recinto. Vós, meus olhos, nada vedes; Mas minha alma no passado Um vate vê encerrado
Nesta lúgubre prisão. Aqui chorou longos dias, Longas noites, longos anos, Quem por olhos soberanos
Enlouqueceu de paixão. Tasso aqui como um escravo Amargurou a existência; De um senhor a inclemência
A morte aqui lhe quis dar. Triste ele a ausência carpia De sua cara princesa. Seu amor, sua beleza
Causaram só seu penar. Livre, qual Deus o criara, Entre ramos adejando, Melodias exalando,
Passa a vida o rouxinol. Saúda o sol quando nasce, Redobra o canto co’o dia, Enche os ares de harmonia,
Geme ao deitar-se do sol. Mas se preso na gaiola Mão tirana o encadeia, Inda assim ele gorjeia,
Para dar alívio à dor. Assim, oh grande Torquato, Neste cárcere horroroso Gemer te viram saudoso
A Liberdade, e o Amor. Fado! Fado do vate!... A Itália toda As doçuras gostava de teus versos; Gofredo ao céu da glória remontava
Sobre as sonoras asas de teu gênio; E tu, oh Tasso, aqui nesta masmorra Como um vil criminoso definhavas! Fado do vate! rigoroso fado!
Mas Tasso ousou amar de um duque a filha! Oh Ferrara! cem duques teus cingidos De áureas c’roas, de púrpura cobertos, Um só Tasso não valem.
Um vate é mais que um rei. Reis faz o povo, E a seu grado os desfaz, como do mármore Tira o escultor um Nume, e quando apraz-lhe Em simples animal converte-o, ou quebra-o.
Mas tu, sagrado fogo d’harmonia, Quem te acende nas almas dos poetas? O mágico poder com que convertes Aquiles num herói, Páris num fraco,
Acaso dos mortais herdaste, oh vate? Ou foi prenda do céu a lira tua, A lira, que imortais sons desferindo, Vive no tempo, e impõe silêncio à inveja?
Muros desta prisão! muros, que outrora Um tesouro encerrastes, Vós, que insensíveis testemunhas fostes Dos suspiros de Tasso,
Dizei, muros, se acaso vós pudestes Tolher do engenho as asas? Ou se o tirano a glória nodoou-lhe? Vingou a Humanidade a afronta sua,
Como um astro no céu Tasso rutila, E o nome do tirano negrejando, Aumenta-lhe o fulgor, que o ilumina. Mas oh da Providência altos arcanos!
Que mais sofra na vida, quem co’a morte Nova vida imortal viver começa! Assim homens ingratos, Enquanto vivo o mérito premiam!
Ah! consola-te, oh Tasso, Que o único não foste, que da sorte Sorveu tragos amargos. Quase é do vate estrela o infortúnio!
Como os mártires são, que só morrendo A apoteose recebem. Aquele a quem a Grécia ergueu altares, Homero, mendigou de porta em porta!
Tu, oh Ravena, o fugitivo Dante Viste iracundo praguejar seu fado. Camões, rival de Tasso, o pão esmola Ante os olhos de Lísia. E tu, oh Silva,
Da minha Pátria filho, A fogueira subiste com pé firme, Que a inocência teus passos vigorava; E entre as chamas, por mãos ímpias acesas,
Teu último suspiro ao céu subiste. Ante esse bruto povo, Que outrora te aplaudira. Tu Cláudio octogenário, na masmorra
Para a afronta evitar te deste a morte. Lá de horrenda prisão correm ferrolhos, A dura porta se abre, Lá sai Dirceu saudoso, suspirando
Pela cara Marília, Lá vai morrer proscrito Nas inóspitas plagas Africanas. Fado do vate! rigoroso fado!
Porém dos vates Por que lamento A triste sorte? Pode o tormento,
Ou pode a morte, Inda que seja Dura, afrontosa, Fazer que a história
Não perpetue Sua memória? Raivosa a inveja Arme-se embora,
E os acometa. Do vate a glória, É qual planeta, Que no céu mora,
No céu lampeja, Para honra dos humanos, E opróbrio dos tiranos.
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