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1811–1882

XXIII

Gonçalves de Magalhães

Não te rias, oh fortuna! Teu riso me é suspeitoso; Contra a desgraça não clamo, Não quero ser venturoso.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

Enquanto te procurava Andei errados caminhos; E das rosas que murcharam Só me restam os espinhos.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

Por cousa tão transitória É loucura amofinar-nos; Os bens que hoje nos outorgas, Amanhã podes tirar-nos.

Vai-te, a fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

Com bem pouco me contento, Conformei-me co’a desgraça; Já me tenho por ditoso, Já rejeito a tua graça.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

Não sei o que é a ventura, Nem sei se sou desgraçado. Por bens que podem ser males, Eu não troco o meu estado.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

Rápidos passam os dias, E a cada passo que damos, À morte, que é sempre certa, Ligeiramente marchamos.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

É só ditoso na terra Quem vive em paz com sua alma; Quem das penas que aqui sofre, Só do céu espera a palma.

Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já não te creio, Em tudo mentes.

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