Skip to content
1811–1882

XXI

Gonçalves de Magalhães

Vai-te, vai-te... Sepulta-te, não surjas Do abismo do passado, Ano, que para mim um século foste De contínuos tormentos.

Vai-te, vai-te... Nem mais lembrança tua A mente atribulada me enegreça; Desaparece, passa como a nuvem, Que o fúnebre palor da lua aumenta

Em sossegada noite; Como um sonho, que agita a fantasia De adormecido enfermo; Ou como um pensamento malformado

No delírio da febre. Mas como te olvidar, se a consciência Ao grito da vontade se rebela? E acintosa a memória inda conserva

Tua lembrança triste? E sem cessar traidora fantasia Malgrado meu me está representando Mil desgostosas cenas?

Eterna ficará tua lembrança À minha alma presente, Para d’amarga vida despertar-me Os passados reveses,

Como ao lado do altar pendente voto O naufrágio recorda, e o salvamento. Como depois de borrascosa noite, Rutila alva serena,

Do seio do futuro inexaurível, Novo ano, sai, assoma mais fagueiro, E as lágrimas estanca, Que pela dor mil vezes arrancadas,

Do coração aos olhos me subiam. Faze que esta ilusão que a alma consola, Esta esperança, último refúgio Que na desgraça o malfadado encontra,

Núncio me seja de um melhor futuro. Sê meu Íris de paz, e o meu santelmo. Assaz desditas minhas juz me outorgam De merecer-te ao menos um sorriso;

Assaz para um favor sofrido tenho. Esta que ora desfruto paz serena, Este descanso que piedosa destra Concede a meu espírito agitado,

Este celeste sopro De alma ventura que respiro agora, Esta luz que me aclara, Já deixa-me entrever porvir brilhante,

E o horizonte da Pátria me apresenta, Da longe Pátria, tão por mim chorada. Vem, ano-novo, vem; traze-me alegres Notícias de meus pais, da Pátria minha.

Traze-me este consolo, Este consolo ao menos, que me afague Na distância em que vivo. Outra ambição não tenho, outra... E o que pode

Minha alma cobiçar de mor valia? Coração como o meu, ermo de inveja, Exempto de vaidade, a pouco aspira; Só de nobres desejos se alimenta.

E tornarei a ver-te, oh Pátria cara? Teus montes saudarei? tuas florestas? Teus rios? e o teu céu azul sem nódoa? Ainda abraçarei os pais anosos?

Mas em que dia? Quando? Como tarda! Vem, ano-novo; vem, minha esperança! Por ti eu suspirava. Qual um amante pelo bem amado.

Vem, oh núncio de paz; vem consolar-me. Oxalá que não toques ao teu termo Antes qu’eu volte ao paternal albergue.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
XXI · Gonçalves de Magalhães · Poetry Cove