É Roma! É Roma! É a cidade eterna! Lá sobre a catedral do cristão mundo De Buonarotti o gênio se levanta, Prodígio d’arte, maravilha humana
Consagrada a Deus vivo. Entre suas ruínas, majestosa Inda Roma se ostenta. Inda seu nome impõe respeito ao mundo,
E entusiasmo gera. Mas Roma entre ruínas se me antolha Como essa arrependida penitente, Que a vã pompa do mundo desprezando,
A cruz do Redentor humilde abraça. Em vez de capacete, esparsa a coma; Em vez de cetro, cruz; o márcio riso Não mais lhe habita os lábios,
Nem lampejantes olhos mais incutem Terror, vingança, e morte. Religiosa dor hoje a sublima, E a veste de candura, e de beleza.
Rainha das Nações, eu te saúdo! Mãe ilustre de heróis do mundo espanto! Eu te vejo, e minha alma inda duvida! E não sentida comoção me abala.
Esta vermelha terra, árida e seca, Qu’inda exala mortíferos vapores; Este inculto deserto abandonado Dos homens, e das feras,
Onde uma flor sequer não ri-se ao menos; Esta desolação, esta tristeza, Este horror sepulcral, que em torno gira Da senhora do mundo,
Tudo alfim aqui fala, e os olhos mostra As sangrentas tragédias, que juncaram Estes campos outrora. De tanto sangue humano que a ensopara,
De tanto ferro gasto que a cobrira, Conserva ainda a cor a terra estéril! Por que nuvens de corvos esvoaçam Nestes ares pejados de vapores?
Por que arrancam gemidos dolorosos, Que as carnes, e os cabelos arrepiam, Como se eles um mal também carpissem? Odor carnificino
Ainda exalarão de Roma os campos? É que não acham mais sangue que bebam! Cadáveres que os cevem! Que Romano saído do sepulcro
Reconhecer-te, oh Roma, poderia Que viajor, entrando em tuas portas, Não dirá: Onde estou? onde está Roma? Se uma voz respondesse: Eis aqui Roma.
Como não exclamar cheio de assombro: Que maldição do céu caiu sobre ela! Também têm as Nações suas idades. Jovem já foste, oh Roma!
Já guerreiro vigor armou-te o braço; Já tremeram de ti milhões de povos. Fatigada de glória, e já curvada Entre tuas ruínas,
Hoje tu tremes, como uma Rainha Anosa sobre o trono, Que em anos juvenis calcara ufana. Hoje só em teu Deus arrimo encontras;
Só a Religião te ampara a fronte, Que co’o peso dos séculos já pende. Sem este novo Deus morta já foras. Teus velhos deuses a paixões sujeitos,
Teus senhores, teus Neros, e teus filhos, Degenerada raça Dos Brutos, e Catões, raça maldita, Nos mais nefandos crimes só nutrida,
Tudo alfim te arrastava ao horror, e à morte, E te ia despenhar na sepultura. Mas um Deus novo te salvou do abismo; Novas virtudes deu-te, graças novas,
E tu por ele só inda hoje vives. Da guerra o Gênio que nas pugnas vela, E o pacífico Gênio que aos destinos Dos Impérios preside,
Entorpecidos de fadigas tantas, Entre a poeira das ruínas tuas, Cobertos de lauréis, prostrados jazem. Co’a espada o antigo mundo amedrontavas,
Co’a Ciência, e a Razão guiaste o novo; Sim; a glória perdeste dos combates, Mas alcançaste da Ciência a glória. Ignora o mundo teu porvir augusto,
Que ao mundo oculta Deus seu pensamento; Mas tu despertarás à voz de um Gênio, Do sono em que te abismas. Dorme, dorme, que o Tempo não perece;
Dorme, que um dia te erguerás mais bela; Dorme, até que a trombeta do teu Anjo No mausoléu ressoe de Adriano. Os desígnios de Deus serão cumpridos;
Não, tu não morrerás, cidade eterna.
Cookies on Poetry Cove