Eis-me fora do mundo, Nas solidões dos mortos, No império do silêncio, e da tristeza, De campas, e ciprestes rodeado!
Cenas aqui não há, que aprazer possam Aos sentidos daqueles, que embebidos Nas ilusões do mundo, a morte temem, Como o completo termo da existência;
Cegos, que a luz não viram do infinito! À sombra destas árvores chorosas, Encostado a um sepulcro, Ócio não pasta o rico em sesta amena;
Nem quem o vero bem no engano cifra Deste vale de angústias. À dor esta mansão é consagrada, E à saudade, e às lágrimas dos vivos,
Que a Deus, e à Eternidade a mente sobem. Aqui, sim, oh minha alma, aqui te exalta; Solta as prisões do barro que te oprime, E vaga sem horror na imensidade.
Estas ruas de túmulos soberbos, Que cidade figuram, Só corruptos cadáveres habitam, Poeira, nomes, e ossos descarnados.
Os mortos que nos mármores repousam, Não te encham de terror; nem os gemidos De alguma triste esposa, ou mãe saudosa; Nem do vento o murmúrio,
Que merencório soa entre os ciprestes. Nada temas, minha alma; Preconceitos da infância te não gelem; Não; sem susto vagueia;
Mal não fazem os mortos; Só entre os vivos o temor é justo. Oh Filinto! Oh Filinto! Onde estás?... Escutemos...
Aqui nem mesmo os ecos me respondem. Oh meu Filinto, é esta a vez terceira, Que incansável te busco. De um em um tenho lido os epitáfios
Destas fúnebres lousas; O teu só não encontro. Onde é que a ingratidão da injusta Pátria, Dessa Pátria que honraste
Co’os teus divinos carmes, Cavou-te a humilde sepultura? — Onde? Dela ausente, proscrito, na miséria, Como Camões viveste;
Saudoso, e só por ela suspirando, Monumentos ergueste à glória sua; E surda sempre foi aos teus gemidos; Como Camões morreste na indigência!
Mas ele ao menos expirou na Pátria! Terra da Pátria recebeu seus ossos; E tu? — Nem ela sabe onde repousas! Oh desgraçada Lísia!
Ingrata mãe de heróis, de egrégios vates, Assim desleixas teus preclaros filhos, Que em fadigas se afanam Por cingir-te de brilho imarcescível?
Teu vate, teu cantor já te exprobrara, Quando com rouca voz assim dizia, E não do longo canto afadigado, Mas de cantar à gente endurecida:
“O calor, com que mais se acende o engenho, “Não o dá a Pátria, não; que está metida “No gosto da cobiça, e na rudeza “De uma austera, apagada e vil tristeza.”
No Universo estas vozes ressoaram; Línguas cem estas vozes repetiram; E o que fizeste, oh Lísia? Chamaram-te madrasta, e mãe tirana;
E hoje? — inda és a mesma! Oh Pátria minha, o meu Brasil, não sejas Como Lísia cruel para teus filhos. Ligado à sorte sua, tu suportaste
Sec’los três os grilhões do cativeiro; Mas já que sacudiste a espessa treva, Que os olhos te vendava, Da tua antiga Irmã vê as misérias,
E de imitá-la teme. Vejamos. — Estes mirtos tão viçosos Ornar devem de um vate a sepultura. Oh será ele? — Não; aqui descansa
O coração de um filho. Não afrouxemos, vamos; que assim marcha A Humanidade inteira, Sem nunca repousar, sobre relíquias
Das gerações extintas. Cada casa é um túmulo; e de sangue, Lugar não há na terra, Que manchado não fosse.
Um dia chegará a Humanidade Ao limite que Deus lhe prescrevera. Não descansemos; vamos, Enquanto a sepultura não acharmos
De Filinto, que há tanto procuramos. Luísa e Abeilard inda no mármore, Juntos, da morte o eterno sono dormem, Neste gótico túmulo; mil c’roas
Suas estátuas cobrem, que os amantes A seus pés depositam. Qu’eu não possa pagar igual tributo! Amor, tu me desdenhas;
Nunca um ósculo teu rociou meus lábios; Nunca de virgem olhos condoídos Sobre mim almas chamas espargiram; Ah nunca fui amado!
Nascido para a dor, jamais minha alma Em delícias de amor sonhou ao menos! Que ilustres nomes estas lousas mostram! Estátuas, bustos, inscrições só vejo
De prestantes varões, de egrégios vates. Ao lado deste túmulo pomposo, Onde d’Arte o primor ofusca o nome Daquele que mimoso foi da sorte,
Como a meu coração fala sublime Esta Cruz negra à sombra de um cipreste! O sol desmaia; e precursor da noite Cinéreo véu nos ares desenrola-se.
Já fraqueio, e suor transuda a fronte. Deixarei estes sacros aposentos, Sem que te encontre, o cândido Filinto? Serei tão malfadado, que esta c’roa
Depositar não possa em tua campa, E sobre ela chorar, gravar meu nome? Ah não desesperemos; Mais um esforço. — Enfim, é ela, é ela!
Nem sequer um cipreste, um mirto a cobre! Já lisa a pedra pelo pé do tempo Mal indica que teve um epitáfio. Ingrata Pátria! Ingrata!
O tempo ao menos, carcomendo a lájea, Tua vergonha oculta ao estrangeiro. Oh meu Deus! aqui jaz desconhecido Quem cantou dos teus Mártires a glória
Em altíssono metro harmonioso! Reverente ante a tua sepultura, Oh Filinto, tu vês um triste filho, Que choroso, da Pátria ausente vive.
Jovem, talvez ardido, ousei na lira Os dedos aplicar, seguir teus vôos: Sons, que desfiro rústicos, consagro Em holocausto a Deus, e à Pátria minha.
Da celeste Sião, onde tua alma Fulgurante resplende, Um raio de estro à minha mente vibra. Recebe esta coroa,
Estas folhas recebe, Que viçosas colhi na sepultura Do imortal La Fontaine, a quem honraste. Quiçá prima homenagem sejam elas
Que ao manes teus humana mão tribute. Possa o tempo guardar estes, que escrevo, Tristes versos, até que um Luso os leia. Uma lágrima dai, oh Portugueses,
Uma lágrima ao menos a Filinto, Ao desgraçado velho. Assaz honrou à Pátria; Em prêmio exílio teve. — Adeus, Filinto.
Que exemplos pra futuros escritores!
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