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1811–1882

XVI

Gonçalves de Magalhães

Que tens? De que te queixas, desgraçado? É da Pátria a saudade que te aflige? São os erros dos homens? São teus erros, Que pesam sobre ti? És criminoso?

Aborreces a vida? A morte queres? O qu’hei de eu responder? Não, oh meus lábios, Não reveleis arcanos de minha alma, Não crimineis os homens;

Queixas inúteis são; lábios, calai-vos. A quem não sente o mal, que importa o alheio? Não; não sou desgraçado. Estas profundas Dores que me aguilhoam d’alma os seios.

São os sinais de uma lição do mundo. Sinto a dor, mas sou grato à Providência, Que destarte me instrui, como mãe terna, Que só para ensinar o filho pune.

No mais íntimo d’alma o virtuoso Acha quem o console na desgraça. Desgraçado, és tu só, tu miserável, Tu, que não do assassino o punhal temes,

Mas o punhal da própria consciência. Lei é da Humanidade, e não do acaso; Sofrer, sempre sofrer é seu destino. A Natureza o homem bruto cria,

O mundo o aperfeiçoa Com dores e trabalhos. Como se brunem com o atrito os seixos No revolver das ondas,

Ou como no crisol, à chama exposta, Se purifica a prata, Destarte, entregue à dor, doma-se o homem. O templo da verdade o erro escolta,

Armado de punhais, e de flagícios; E antes que a Humanidade entrever possa Um claro lume do seu divo rosto, Ah quantos são primeiro

Tristes vítimas do erro, Servindo de degraus da luz ao ingresso! Nossos olhos lancemos ao passado, E co’o fanal da história descubramos

Quantos martírios nossos pais sofreram. Tudo o que vemos nada é mais que a luta Da verdade, e do erro. A verdade, que herdada hoje gozamos,

Assaz regada foi com sangue humano; Por nós dezoito séculos lutaram, E nós pelo porvir lutamos hoje. Não é fora do mundo,

Engolfado em prazeres que embriagam, Em brando leito lânguido estendido, Rodeado de escravas, que o incensam, Como um rei do Oriente; nem na mesa

De esplêndido banquete, qual Lúculo, Que se colhem lições da experiência. Não; engana-se aquele, que Epicuro Mal interpreta, e diz: Eia, gozemos;

A vida no prazer cifra-se toda. É nos cárceres só, é nos perigos, Quando ao exílio marcha o justo Aristides, Quando Homero chorado pão esmola,

Quando no cárcer galileu medita, Quando do trono avito um rei baqueia; A experiência então a voz levanta: Sólon, Sólon, Sólon, bem mo dizias!

Do passado a lembrança é morta idéia; A experiência só, a experiência, Dura, severa mestra, Por caminhos de dores, entre espinhos,

Guia o incerto passo Do mortal que viaja sobre a terra. A dor é da verdade companheira; Quem busca a experiência, a dor encontra.

Por que pois lamentar se a dor é útil? Se ela é núncia de um mal, de que nos cumpre Fugir, ou evitar assaltos novos? O fogo que ao infante o dedo queima,

A refletir o ensina, enquanto os mimos Da terna mãe mil vezes o corrompem. Oh desgraçado aquele Que jamais suportou uma só mágoa,

E que de gozo em gozo vê seus dias Correr tranquilamente; Como a flor nasce, e morre, Mas como a flor também nada conhece;

Existe, mas não vive, Que é, sem dor, o prazer uma quimera. Para vermos a luz, que ânsias, que dores Não sofrem nossas mães? Mas nesse instante

As dores maternais, nascendo, herdamos. Glória, fama, saber dores nos custam; Até o último expiro a dor nos segue; E quem sabe se à dor põe termo a morte?

Como é feliz aquele que levanta Seu espírito a Deus, e com fé pura, No meio da tormenta, Que o mundo sem cessar contra nós arma,

Do céu auxílio espera, Enquanto sem conforto, entregue à raiva, Blasfema o ímpio contra Deus, e os homens. Feliz quem assoberba a iníqua sorte;

E, para o consolar, acha a virtude, Que benéfica brilha, Como em negra soidão plácido lume Alma esperança gera, prometendo

Asilo ao peregrino afadigado. Feliz, feliz mil vezes, quem tranquilo Não ouve o apuridar da consciência, E um só crime exprobrar-lhe!

E no leito da paz, ou na masmorra, Não vê punhais em sonhos, nem fantasmas. Mesmo quando os ruins dores lhe causem, Como Guatemosino atado, e posto

Sobre estendidas, chamejantes brasas, Com os olhos no céu, sereno exclama: Num leito estou de rosas! Entre afiadas rodas, açoutado

Com lâminas de ferro; Na cadeia, no circo, e na fogueira, Ou alvo da calúnia, O justo não stá só, Deus é com ele.

Cadeias, circo, infâmia, fogo, e morte, Tudo supera o justo. Como as nuvens pejadas de vapores Exalados da terra

Do coruscante sol a face cobrem, E por um pouco a Natureza enlutam; Mas depois da tremenda tempestade, De mais belo cetim o céu se arreia,

E o sol raios dardeja mais brilhantes, Assim depois da angústia, e da calúnia A inocência triunfa acrisolada. Ah! não nos lamentemos;

Que quanto mais se sofre mais se alcança. A dor só para o iníquo é um tormento. De Zeno as leis seguindo, Como se a não sentíssemos, vivamos;

Deus existe, e nos vê; Deus só nos julga.

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