Skip to content
1811–1882

XV

Gonçalves de Magalhães

Não, não é sangue; é fel envenenado, Que em minhas veias gira. Não, não é vida; são espinhos hirtos, São ervados acúleos, que incessantes

O coração me pungem. Não, não é ar; é o hálito da morte, Que o peito me comprime. Não são do mundo as cenas que me envolvem,

São as cenas do Inferno. É possível, meu Deus, que tanto sofra Um mísero mortal, e qu’inda viva? Queres ver do teu servo

A alma, de padecer já calejada, Sem murmurar, sem blasfemar té onde A paciência leve? Em mim acaso novo Job preparas?

Ou o meu coração não é de humano, Ou a dor já o tem empedernido Co’o reiterado embate. Oh meu Senhor, pequeno é o meu peito,

Para conter um coração repleto De tantas aflições, de angústias tantas. Tira-me a própria vida, Tira-me o sentimento,

Ou com tríplice lâmina de ferro Forra meu peito, e meus ouvidos cobre. Oh dever de homem probo! Hei de eu como uma incude duros golpes

Suportar insensível, sem queixar-me De quem martírios tais sem dó me causa? Sem dó?... E talvez mais; sem um remorso! Tu Zeno, assim me ensinas;

Filosofia austera, Eu sigo a tua lei, por ti me guio. Oh que esforço é preciso Na idade do prazer, e do interesse!

Eu chorei, e meus olhos se secaram; Nem mais em nova dor lágrimas novas Terei para chorar; as dores todas Fizeram-me tragar seus amargores;

Não há mais dor que apresentar-me possa Nova taça de acético veneno. O triste solitário, Que em áspero deserto transviado,

De improviso se vê acometido De cruéis serpes, que o pescoço lhe atam, E cravam-lhe no peito Agudas presas de peçonha cheias,

É a horrível imagem Do estado meu, do meu duro martírio. Mas quem poderá crer-me? Quem pode avaliar minhas angústias?

Mimosos do prazer, eia, deixai-me; De vossa compaixão não necessito, Vosso riso me ofende. Estala, oh coração, estala, acaba!

Não tens uma só fibra, Que ao golpe de uma dor não retinisse. Por que não deixas o meu corpo, oh alma? Que fogo de esperança inda te anima?

Oh esperança, quase que me foges! Não há consolação para o infelice, Que longe de seus pais, da Pátria longe, Definha entre pesares.

Que, oh mundo, com dores só misturas As lições que nos dás? A experiência Só com dores se colhe, Como uma flor de espinhos guarnecida?

São inúteis os livros, e os conselhos? É tudo a experiência? A experiência é só quem nos ensina A ciência da vida?

Oh infantil vaidade! Vós, oh jovens, cuidais que sabeis tudo, As páginas de um livro apenas lendo. Dos velhos desprezais os sãos conselhos,

E orgulhosos dizeis: — Hoje a velhice Lições deve tomar da juventude; Hoje de nossos pais acima estamos. Moço sou, como vós sábio julguei-me;

Como vós iludi-me. Ontem fagueira a sorte se mostrava, Ria-se a Natureza, E em sacros laços de amizade estreita

Os homens se apertavam. Hoje terrível tempestade brama, Os homens se repelem, se debatem, Como rábidas feras nas florestas.

Misterioso enigma, Inexplicável Ser, capaz de tudo, Fonte de vícios, de virtudes fonte, Que edificas, que assolas, e que sempre

De ruína em ruína ovante marchas, Como um Gênio de morte, Dize, o que és tu, oh homem! Cala-se a Natureza, e só ressoa

Um grito doloroso Dos túmulos erguido, Como um gemido de agoureiro Mocho, Quando sobre destroços esvoaça.

No peito a destra aplico; Palpita o coração fraco e pausado, Atento escuto, as pulsações calculo; Não me agita o remorso,

Nem espectros a noite me apresenta; E minha alma tranquila na tormenta Como um firme penedo, Nem a sombra de um crime a entenebrece.

Doce consolação de um peito aflito! Oh único juiz incorruptível, Oh meu Deus, ante quem brilha a verdade Mais clara do que o sol; a cujos olhos

O mais pequeno verme iguala ao homem, E a Natura descobre os seus arcanos; Tu, que o meu coração penetrar podes, Julga tu só e vê se são meus erros

Iguais às minhas dores. Enganar-te, oh meu Deus, não pode o homem! Se feia iniquidade nele habita, Se mereço o que sofro, ah deixa, deixa

Que os inimigos meus de mim se vinguem. Não me atendas, Senhor; meus ais despreza. Deixa expiar meus erros Na terra, onde este pó ao mal me prende,

Antes que eu suba ao tribunal eterno. Mas se fala a inocência em meu socorro, Mostra a verdade, salva-me, e absolve Aqueles que me infamam;

Que eu os perdôo, oh Deus; por ti o juro; Sou Cristão; — e o Cristão sofre, e perdoa.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
XV · Gonçalves de Magalhães · Poetry Cove