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1811–1882

XLI

Gonçalves de Magalhães

Nas veias o sangue já não me galopa, Nem sacros furores nos lábios me fervem; A lira canora do cisne Beócio Deixei sobre a trípode.

Os risos fagueiros do Gênio da Pátria Agora me inspiram idéias suaves. Os vossos encantos, oh belas patrícias, Eu canto dulcíssono.

Império das graças, oh sexo mimoso, Vós sois o princípio da nossa existência; Dos nossos prazeres orige’ inefável; Sem vós que seríamos?

A lua que brilha num céu azulado, E os raios argênteos no rio reflete, É quadro bem lindo! porém vossas faces Têm graças mais nítidas.

Os dias que alegres convosco passamos, São horas bem curtas, são breves instantes; E os breves instantes da ausência saudosa São noites bem tétricas.

O canto das aves, que soa nos bosques, É grato aos ouvidos do homem selvagem; Porém vossas vozes têm mais melodia Que as vozes dos pássaros.

A rosa tem cheiro que o ar embalsama, A rosa tem cores que esmaltam os prados; Porém para imagem da vossa beleza A rosa é inválida.

As águas têm perlas, o céu tem estrelas, Os campos têm flores, a terra tem ouro; Mas vós venceis tudo; vós sois da Natura A obra protótipa.

Por vós afinaram mil vates as liras; Por vós mil guerreiros à glória voaram; E até nações cultas por vós sacudiram Seu jugo tirânico.

Oh Anjos da terra, da Pátria ornamento, Donzelas, esposas, e mães carinhosas, Na luta, que temos co’o vil despotismo, Mostrai-vos magnânimas.

Os vossos encantos de prêmio só sirvam A quem ama a Pátria, ao sábio, e ao justo. Deixai que ociosos, e os nossos imigos No lodo revolvam-se.

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