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1811–1882

XL

Gonçalves de Magalhães

Nascido em virgem plaga Americana, Onde da independência o livre sopro Os homens vivifica; Onde de azul cetim num céu sem nódoa

Lúcido gira o disco coruscante, Que ao vate o gênio inflama; Sem que do medo a destra me agrilhoe, Porém venerabundo, a mente exalço

Ao herói de dous Mundos. Tu, da glória no céu, não dado a muitos, Rutilas fulgurante a par de Washington, Co’a luz que a liberdade

De seu divino rosto escapar deixa, Qual cometa fatal à tirania. Oh grande Lafaiete! Oh portentoso nome! honra da França!

Nome, que no orbe cresce, como em bosques, Altos, frondosos cedros Nos alcantis do Líbano se elevam, E as tormentas, e os raios assoberbam

Contra eles fulminados. De nós aprenderão os filhos nossos A repetir teu nome, ainda no berço, Com inocentes lábios;

Nossos filhos aos seus, estes aos netos Irão passando intacta esta lembrança; Como através dos evos As colossais pirâmides, que emblemas

São da grandeza, e da existência eterna, Ovantes têm passado. Mas é grande ardimento! Ave sem canto, Longe de seu vergel peregrinando,

Em remontado vôo Querer modular sons, cantar teu nome! Simpática afeição, mágico impulso A ti porém me arrasta;

E de prazer o coração no peito Expande-se a teu nome, qual se expande, Em perfumado eflúvio, O doce aroma do ananás gostoso.

E tu, qual prazer sentes, quando tomas Esse infante em teus braços? Esse infante gentil, de heróis progênie, Filho de Zenowiez, hoje sem Pátria

Que um Déspota roubou-lha? Qual te anima alegria esperançosa, Quando de Kosciuszko vês o sangue Girar em suas veias,

E as estranhas nutrir-lhe ainda tenras? Oh! como é grato levantar nos braços O filho de um guerreiro, Que malfadado sim, mas virtuoso,

Sobranceiro se mostra à sorte adversa! Ah, praza a Deus clemente Que por ti embalado esse menino, Por ti n’água lavado do batismo,

Raro exemplo seguindo De seus nobres maiores, seja um dia O que foi Kosciuszko, e o que tens sido. Oh! se o porvir contemplo,

Quem sabe se ainda um dia!... Mas não podem Humanas mãos romper o véu de trevas, Com que a Providência Esconde a mortais olhos o futuro.

Em sibilino arrojo não pretendo Interpretar mistérios. Cresça o jovem Emílio sempre ao lado Do imortal Lafaiete, e aprenda, e saiba

Amar a liberdade.

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