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1811–1882

XIX

Gonçalves de Magalhães

Deixemos este lúgubre aposento, Estas estreitas, tortuosas ruas, E subamos, Amigo, este fraguedo. Íngreme, escabrosíssimo, impossível

Parece que o vinguemos; Mas se à forte vontade a ação se aduna, O que há na terra que resista ao homem? Eia, Amigo, subamos.

Já as flores da noite alvinitentes, Que o firmamento esmaltam, A desmaiar começam, só co’a vista Dos arrebóis d’aurora.

Da terra alvos vapores se levantam Condensados, e no ar se desnovelam, Montes bosquejam, mares, e cidades, E nos campos se perdem do infinito,

Como agora se perde o pensamento Na vastidão de idéias, em que vaga. Subamos do rochedo até ao cume; Lá, respirando um ar puro e suave,

Recebendo do sol os primos raios, Louvores ao Altíssimo entoemos. Subamos. — Que vastíssima paisagem! Que cadeias de montes araçados,

E como torreões, grimpas, espectros, Às nuvens se levantam! Que tapetes de vinhas se desdobram, E as várzeas, e as encostas alcatifam!

Que escuros tetos de mesquinhas vilas Salpicadas aqui, e ali, quais combros De terra, que formigas amontoam! De tantas sensações extasiada,

Minha alma se sublima, e se converte Num hino harmonioso, Em louvor do Senhor da Natureza. A lucífera estrela ali fulgura;

Lá se ergue o Sol num Oceano de ouro, De rubins ondeado! Tu, que iluminas mil milhões de povos, Que outros tantos baixar tens visto ao nada,

E outros tantos subir ao grau daqueles; Cem, e cem vezes eu te vi radiante Atravessar contente e vagaroso De minha Pátria os campos,

Os serros, e as cidades, Como se, lei não sendo o movimento, Eterno no Brasil brilhar quisesses. Oh Sol, ind’ontem viste essa ditosa

Pátria, por quem suspiro aqui saudoso; Pátria, por quem me afano; mas se embalde, Longe dela acabar prefiro ao opróbrio De vê-la, e ser-lhe inútil.

Não, oh Pátria, não estou de ti distante; Comigo estás, é teu meu pensamento. Um desejo violento, irresistível, Como a enchente, que de alto se desaba,

Todo me ocupa, e o coração me abala; Desejo de te ver no orbe cantada Como a primeira das Nações da terra. Descansemos, Amigo,

Descansemos um pouco, que é difícil Por não trilhadas, perigosas sendas, Sem fadiga vencer tal penedia. Olha, vês tu aquele que pasmado

Debaixo nos contempla, e se confunde, Envolto na poeira, Co’as pequenas ovelhas que apascenta? Quiçá de nós dizendo esteja agora:

Eis dos homens té onde o arrojo chega! Por que a plana estrada desprezaram, Onde sem risco todos nós marchamos, Para perigos afrontar ousados?

Cairão, cairão; serão punidos... Assim mesquinhos entes invejosos, Tristes aves de agouro, Que no charco comum patinham, grasnam,

Quando vêm remontar altivos gênios Às sublimes esferas, Esses, cuja missão é o progresso, E das mãos arrancar da Natureza

Novas, úteis verdades, Clamam, praguejam, mas no charco morrem; Enquanto que de céu em céu voando, De Nação em Nação, de povo em povo,

Da Humanidade os astros benfeitores, Em torno a Deus, na Eternidade pairam De própria luz radiantes. Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,

Só por amor da Pátria, E entreguemos a Deus nosso destino. Se à região dos astros não subirmos, Pirilampos seremos nos desertos,

E aos nossos reunidos, luz daremos, Que nas trevas talvez ao desgarrado Viajor encaminhe. Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,

Só por amor da Pátria, E entreguemos a Deus nosso destino. Ah subamos ainda, E cheguemos ao tope da montanha.

Esta pedra que cai, bate, e reflete, E assim de curva em curva saltitante, Vai rolando, e batendo, até que chega Desfeita em mil pedaços,

É a imagem dos seres subalternos, Que só grandes parecem pela altura, Em que a cega ignorância os colocara; Mas quando se despenham, desparecem,

Sem que se abale o mundo; nem arrastam Satélites consigo, A não ser a poeira Que só os rodeava.

Assim muitos colossos se abismaram, Colossos de vaidade: Assim se enterrarão no eterno olvido Muitos que a Pátria nossa inda hoje oprimem

Co’o peso da ignorância. Nossa Pátria tão bela! — Nossa Pátria Tão digna de um porvir grande e sublime! Ei-la, como um cadáver de gigante,

Roída por milhões de vis insetos, Que ela mesma alimenta! Olha, Amigo, esta pálida saudade, Que nesta penedia a custo vive.

Aqui não é que vegetar devia Flor tão cara à minha alma. Vês tu como ela pende a roxa fronte Mal que a colho, e a coloco no meu peito?

Como ela o coração, sofrendo a mágoa Que o nome dela explica, Longe da Pátria, em que meus pais habitam, De languidez se encolhe.

Irás comigo, oh flor, terna saudade, Inda que murcha e seca; — irás comigo, E acabaremos juntos.

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