Deixemos este lúgubre aposento, Estas estreitas, tortuosas ruas, E subamos, Amigo, este fraguedo. Íngreme, escabrosíssimo, impossível
Parece que o vinguemos; Mas se à forte vontade a ação se aduna, O que há na terra que resista ao homem? Eia, Amigo, subamos.
Já as flores da noite alvinitentes, Que o firmamento esmaltam, A desmaiar começam, só co’a vista Dos arrebóis d’aurora.
Da terra alvos vapores se levantam Condensados, e no ar se desnovelam, Montes bosquejam, mares, e cidades, E nos campos se perdem do infinito,
Como agora se perde o pensamento Na vastidão de idéias, em que vaga. Subamos do rochedo até ao cume; Lá, respirando um ar puro e suave,
Recebendo do sol os primos raios, Louvores ao Altíssimo entoemos. Subamos. — Que vastíssima paisagem! Que cadeias de montes araçados,
E como torreões, grimpas, espectros, Às nuvens se levantam! Que tapetes de vinhas se desdobram, E as várzeas, e as encostas alcatifam!
Que escuros tetos de mesquinhas vilas Salpicadas aqui, e ali, quais combros De terra, que formigas amontoam! De tantas sensações extasiada,
Minha alma se sublima, e se converte Num hino harmonioso, Em louvor do Senhor da Natureza. A lucífera estrela ali fulgura;
Lá se ergue o Sol num Oceano de ouro, De rubins ondeado! Tu, que iluminas mil milhões de povos, Que outros tantos baixar tens visto ao nada,
E outros tantos subir ao grau daqueles; Cem, e cem vezes eu te vi radiante Atravessar contente e vagaroso De minha Pátria os campos,
Os serros, e as cidades, Como se, lei não sendo o movimento, Eterno no Brasil brilhar quisesses. Oh Sol, ind’ontem viste essa ditosa
Pátria, por quem suspiro aqui saudoso; Pátria, por quem me afano; mas se embalde, Longe dela acabar prefiro ao opróbrio De vê-la, e ser-lhe inútil.
Não, oh Pátria, não estou de ti distante; Comigo estás, é teu meu pensamento. Um desejo violento, irresistível, Como a enchente, que de alto se desaba,
Todo me ocupa, e o coração me abala; Desejo de te ver no orbe cantada Como a primeira das Nações da terra. Descansemos, Amigo,
Descansemos um pouco, que é difícil Por não trilhadas, perigosas sendas, Sem fadiga vencer tal penedia. Olha, vês tu aquele que pasmado
Debaixo nos contempla, e se confunde, Envolto na poeira, Co’as pequenas ovelhas que apascenta? Quiçá de nós dizendo esteja agora:
Eis dos homens té onde o arrojo chega! Por que a plana estrada desprezaram, Onde sem risco todos nós marchamos, Para perigos afrontar ousados?
Cairão, cairão; serão punidos... Assim mesquinhos entes invejosos, Tristes aves de agouro, Que no charco comum patinham, grasnam,
Quando vêm remontar altivos gênios Às sublimes esferas, Esses, cuja missão é o progresso, E das mãos arrancar da Natureza
Novas, úteis verdades, Clamam, praguejam, mas no charco morrem; Enquanto que de céu em céu voando, De Nação em Nação, de povo em povo,
Da Humanidade os astros benfeitores, Em torno a Deus, na Eternidade pairam De própria luz radiantes. Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,
Só por amor da Pátria, E entreguemos a Deus nosso destino. Se à região dos astros não subirmos, Pirilampos seremos nos desertos,
E aos nossos reunidos, luz daremos, Que nas trevas talvez ao desgarrado Viajor encaminhe. Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,
Só por amor da Pátria, E entreguemos a Deus nosso destino. Ah subamos ainda, E cheguemos ao tope da montanha.
Esta pedra que cai, bate, e reflete, E assim de curva em curva saltitante, Vai rolando, e batendo, até que chega Desfeita em mil pedaços,
É a imagem dos seres subalternos, Que só grandes parecem pela altura, Em que a cega ignorância os colocara; Mas quando se despenham, desparecem,
Sem que se abale o mundo; nem arrastam Satélites consigo, A não ser a poeira Que só os rodeava.
Assim muitos colossos se abismaram, Colossos de vaidade: Assim se enterrarão no eterno olvido Muitos que a Pátria nossa inda hoje oprimem
Co’o peso da ignorância. Nossa Pátria tão bela! — Nossa Pátria Tão digna de um porvir grande e sublime! Ei-la, como um cadáver de gigante,
Roída por milhões de vis insetos, Que ela mesma alimenta! Olha, Amigo, esta pálida saudade, Que nesta penedia a custo vive.
Aqui não é que vegetar devia Flor tão cara à minha alma. Vês tu como ela pende a roxa fronte Mal que a colho, e a coloco no meu peito?
Como ela o coração, sofrendo a mágoa Que o nome dela explica, Longe da Pátria, em que meus pais habitam, De languidez se encolhe.
Irás comigo, oh flor, terna saudade, Inda que murcha e seca; — irás comigo, E acabaremos juntos.
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