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1811–1882

XIII

Gonçalves de Magalhães

Eis-me no mundo!... Aqui presente o tenho Todo, tal como ele é, em breve quadro! Aqui os homens o prazer procuram, E mil vezes aqui a dor encontram.

Nestas ruas de flores, Confundidos os sexos, as idades, E o vício confundido co’a virtude, Se encontram, se abalroam.

Debaixo destas árvores em renques, Qu’inda há pouco de gala se cobriam, E já empalidecem só co’o sopro Longe do inverno, como reis de um dia,

O fido amante espera A retardia amada. Meditabundo aqui passeia o sábio, E inspirações recebe;

Aqui o velho ao sol as cãs aquece; E vê correr o infante após seu arco, Inquieto e afanado, Como após a Fortuna corre o adulto.

Aqui sobre esta pedra solitário O cândido Filinto repousava, Chorando a Pátria, que lhe fora ingrata, E, malgrado a injustiça, amando-a sempre.

Co’os Mártires nas mãos, n’alma a poesia, Aqui ao Luso idioma Imortal monumento ergueu glorioso, Que ao lado dos Lusíadas sublimes,

Parelhas correrá co’a eternidade. Que imenso é o Universo! que infinito! E tu, Senhor, tu só num volver de olhos Tudo vês, tudo alcanças!

Como é este lugar tão limitado! Entretanto o que o seu recinto abrange Meus olhos não distinguem. Esta coluna d’água impetuosa,

Que compelida esguicha, e no ar se curva Pelo vento açoutada, De um lado e de outro lado vacilante, Como um branco penacho aos ares solto,

E de poeira em forma Cai, e tranquila jaz no largo tanque; Representa, oh mortal, a história tua! Assim humilde nasces,

Da terra assim te elevas arrojado, Assim te agita das paixões a fúria, Assim pendes, e em pó no comum fosso Descansas, té que soe a voz terrível

Do Arcanjo do Senhor, no eterno dia. Desde que no horizonte o sol fulgura, Té que a Noite, e o silêncio se anunciam, Ondas de homens sobre ondas incessantes

Este recinto invadem. De quatro lados sete portas francas; E um só não vejo em vestes que o trabalho, E a indigência assinalem.

Tentais embalde entrar: — ide-vos, pobres, Ide-vos, homens ao trabalho afeitos. Ergueram, vossas mãos estas muralhas, Vossas mãos estas portas fabricaram,

Que hoje ante vós se fecham; Com o vosso suor foi amassada A terra, que estas árvores sustenta, Mas gozar não podeis da sombra delas

Vós deveis sementar; outros que fruam. Aqui vós não entrais: — ide-vos, pobres. Como réproba assim por toda parte Com desprezo se expulsa a indigência,

Feio crime entre os homens! Aquele ontem beijava o pó da terra, Hoje à custa de usura, e latrocínio, Envernizado com pomposo nome,

Grande, nobre se ostenta! Tal a serpente em torcicolos chega Arrastando-se ao cume de alto monte, Que o brioso animal vingar nem tenta.

O mundo é sempre assim, é sempre o mesmo; Os esforços, os bens da sociedade São sempre para quem menos carece. Entre estes arvoredos lá diviso

Do Gigante da terra A Coluna imortal, e a estátua egrégia, Qu’inda parece ameaçar o mundo. Ali vejo domado, e curvo o orgulho

Dos déspotas dos povos. Ali a Liberdade Sentada está no carro da vitória, De louros coroada, mas sombria.

Ali vejo de Deus a onipotência, Que ergue, quando lhe apraz, do pó um homem, Para calcar dos Reis o cetro, e o orgulho. Ali vejo o valor, vejo a justiça;

Grécia, e Roma ali vejo num só Gênio! Seu corpo tem por túmulo um rochedo, Onde continuamente o Oceano chora; Seu grande nome a terra toda o sabe.

O palácio aqui está, de um rei morada. Quantas recordações nele desperta! Co’a mesma rapidez com que num sonho As sombras se sucedem,

Tal os fastos da história se me antolham Cena por cena em quadros animados. Aqui Paraguassu, filha dos bosques, Do esposo ao lado entrou extasiada,

Vendo a grandeza da Européia corte. Um rei lhe deu a mão; e uma rainha Da boca sua ouviu as maravilhas Do seu caro Brasil, então deserto.

Ah saiamos daqui; que horríveis quadros Me vêm ora turbar a fantasia. Marmóreos simulacros Dos divinos heróis da Grécia, e Roma,

Descerrai vossos lábios; pois que o gênio De bruta mole em homens converteu-vos, Falai, por Deus falai; eu vos conjuro; Dizei-me se melhores do que os de hoje

Os mortais foram das passadas eras. Mas vós não respondeis; ficai, sois pedra. Esta escada subamos; Como silencioso se desliza

O outrora ovante Sena! Nem murmura! Como humilde atravessa estas arcadas! Não sois assim, da minha Pátria oh rios! Oh Paraná, oh túmido Amazonas!

Eu já te vi, oh Sena, Altivo assoberbar estas muralhas; Hoje mesquinho nem banhá-las podes: Hoje o ousado menino a ti se lança.

De um destronado rei és triste imagem; Sem pompa assim caminha desprezado Dos próprios seus, que o respeitaram, servos: Tudo assim é na terra!

No meio estou da capital do Mundo! Ali vejo dos sábios a morada, Aqui das leis o templo, Entre suas colunas vagueando

Com talhe ameaçador se me afigura Do rival de Demóstenes o espectro. Deste lado o obelisco majestoso, Que à terra estranha os homens transplantaram,

Como um filho grosseiro dos desertos Entre um povo que os séculos poliram. Sabes tu que lugar marcar vieste? Sabes tu essa cor o que nos mostra?

Esta terra que ocupas foi outrora Lugar do cadafalso! foi banhada Co’o sangue de Luís, de um rei co’o sangue. Mas o sol se retira,

E já se enluta o céu, e a Natureza. Por que todos ali vão reunir-se? Melódicos acentos de harmonia Meus ouvidos adoçam!

Oh música divina! És tu que atrais os homens, que dispersos Sem ordem vagueavam. Do céu foi inspirado o que primeiro

Um som com outro som cadenciando, Pôde dar o transunto harmonioso De Deus, da Sociedade, e do Universo. Já não vedes, meus olhos; novas trevas

Envolvem do Senhor as maravilhas. De dia em dia assim, de noite em noite, Horas, anos, e séculos se abismam No seio da perpétua Eternidade.

O homem nasce, e morre; Tu só, meu Deus, és grande.

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