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1811–1882

XI

Gonçalves de Magalhães

Oh Beleza! Oh potência invencível, Que na terra despótica imperas; Se vibras teus olhos Quais duas esferas,

Quem resiste a seu fogo terrível? Oh Beleza! Oh celeste harmonia, Doce aroma, que as almas fascina; Se exalas suave

Tua voz divina, Tudo, tudo a teus pés se extasia. A velhice, do mundo cansada, A teu mando resiste somente;

Porém que te importa A voz impotente, Que se perde, sem ser escutada? Diga embora que o teu juramento

Não merece a menor confiança; Que a tua firmeza Stá só na mudança; Que os teus votos são folhas ao vento.

Tudo sei; mas se tu te mostrares Ante mim como um astro radiante, De tudo esquecido, Nesse mesmo instante,

Farei tudo o que tu me ordenares. Se até hoje remisso, não arde Em teu fogo amoroso meu peito, De estóica dureza

Não é isto efeito; Teu vassalo serei cedo ou tarde. Infeliz tenho sido até gora, Que a meus olhos te mostras severa;

Nem gozo a ventura, Que goza uma fera; Entretanto ninguém mais te adora. Eu te adoro como o Anjo celeste,

Que da vida os tormentos acalma; Oh vida da vida, Oh alma desta alma, Um teu riso sequer me não deste!

Minha lira que triste ressoa, Minha lira por ti desprezada, Assim mesmo triste, Assim malfadada,

Teu poder, teus encantos pregoa. Oh beleza, meus dias bafeja, Em teu fogo minha alma devora; Verás de que modo

Meu peito te adora, E que incenso ofertar-te deseja.

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