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1811–1882

X

Gonçalves de Magalhães

Sim, é certo; a Natura não se esgota; Mas providente de seu seio tira Um a um esses Gênios, que benigna Co’os séculos reparte;

Assim, sem fatigar, encômios cobra, E co’a força do mágico artifício Os homens doma, os encadeia, e guia. Dos Gênios a importância se conhece

Quando, enchendo a missão, desaparecem. Se os rios as campinas fertilizam, Os lavradores folgam; Mas extintas as fontes d’alma veia,

Atenuam-se os campos, E a Natureza em torno empalidece; Aos pedregosos, descobertos leitos, O homem chega, e d’água uma só gota,

Para a sede aplacar, não acha, e chora; Mas lágrimas a sede não saciam! Então do bem se lembra que gozara, Do bem que já não goza.

Quem não respeita o Gênio? Quem não sente Bater-lhe o coração inopinado, Quando escuta os angélicos acentos Do ser misterioso,

Que a Natureza inspira? Na culta Grécia, na guerreira Roma Endeusada a Harmonia cultos teve; Entre bárbaros povos, Galos, Francos,

Celtas, Bretões a música divina Os cruentos costumes adoçava. Nos Brasílios sertões, duros Tamoios, Intrépidos Caités ao som se curvam

Da harmonia selvagem; Como divinos, de Tupã mimosos, Seus músicos respeitam. A iluminada Europa

Não desdenha entoar sagrados salmos No Templo do Senhor; atado ao remo O pescador ao som das vagas canta, Canta o proscrito sobre estranhas plagas,

E o peregrino em solitárias selvas. O canto maternal o infante acalma, E a cólera dos homens se desarma, Quando escuta suave melodia.

Eis em campo o guerreiro; Como brioso marcha, quando troa A bélica trombeta! Patrióticos hinos entoando,

Sente para o valor estreito o peito. Entre selvas de lanças, e de espadas, Coberto co’uma abóbada de fumo, Através de pelouros sibilantes,

Assoberbando a morte, Vai nos braços da glória Arvorar os pendões vitoriosos! Na guerra hinos guerreiros,

Na paz canções de amores! Tanto, oh música, podes sobre os homens, Que em toda parte imperas! Sim, que os Anjos, os céus, o sol, os mares,

Os vales, as montanhas, as florestas, Aves, brutos, e homens, E essas centenas de milhões de mundos, Que cadentes vagueiam no infinito,

É um sistema harmônico, perpétuo, Em glória do Supremo Ser dos seres! Rara mulher, tu viste humildes servos Deporem a teus pés dons preciosos,

Que os Reis, e os Potentados te enviavam. Tu viste os próprios Reis, e seus validos, E deles homenagem recebeste. Viste os povos da Europa arrebatados

Aqui e ali ao som de teus acordos, Que embebiam nos seios d’alma o encanto. Viste, sim viste inúmeras coroas Lançadas a teus pés; e prosseguias

Ufana a deslizar as sibilinas Dulcíssonas cadências. Eis do Gênio o triunfo! Glória ao Gênio se dê, perene, eterna!

Sobre um leito de rosas, e de louros, Hoje repousas, não no esquecimento, Mas no arroubo da glória: Como o guerreiro que na paz desfruta,

Vendo os despojos dos vencidos povos, Grata consolação que a alma embriaga. Tudo o que te rodeia manifesta Teu imortal renome.

Altares te ergueria a prisca Grécia, Se a prisca Grécia te embalasse o berço. Da própria filha tua a voz canora, Voz que tão alto sobe, e já promete

Outro novo milagre de harmonia, Também te louva, e exalta; Que se o nome dos pais herdam os filhos, A glória filial os pais sublima.

Ah! não desdenhes receber louvores Do peregrino incógnito, que passa Por estrangeiras plagas Sem arruído, como o mudo sopro

Das matutinas, solitárias auras. Mil vezes proferir ouvi teu nome No novo, e velho mundo, e jamais pude Augurar-me a ventura

De te ver, de te ouvir, e mais ainda, De receber de ti sinais de estima. Longe da Pátria o viajor saudoso Bem raras vezes o prazer encontra.

De cidade em cidade andado tenho, Reinos atravessei, cantões, e vilas, Vinguei gelados Alpes, e Apeninos, Vales desci sombrios, subi torres,

Sempre co’a Pátria minha na lembrança; Como a andorinha que de teto em teto Salta, sem que se esqueça de seu ninho. Tudo da Pátria a idéia me revive,

Mas nada me consola; Em parte alguma não achei ainda Um coração de pai, de mãe, de amigo, Que vendo-me partir, pesar sentisse,

E ao menos me dissesse: — Deus te guie. Sublime Catalani, tu me honraste! Talvez única sejas, que te lembres Do peregrino errante,

Quando ele, já na Pátria rodeado Dos velhos pais, de irmãos, e dos amigos, Refrescando a memória das viagens, Entre, os que viu, prodígios,

Cheio de comoção, citar teu nome, E dizer: eu a vi; falei com ela! Pago ao Gênio um tributo merecido, Que a gratidão me inspira;

Fraco tributo, mas nascido d’alma.

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