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1811–1882

X

Gonçalves de Magalhães

Longa foi a viagem; Assaz lutastes; descansai agora. Depois de haver vingado alpestre monte Desde o albor da manhã, o peregrino

Afadigado desce, E envolto em trevas vai pousar no vale. Para vós assaz auroras madrugaram; Por vós luas assaz alvas luziram;

Assaz de flores esmaltou-se a terra, E de frutos as árvores copadas. Sim, sim, assaz gozastes; Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.

Basta! — A hora soou; abre-se a campa, E o sopro do seu antro, Como o vapor da cânica caverna Nas margens do sombrio Aniano lago,

Da vida vos apaga a tênue flama. Para vós basta, oh Velhice! Inda o sol tem resplendores, Inda a noite tem estrelas,

Inda a lua alvos fulgores. Inda os prados reverdecem E de florzinhas se arreiam; Inda, suspensos nos ramos,

Os passarinhos gorjeiam. Inda o zéfiro sereno Cheio de aroma, e doçura, Fruindo o néctar das flores,

Na madrugada murmura. Inda a cascata ruidosa Entre seixos se despenha; Inda o som da sua queda

Ressoa ao longe na brenha. Inda os regatos deslizam, As feras nos bosques rugem, E lambendo a branca areia,

Nas praias as ondas mugem. Tudo vida inda respira; A terra não ‘stá mudada; Vós só marchais, oh Velhice,

Triste, débil e curvada. Vossos olhos se fecharam Ao quadro da Natureza; Em torno de vós só giram

A morte, o horror, e a tristeza. Tudo em seu morno silêncio Agora vos anuncia Que a noite só vos pertence,

Que para vós vai-se o dia. A noite eterna vos estende os braços, Ah! preparai-vos para o sono eterno. Basta! — E’ hora das preces.

Funéreo som no templo os bronzes vibram, E o eco seu parece dizer — morte! Sob o peso da fronte encanecida, Já se curva e vacila o vosso porte,

Qual co’os flocos de neve a frágil hástea; Entoastes o cântico da vida, Entoai vosso cântico de morte; Como o cândido cisne,

Que indo descer à escuridão do lago, Cantando diz-lhe adeus na fatal hora, Para nunca mais ver raiar a aurora. Basta! — E’ hora das preces, oh Velhice!

Para o mundo acabastes. Vossa alma resgatai do barro impuro; O céu, que alma vos deu, pede vossa alma, E a terra vosso corpo está pedindo;

Ah! dai à terra o que vos deu a terra! Mas ah, não choreis! E por que chorais? Se vós não sabeis

Nem o que ganhais, Nem o que perdeis. Perdeis a terra, é certo; mas que importa, Se celeste esperança vos conforta!

Viver é sonhar, Sonhar é dormir; Deveis acordar, Para ao céu subir,

E no céu velar. Acordai; sossegai o aflito peito, Que ides deixar o amargurado leito. O pranto enxugai,

Bani o temor; O Nome entoai Do Eterno Senhor; E a Ele voai.

Vossa bênção lançai à Mocidade, Que vai na luta entrar da Humanidade.

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