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1811–1882

VIII

Gonçalves de Magalhães

Vós me vedes, Deus Eterno, Como eu sou tão pequenina; Minha alma é inda inocente, Tão pura como a bonina.

Débeis como minhas vozes São inda meus pensamentos; Do mundo nada conheço, Nem prazeres, nem tormentos.

Qual tenro botão de rosa Que à sombra da rosa cresce, Sem temer o vento, e a chuva, De um frouxo raio se aquece.

Mas pouco a pouco crescendo, Desabrocha, e cheiro exala, Orna o prado que a sustenta, E da roseira é a gala.

Assim eu filhinha tenra, A meus pais devo esta vida; A seu lado eles me educam, Por eles serei querida.

Hoje inocente me chamam! Oh como é bela a inocência! É a virtude dos Anjos, É das virgens a ciência.

Vós, oh Deus, que podeis tudo, Concedei-me por piedade Que este aroma da inocência Me acompanhe em toda idade.

Oh meu Deus, dai à minha alma Puro e santo pensamento, Como o perfume do templo, Que sobe ao vosso aposento.

Dai a meus pais longa vida, E àqueles que à minha infância Prestam socorros contínuos Com tanto amor e constância.

Que felizes, que ditosos Por vós, oh Deus, protegidos, Passem seus dias, seus anos Como astros, sem ser sentidos.

Vigorai minha fraqueza Co’a vossa sabedoria. Oh Deus, ouvi minhas preces, Escutai-me neste dia.

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