Skip to content
1811–1882

VII

Gonçalves de Magalhães

Oh minha infância! Oh estação de flores! De inocente ilusão alva saudosa! Inda hoje te apresentas Ante mim, como a imagem deleitosa

De um sonho que encantou-me a fantasia, Ou como a aurora de um formoso dia. Oh da infância atrativos lisonjeiros! Mentirosos afetos!

Com que prazer amigos passageiros, Inúmeros, na infância contraímos! E quão fáceis após os repelimos, De ligeiras palavras agastados.

Oh como é lindo O tenro arbusto Na primavera! Como parece

Que se está rindo, Quando o balança Zéfiro brando; Quando descansa

Sobre os seus ramos O passarinho, E modulando Doces reclamos,

Vai o ar vizinho Harmonizando! Como é belo esmaltado de flores, Exalando balsâmico aroma;

D’ele em torno voltejam amores, E se escondem debaixo da coma. Mas eis que o adusto Vento do norte,

Soprando forte, Já o abala; O tenro arbusto Neste tormento

Todo se dobra; A verde gala Amarelece; E o duro vento,

Que em fúria cresce, Vai arrancando Folha por folha, E sobre a terra

Secas lançando; Té que despido O deixa enfim. O tempo assim

Nos vai roubando Gratos prazeres Da tenra idade, Quantos amigos

A infância tem; Até que vem A puberdade Com seus perigos;

E desta sorte Chega a velhice, Tronco gelado, Desamparado;

Até que a morte, Como um tufão, Lança-o no chão! Oh quão perto a velhice está da infância!

E quão perto da infância a morte adeja!

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
VII · Gonçalves de Magalhães · Poetry Cove