Mal que à Natura se abre a inteligência, E o primo pensamento a alma desperta, Logo a idéia de Deus d’ela se apossa, E a origem sua, e o seu destino aclara.
Súbito um fogo, mais que o sol brilhante Que as gerações dos trópicos abrasa, Mais veemente que os vulcões da terra, N’alma se ateia, fogo inexaurível,
Casto fogo de amor, que interno a lavra, E a Deus a sobe em espontâneo culto. Não, o medo não foi quem sobre a terra Os joelhos dobrou do homem primeiro,
E as mãos aos céus ergueu-lhe! Não, o medo Não foi o criador da Divindade! Foi o espanto, o amor, a consciência, E a sublime efusão d’alma, e sentidos!
Viu o homem seu Deus por toda parte, E sua alma exaltou-se de alegria. Mas no amoroso êxtase não pára, A interna adoração só lhe não basta,
Não se farta de amor, que amor sagrado É invencível, poderosa força, Que o espírito levanta ao infinito, Como a atração os orbes equilibra
Na imensidade, a que escapar não podem. Deve o espaço conter a sacra imagem De sua adoração, devem os filhos, Os netos devem nas futuras eras,
Vendo esta imagem, adorar o Eterno. Mas, oh homem, que ousado intento é este? Erguer um templo a Deus!... Que! porventura Templo o espaço não é digno do Eterno?
As montanhas, o mar, os céus, os astros Assaz não ornam do Senhor o templo? Ou temes que em tão vasto santuário, Nesse profundo abismo do infinito,
Vê-lo teus olhos míopes não possam? Como possível é que espaço estreito Abranja o Criador, que enche o Universo? Mas pagas um tributo; — Ele to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha, Sem descanso trabalha dia, e noite; Que teu Deus não repousa um só instante, Para a ordem manter de tantos mundos.
Ah se ele um só minuto, repousasse, Que seria de ti, deste Universo? Alfim teu templo ergueste; reuniste Tudo que há de mais belo sobre a terra,
E sec’los no trabalho se passaram! Tudo aqui fala, tudo aqui revela A força oculta que sustenta o homem, E o destino imortal na Eternidade.
A rigidez do mármore, e a brancura Duração, e pureza simbolizam; A larga base, a altura, a esbelta forma, A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,
E parece querer fugir do espaço; A áurea Virgem, que brilha em seu fastígio, E este povo de estátuas, que a rodeiam, Todas de branco mármore polido,
Que a glória do Senhor perene cantam; Tudo, enfim tudo sem cessar proclama, Que o pensamento que tão alto voa, Que o pensamento que tais obras cria,
Que o pensamento que só Deus concebe, Tem no tempo a existência, e não se curva À lei que rege o habitador do espaço. Tão simples como Deus, donde ele emana,
Não se aniquila como bruta mole; Mas em louvor sem fim, a Deus unido, Vive eternal em toda a Eternidade. Assim é que o espírito celeste,
Que a massa humana anima, e nela impera, De seu Deus concebendo a idéia pura, Da terra se desprende se sublima, E do sagrado amor nas ígneas asas
Sobe ao seio do Eterno, que o gerara. Assim é que das lâmpadas do templo Pirâmides de fogo se levantam, E se perdem nos ares, qual se perde
O pensamento humano no infinito. Santa Religião, sublime, augusta, Tu a idéia de Deus esclareceste, Idéia que, nas trevas que envolviam
A alma humana, brilhou como um relampo. Divina inspiração, tu só podias O espírito subir ao seu Princípio, A despeito do mundo, e dos sentidos
Nem sempre verdadeiros. Tu revelas Sacras verdades aos humanos úteis, Que fora de teu grêmio embalde o homem Orgulhoso procura; ao desgraçado
Oculta mão estendes caridosa: Sempre consoladora, afável sempre, Que mal há aí, que em ti cura não ache? Ao som de tua voz misteriosa
Os errantes selvagens suspenderam As mãos de sangue tintas, e prostrados Sobre a terra, até ali inculta e brava, A insólita voz tua repetiram
Em espontâneo arroubo. — A Natureza Riu-se então, quando viu pela vez prima Um homem abraçar o outro homem, E em socorro comum viver jurarem.
Quis o homem tecer os teus louvores, E a primeira palavra foi um hino, O primeiro discurso Poesia. E o homem, que até ali solto vagava,
Fraco, impotente entre animais ferozes, Pelo místico cântico atraído, A bronca penedia abandonando, A viver começou em sociedade.
O gênio então nasceu! — Qual para o mundo Entre os astros o sol mais claro brilha, E aos outros astros sua luz envia, Deus o gênio acendeu entre mil almas,
Para ser o fanal da Humanidade. Santa Religião, amor divino, Que benefícios sobre a terra espalhas! Quanto é misterioso o Ser que inflamas!
De quanto ele é capaz! Vejo donzelas, Roboradas por ti, vencer a morte! Vejo feros tiranos destronados, Vejo Nações erguidas, e cidades,
Seus louros a teus pés heróis deporem, As Ciências, e as Artes florescentes, Firme a Moral, as Leis, a Liberdade, E a Humanidade inteira que te abraça,
E te proclama como Mãe de tudo. Oh das Religiões a mais perfeita, Oh única de Deus, e do homem digna! Religião plantada no Calvário,
E co’o sangue do Cristo alimentada! Religião de amor, de paz, de vida! Tu, que civilizaste a Europa toda, E primeira na América lançaste
O gérmen da grandeza, a que ela aspira; Tu, que marcas de Deus a majestade, Os direitos do homem sobre a terra, E o seu porvir sublime além da morte;
Tu, que aclaras os povos, e co’os povos De progresso em progresso ovante marchas, Como a mãe que acompanha o caro filho, Sem que a tua divina essência percas;
Teus inefáveis dons benigna espalha Sobre os filhos dos homens, sempre... sempre. Religião, inflama, e purifica Meus pensamentos, e conforto presta
Ao infeliz peregrino que te invoca, E que só em teu grêmio paz encontra.
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