Skip to content
1811–1882

IV

Gonçalves de Magalhães

Desaparece o sol, o céu negreja, O rígido aquilão em fúrias brama, E em cada vaga a morte armada se ergue. Hei de eu morrer, oh Pátria,

Sem que um suspiro teu sequer mereça? Sem que minha existência útil te fosse? E este mar cavará o meu sepulcro? Meu corpo rolará entregue às ondas,

Té que os marinhos tigres o devorem? Não terei uma campa, um epitáfio, Onde no dia aos mortos consagrado As lágrimas de amigo se deslizem?

Eu estava tranquilo... Como um brando regato serpenteia Entre florida, perfumada relva, Ou como a lua plácida fulgura

Na abóbada celeste, Recamada de nítidas estrelas, Assim os dias meus se devolviam Em suaves vigílias, brandos sonos.

Tinha um pai, uma mãe, irmãos, amigos; Debaixo de meus passos se movia, Sem qu’eu sentisse, a terra; Ora de humana voz ternas cadências

As passageiras mágoas me adoçavam, Ora coberto com dosséis de folhas, Que em chuveiros de flores me cobriam, Terno cantava ao som da frauta agreste

Que o sabiá simula. Se no cume da serra a tempestade Caliginosos braços estendia; Se nas torres dos templos se esbarravam

Lampejantes coriscos; Na paterna mansão, ermo de susto, Escutava o trovão, e o hino excelso Que entoavam meus pais venerabundos.

Oh! com que rapidez tudo se muda! O homem nem prevê próximos males! Aqui, neste Oceano, Sem que sequer um só prazer desfrute,

Tudo é horror, e um vasto cemitério. De cada lado gigantescas vagas, Irritadas elevam-se, curvando Sobre o navio que sem tino vaga.

Negras nuvens do sol a face enlutam; Soltos trovões se embatem, troam, bramam; Rijo sibila o vento nas enxárcias; Ante a proa em montanhas espumosas

Pulveriza-se o mar, roncando horríssono; Gemendo as vergas beijam A onda que se empola, ou já se afunda, Quais débeis canas que o tufão acurva.

Que horror, oh céus! Que sorte nos aguarda! Se é nossa estrela que morramos todos, Quero ser o primeiro Em quem, oh ondas, sacieis a fúria.

Procuro embalde, cintilar não vejo Santelmo de esperança; Só vejo a morte abrir a foz medonha Em cada vaga, que engolir promete

O lenho, surdo à voz do palinuro. As velas ferram desmaiados nautas, Rouqueja o capitão, soa a buzina, Mulheres tremem, criancinhas choram,

E sobre a bomba passageiros curvos Arquejando se afanam. Fitas de fogo ardentes, inflamadas, Entre rotos listões de negras nuvens,

No horizonte se estendem; Vasto lago de sangue o mar parece; Relâmpagos mil chovem, mil se apagam; Raios dardeja o céu enfurecido,

E os vermelhos coriscos no ar se cruzam, Como cipós que os bosques emaranham, Ou qual num rio amontoadas serpes, Curvilíneas se enlaçam, sobem, descem.

Oh meu Deus! Oh meu Deus, teus olhos volve Sobre os filhos dos homens. É verdade, Senhor, eles ingratos No tempo da bonança se esqueciam

Da tua onipotência; Ousamos, ímpios, profanar teu nome; Mas piedade, Senhor, hoje invocamos. Como filhos rebeldes,

Que os sãos conselhos paternais desprezam, Zombam mesmo dos pais, e de delírio Em delírio à desgraça se encaminham; E quando já no poço da miséria

Lhes brada a consciência, Então os pais invocam; E se os pais os não salvam, ali morrem. Tu és pai, oh meu Deus! Misericórdia!

Um sopro de teus lábios foi bastante Para armar contra nós a tempestade; Um sopro de teus lábios Basta para acalmá-la.

À tua voz, Senhor, tudo se humilha, O mar, a terra, o céu, o vento, o raio; Fala, seremos salvos. Amaina o vento, o mar se tranquiliza!...

Maravilha de Deus!... As nuvens subam A teus pés os meus hinos, Hinos acesos nos transportes d’alma; Voem de mundo em mundo, de astro em astro,

De Anjo em Anjo, até qu’eles se harmonizem, E dignos sejam, oh Senhor, que os ouças. Glória! glória ao Senhor! estamos salvos! Desaparece a morte,

Raia o sol, ri-se o céu, o mar se aplana! Glória! glória ao Senhor! estamos salvos! Afaga-me a esperança, Que renasce no fundo de minha alma,

Como a fênix das cinzas. Oh Pátria, serei teu; minha existência Ao louvor do meu Deus, a teus louvores De ora avante a consagro.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
IV · Gonçalves de Magalhães · Poetry Cove