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1811–1882

IV

Gonçalves de Magalhães

Quando se arrouba o pensamento humano, E todo no infinito se concentra, De milhões de prodígios povoado; Quando sobre o fastígio de alto monte,

Como um colibri sobre altivo robre, Na vastidão sidérea a vista espraia; E vê o sol, que no Oriente assoma, Como num lago em própria luz nadando,

E a noite, que se abisma no Ocidente, Arrastando seu manto tenebroso, De pálidas estrelas semeado; Quando dos gelos, que alcantis coroam,

Vê a enchente rolar em cataratas, Por cem partes abrindo largo leito, Fragas, e pinheirais desmoronando; Quando vê as cidades enterradas

A seus pés na planície, e negros pontos Aqui, e ali, moverem-se sem ordem, Como abelhas em torno da colmeia; O homem então se abate; um suor frio,

Que o suor que o moribundo côa, Rega-lhe o corpo extático; sua alma, Como um subtil vapor, que o lírio exala, Ferido pelo raio matutino,

Da terra se levanta; e o corpo algente Qual um combro de pó morto parece... Ela está no infinito! — Então lhe troa Uma voz, como o eco das cavernas,

Quando os ventos nos ares se debatem; Como um ronco do Oceano repelido Por estável penedo; como um grito Das entranhas da terra, quando acesas

De sua profundez lavas borbotam; Como o rouco bramido das tormentas; É a voz do Universo! — voz terrível, Porém harmoniosa, que proclama

A existência de um Ser, que de si mesmo, De sua onisciência, e eterna força, Tudo tirou, quanto o Universo encerra. Os céus, os mundos, o Oceano, a terra

É um vasto hieroglífico, é a forma Simbólica do Ser aos olhos do homem. O movimento harmônico dos orbes É o hino eterno e místico, que narra

Altamente de um Deus a onipotência. Tudo revela Deus, — e Deus é tudo. De tal grandeza sotoposto ao peso, Como se o esmagasse ingente mole,

O homem se aniquila, e desparece, Qual no profundo pego um grão de areia. É aqui, oh meu Deus, calcando nuvens, Parecendo tocar o céu co’a fronte,

Qu’eu reconheço a imensidade tua Existe este Universo, existe o homem, Porque de todo o Ser tu és a origem. Aqui, para louvar teu santo Nome,

É fraco o peito humano, é fraca a língua, É fraca a voz, que titubante hesita Tão alto remontar, e no ar perder-se, Antes que de astro em astro repetida,

De um céu a outro céu, de um Anjo a outro, Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos, Como discorde som de rota lira. Alva nuvem, que toucas este monte,

Desce um pouco, e recebe-me em teu dorso; Asinha ala-me ao céu; na etérea plaga, Vendo o sol de mais perto, talvez possa, Com sua luz benéfica animado,

Altíssono entoar um hino excelso, Digno de Jeová, que eterno escuta Dos angélicos coros a harmonia. Abre-te, oh céu azul, que a mortais olhos

A mansão do Senhor zeloso ocultas! Abre-te, oh céu azul; deixa minha alma Saciar-se co’a luz da Sião santa. Sobe, meu pensamento, voa, rompe

Os turbilhões dos Querubins, e Tronos, Mais belos que mil sóis, mais coruscantes, Que em vórtice perene estão ladeando Do Eterno Padre o luminoso sólio.

Oh arrojado pensamento humano, Por mais que em teu socorro os astros chames, Por mais que sua luz o sol te empreste, Seu ouro a terra, o céu a imensidade,

Os rios a corrente, os campos flores, Suas asas o raio, os sons a lira, E a noite seu mistério, alfim se tudo Invocado por ti, a ti se unisse,

Não puderas ainda em teus transportes Os louvores tecer do Onipotente! Mas, oh Deus, que missão tens confiado A este fraco ser, que sobre a terra

Entre os mais seres como um rei se ostenta, E único para ti erguendo os olhos, Parece teu rival? Missão augusta É sem dúvida a sua; e o seu destino

Não é o d’alimária!... A Natureza Obedece a seu mando, como se ele Entre Deus, e a terra colocado, Órgão fosse das leis da Providência.

Quem a ele se opõe? — Embalde o Oceano Com cem braços separa os continentes. O homem destrona os robres, e os pinheiros Das fragas da montanha, ousado os lança

Sobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos, E assoberbando as vagas furibundas, Que ante seu gênio quebram-se gemendo, Domina, e calca o túmido elemento,

E atravessa de um pólo a outro pólo, Como atravessa os ares veloz águia. Aqui bramando, um rio se devolve, Qual serpente feroz medo incutindo;

Co’uma arcada de pedra o homem cobre-o; Ele a derruba? — nova arcada o doma. Como gigantes firmes, alinhados, Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem

Enormes Alpes, açoutando as nuvens Co’a coroa de gelo, e co’os penachos De branca carambina, e verdes selvas; Não retrograda o homem, não desmaia!

Quando sobre a cimeira o sol se encosta, E a vista estende à profundez do vale, O sol já no árduo afã vencendo o enxerga; Quando transmonta o sol, o homem dá tréguas,

E descansa na já vencida estrada! De dia em dia assim prossegue ovante; Ora esbroa um cabeço mais supino, E co’as ruínas desse outro nivela;

Ora sobe, ora desce, ora torneia, Ora penetra a rigidez do monte, Como a seta do Índio os ares rompe, E a noite das abóbadas varando,

D’outro lado vai ver o céu, e o dia! Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto? Tu convertes os bosques em cidades; Marcas do sol o giro, e o dos cometas;

Do povo alado as regiões exploras; Nem no mar a baleia está segura, Nem nas espessas selvas o elefante! Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Toda a terra está cheia com teu nome; Um século transmite a outro século Dos teus feitos a história portentosa; Tu só marchas, tu só te desenvolves,

E inda não recuaste de fadiga! Com que sinal selou a tua fronte A mão do Criador? — Donde descendes? Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Não, não és para mim mais um enigma! Conheço a origem tua, e o teu destino Tua missão conheço sobre a terra. A Natureza toda te respeita

Porque és do Criador a obra-prima, Porque transluz em ti o seu transunto. Não é à força tua que se curva A terra, que se à força se curvasse,

Seria o elefante o rei da terra. É à tua sublime inteligência, É a Deus, só a Deus, que tu refletes, Como do sol a luz reflete a lua.

Nas barreiras da morte tudo esbarra, Menos o homem, que atravessa airoso, Aí o mortal corpo abandonando, Para no seio entrar da Eternidade;

Assim o viajor o pó sacode, E deixa o companheiro de viagem Manto todo coberto de poeira, Quando à cidade desejada chega.

A alma não morre, porque Deus não morre. Assaz, oh Deus, o homem sobre a terra Revela teu poder, tua grandeza. A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,

Com que prendaste o homem, não, não pode Dominar a Razão, que te proclama! Se muda para mim fosse a Natu, Na Razão que me aclara, e não é minha,

Senhor, tua existência eu descobrira. Eu te venero, oh Deus da Humanidade! Meu amor o que tem para ofertar-te? Digno de ti só tem minha alma um hino,

E esse hino, oh meu Senhor, é o teu Nome! Que pode o homem dar a quem dá tudo? Só em meu coração suspiros tenho, Suspiros para todos os momentos.

De ti, Senhor, minha alma necessita, Como de luz meus olhos, de ar meu peito. E se me é dado a ti subir meus votos, Se é dado pela mãe pedir um filho,

Voem meus votos sobre as ígneas asas Do sol, e tu, Senhor, propício atende: Nada por mim, por minha Pátria tudo; Fados brilhantes ao Brasil concede.

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