Adeus, oh Pátria amada, Terra saudosa, onde eu abri meus olhos Pela vez prima ao sol americano; Onde nos braços maternais suspenso,
O teu amor co’a vida No albor dos anos meus fruí gostoso. Oh margens do Janeiro, Eu me ausento de vós com mágoa e pranto!
Adeus, brilhante céu da terra minha! Adeus, oh serras que vinguei difícil! Adeus, sombrias várzeas, Que vezes passeei meditabundo.
Adeus, augustas torres Do templo, onde lavei-me do pecado! O som funéreo dos sagrados bronzes Ainda vem magoar os meus ouvidos,
E n’alma despertar-me Tristíssimas, cruéis reminiscências. Eis ali a montanha Cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.
Quantas vezes ali triste, sentado, Minha alma no infinito se espraiava, Os olhos vagueando Sobre este mar, que deve hoje levar-me!
Sim, eu te deixo, oh Pátria; E deixo-te lutando co’as procelas, Que no teu horizonte se abalroam. Ah! quanta dor o coração me punge,
Por ver alguns teus filhos, Baldos de pundonor, como te olvidam. Teus filhos... Ah! cubramos, Se algum há, com desprezo o seu opróbrio.
Feras serpentes qu’entre mansas aves Se aqueceram nos ovos, e mal nascem Dilaceram os filhos, E as próprias aves que lhes deram vida.
Malévolos sicários, Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio, Já traidores alfanges afiando, O ensejo só aguardam favorável
De ensopá-los no sangue Daqueles a quem bens, e honra devem. Não é pavor, nem susto De aos pés calcado ser de intrusos Neros,
Nem de rojo levado ao cadafalso, Que hoje arrancar-me de teu grêmio pode; Nem a ambição me acena Qu’eu vá mercadejar por longes terras.
Não, eu não temo a morte, Nem dos tiranos temo a catadura; sei firme assoberbar adversos fados; Que o varão, que o dever toma por norte,
Sempre a Pátria antolhando, Morte honrosa prefere à vida escrava. Amor da sapiência, Desejo de colher lições do mundo
Leva-me às margens do soberbo Sena, Para, se me não for avessa a sorte, Ante o altar da Pátria Meus serviços prestar vir respeitoso.
A ti me voto inteiro, Tu és o meu amor, minha alma é tua. Só para te ofertar flores cultivo Nos mágicos jardins da Poesia;
Se te apraz seu aroma, Ah! como fico de prazer ufano! Ah! praza a Deus que a nuvem, Que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,
A cólera do Eterno não desabe Sobre as tristes cabeças de teus filhos! Ah! praza a Deus que nunca Teu Anjo tutelar fuja a teus lares!
Oh Senhor, tu protejes O povo que se vota à Liberdade; A Liberdade é dom que nem tu mesmo Aos homens tiras; como um mortal ousa,
Erguido pó da terra, Eclipsar os teus dons, manchar teu nome? Cara Pátria, sem susto Tua fronte levanta majestosa,
Como tuas montanhas, e teus bosques! Não sejas só no mundo conhecida Por teus ricos tesouros, Pelos prodígios da sem-par Natura.
Oh Pátria, ovante marcha; Já em teu seio encerras Varões dignos De renome imortal; não te envergonhes De cingir-lhes as frontes, de apontá-los.
São eles que te escoram, E que te hão de elevar à Eternidade. As solitárias ondas Que hoje sonoras tuas: praias beijam,
Já outrora, não pedras, não espuma, Mas cadáv’res, e sangue arremessaram, Cadáveres, e sangue Dos nascidos nos teus sagrados bosques.
Se inimigos ousarem, Armados contra ti, em frágeis lenhos, Expelir o trovão, o raio, e a morte, Abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;
Seus lívidos cadáveres Tuas areias juncarão de novo. O coração pressago Veemente palpita, e voz suave
Em meu peito ressoa, e me anuncia Que o céu destes horrores te preserva; O coração não mente; A paz firmou-se em ti; seja ela eterna.
Como a enchente do Nilo Que estendendo-se sobre a terra Egípcia, Deixa após si fertilidade aos campos, Assim, propícia paz, tu vivificas
O povo que te hospeda, E por ti bafejada a indústria medra. Como serei ditoso Se dado ainda me for correr teus campos,
Beijar de anosos pais as mãos rugosas, Abraçar os amigos, e arroubado Nesse celeste instante Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.
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