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1811–1882

I

Gonçalves de Magalhães

Quando da noite o véu caliginoso Do mundo me separa, E da terra os limites encobrindo, Vagar deixa minha alma no infinito,

Como um subtil vapor no aéreo espaço, Uma angélica voz misteriosa Em torno de mim soa, Como o som de uma frauta harmoniosa,

Que em sagradas abóbadas reboa. Donde vem esta voz? — Não é de virgem, Que ao prazo dado o bem-amado aguarda, E mavioso canto aos céus envia;

Esta voz tem mais grata melodia! Donde vem esta voz? — Não é dos Anjos, Que leves no ar adejam, E com hinos alegres se festejam,

Quando uma alma inocente Deixa do barro a habitação escura, E na sidérea altura, Como um astro fulgente

Penetra de Adonai o aposento; A voz que escuto tem mais triste acento. Como d’ara turícrema se exalça Nuvem de grato aroma que a circunda,

E lenta vai subindo Em faixas ondeantes, Nos ares espargindo Partículas fragrantes,

E sobe, e sobe, até no céu perder-se, Tal de mim esta voz parece erguer-se. Sim, esta voz do peito meu se exala! Esta voz é minha alma que se espraia,

É minha alma que geme, e que murmura, Como um órgão no templo solitário; Minha alma, que o infinito só procura, E em suspiros de amor a seu Deus se ala.

Como surdo até hoje Fui eu a tão angélica harmonia? Porventura minha alma muda esteve? Ou foram porventura meus ouvidos

Até hoje rebeldes? Perdoa-me, oh meu Deus, eu não sabia! Eram Anjos do céu que me inspiravam, E outras vozes meus lábios modulavam.

Castas Virgens da Grécia, Que os sacros bosques habitais do Pindo! Oh Numes tão fagueiros, Que o berço me embalastes

Com risos lisonjeiros, Assaz a infância minha fascinastes. Guardai os louros vossos, Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.

Adeus, ficções de Homero! Deixai, deixai minha alma Em seus novos delírios engolfar-se, Sonhar co’as terras do seu pátrio Rio.

Só de suspiros coroar-me quero, De saudades, de ramos de cipreste; Só quero suspirar, gemer só quero, E um cântico formar co’os meus suspiros;

Assim pela aura matinal vibrado O Anemocórdio, ao ramo pendurado, Em cada corda geme, E a selva peja de harmonia estreme.

Já nova Musa Meu canto inspira; Não mais empunho Profana lira.

Minha alma, imita A Natureza; Quem vencer pode Sua beleza?

De dia, e noite Louva o Senhor; Canta os prodígios Do Criador.

Tu não escutas Esta harmonia, Que ao trono excelso A terra envia?

Tu não reparas Como o mar geme, Como entre as folhas O vento freme?

Como a ave chora, A ovelha muge, O trovão brama, O leão ruge?

Cada qual canta Ao seu teor, Mas louvam todos O seu Autor.

Da grande orquestra Aumente o brilho O Canto humano Da razão filho.

Minha alma, aprende, Louva a teu Deus; Os teus suspiros Envia aos céus.

Oh como é belo o céu azul sem nódoa! Que puro amor nos corações ateia, Como a pupila de engraçada virgem, Que serena nos olha, e nos enleia.

Mas que imagem sublime a mim se antolha, Com largas asas brancas como o cisne, E roçagante toga, que se ondeia Como flocos de neve alabastrina!

Uma harpa de ouro em suas mãos sustenta! Oh que voz suavíssima e divina! Oh que voz, que as paixões n’alma adormenta! Vem, oh Gênio do céu filho!

Vem, oh Anjo d’harmonia! Cuja voz é mais suave, Mais fragrante que a ambrosia! Teu rosto vence em beleza

Ao sol no zênite luzente; Teu largo manto é mais puro Do que a lua alvinitente. As asas, que te suspendem,

São mais ligeiras que o vento; São mais terríveis que os raios, Que giram no firmamento. Tua fronte não se adorna

Com flores que o prado gera; Sobre teus cabelos de ouro Brilha de fogo uma esfera. Teus pés a terra não tocam,

A teus pés a terra é dura; Sobre aromas te equilibras Recendentes de frescura. O sol, a lua, as estrelas

São fanais que te iluminam, São corpos a quem dás vida, E ante teus passos se inclinam. Os acordos de tua harpa

Todos os astros ecoam; Reanima-se o Universo, Quando as suas cordas soam. Vem, oh Anjo, ungir meus lábios;

Traze-me uma harpa dos céus; Ao som dela subir quero Meus suspiros até Deus! Quando no Oriente roxear a Aurora,

Como um purpúreo, auribordado manto, Que ao Rei da luz o pavilhão decora, E as saltitantes aves pelos ramos Da madrugada o hino gorjearem,

Tua voz, oh minha alma, une a seu canto, E as graças do Senhor cantando exora. Quando a noite envolver a Natureza Em tenebroso crepe; e sobre a terra

As asas desdobrar morno silêncio; Nessas plácidas horas de repouso, Em que tudo descansa, exceto o Oceano, Que arqueja, e espuma em solitária praia,

Vizinhos ermos com seus ais pejando, Como um preso que geme, e que debalde Da prisão contra os muros se arremessa; Tu também, como a lua, vigilante

Nessas propícias horas, oh minha alma, Tua voz gemebunda exala, e une À voz do Oceano, à voz d’ave noturna. Enquanto estás sobre a terra,

Como no exílio o proscrito, Canta como ele, que o canto Refrigera o peito aflito. Canta, que os Anjos te escutam,

E os Anjos à terra descem, A escutar esses hinos, Que para Deus almas tecem. Canta a todos os momentos,

Canta co’a noite, e co’o dia; E o teu derradeiro expiro Seja ainda uma harmonia.

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