Já a nascida na escuma só se via, Quando ao grande Albuquerque Etol narrava Os aparatos bélicos, que urdia Maomé contra o assalto, que esperava,
Com que o desejo, que no peito ardia Do sábio Capitão, se acelerava; Que, vendo que o tardar era danoso, Prudente logo ordena cuidados.
Mandou ao forte Abreu que guarnecesse De gente, artilharia, e de arrombadas O junco bravo, e nele se pusesse Sobre a ponte, e inimigas estacadas.
Para que o bronze ardente defendesse, Serem outras de novo fabricadas; Até sãos os feridos, pôr o peito À cidade, outra vez com duro efeito.
Tinha na estreita barra o fundo rio Um baixo, que a passagem impedia Nos menores influxos ao navio, Que à grandeza das fustas excedia;
Mas nos maiores, com algum desvio, Subir o maior lenho bem podia: O guerreiro o lugar honroso estima, A conjunção aguarda, aos seus anima.
Logo que vê do Sol a irmã rotunda, O maior Capitão ante si chama Todos os Capitães, e com facunda Língua em desejo bélico os inflama:
Varões ilustres, cuja fama inunda Dês donde cá primeiro o Sol derrama Seus raios, até lá donde cansado Se entrega ao mar de Ulisses navegado:
Chegada é a ocasião, que nos convida A dar a esta obra fim, que entre as mãos temos. Pintam calva a ocasião; e mal perdida, Mui tarde, ou nunca mais a cobraremos:
Ao raio na primeira arremetida Imitando, o possível excedemos; Porém, quanto até gora trabalhamos Será em vão, se Malaca não ganhamos.
Se não, considerai qual foi o fruto, Que seguiu a Anibal de tanta guerra: Rendeu Cipião Cartago, eterno luto Ficou por ele na Africana terra:
Quanto em dez anos fez o Grego astuto, Que a gente no fatal cavalo encerra, Mais que glória lhe fora afronta clara, Se Troia com seu muro em pé ficara.
O nosso Deus servimos, dilatando, Na que hoje é terra imiga, sua lei santa, Erros abomináveis dissipando, Que persuade o Inferno a gente tanta:
Servimos nosso Rei, acrescentando Cetros ao cetro, que Infiéis espanta; E a Lisboa Malaca, escala rica De quanto entre o Mar roxo, e China fica.
Enfim devemos ver o fim da empresa, Que viemos buscar, mares rompendo Incógnitos, cheios de aspereza, Rigorosas tormentas padecendo:
Com causa o mundo julgará fraqueza Largar o que rendido estamos vendo: Veja o Oriente, como já tem visto, Que pelos poucos seus milita Cristo.
Pelo que, posta nele a confiança, Co a nova luz o assalto dar desejo: Rompam-se inconvenientes; que a tardança As mais das vezes ser danosa vejo:
Será posta nos Céus certa a esperança: A fé de Josué agora invejo; Que quem com fé tão alta cometera, Tudo para vencer lhe obedecera.
Disse. E conformes todos aprovaram Do forte Capitão o nobre intento: Para os biantes troncos se tornaram, Por dar a tudo inteiro cumprimento:
A noite apercebendo-se gastaram; E, vindo a Aurora, o bélico instrumento, Que usou Misseno, causa de sua morte, Deu sinal, despertando a gente forte.
Respondeu ao guerreiro som, feriram Logo mil vivos gritos as Estrelas, Que da mor luz vencidas encobriram Naquele mesmo ponto as luzes belas.
Na Cidade os imigos repetiram O medonho clamor eco as querelas Da turba feminil, que o rumor cresce: Tornar ao mundo o antigo caos parece.
Da armada logo saem o mar abrindo Os ligeiros batéis co a forte gente, Àquele sinal bélico acudindo, Que acende o brio ao coração valente:
Logo Albuquerque o assalto repartindo, O Junco abalar manda, que eminente Entre os batéis armados parecia Castelo, que imperando-os se movia.
Seguiam pelo líquido elemento Pouco a pouco os batéis o lenho armado; Qual pelo prado vagaroso armento Segue o soberbo touro não domado:
Eis que sobre ele chovem cento a cento Pelouros, que abrem um, e outro costado; Ele também de si despede raios, A Jaus, e Rumes últimos desmaios.
Nesta de fogo tempestade horrível Crescendo a lavareda, acabam vidas, E Abreu ferido, qual Leão terrível, Muito mais se embravece com as feridas.
Valor, e exemplo aos seus dava invencível Desprezador dos tiros homicidas, Quando uma bala, afronta, e horror de Marte, Lhe leva os dentes, e da língua parte.
Ficou disforme o que era gentil rosto, Mas na disformidade a gentileza, (Que mais se ama na opinião do gosto, Que do valor a formosura preza)
Não larga Abreu o perigoso posto, Que incapaz do temor morte despreza: Porém o sangue falta, as dores crescem, E as forças pouco a pouco desfalecem.
Manda Albuquerque a Melo em continente Por sucessor do Capitão ferido, Por companheiro o aceita ho herói valente, Mas o lugar não deixa embravecido:
E dês que o douto Elísio diligente Remédio aplica ao dano recebido, Bem mostra ao imigo na gloriosa míngua, Que lhe sobejam mãos, se falta a língua.
E porque o mar a recolher tornava As águas flutuantes, que expelira; O Junco, que à ponte não chegava, Faz que o dente tenaz na areia fira.
Entanto o horror do Inferno retratava O fogo, o fumo, a confusão, a ira, O espantoso rumor da artilharia, A multidão de gritos, que se ouvia.
Gastado o dia na áspera contenda, A noite perigosa se começa, Tão medonha em tudo, e tão horrenda, Que não sei se há quem medo não conheça:
Traça o Rei como ao junco fogo acenda No tempo que a noturna maré desça; Para o que o barco a barco prender manda, Que o rio tomam d’uma, e outra banda.
Estes com lenha banhada em pez, que ardendo, Com a minguante da maré desceram, Fazendo a horrível noite dia horrendo, De que as Celestes luzes se esconderam:
Tanto contrário fogo os Lusos vendo, Não ousarei dizer que não temeram; Porém co sempre usado valor logo Nos batéis vão a contrastar o fogo.
Com tenazes arpeus as acendidas Balças remando apartam do navio; Mas à custa de muito sangue, e vidas De alguns, a quem foi tumba o fundo rio:
Oferecia aos tiros homicidas À luz do fogo aqueles, que com brio Honroso o contrastavam, gente forte, A quem não fez torcer o rosto a morte.
Livres deste perigo, a crescer torna A maré flutuando, e juntamente A filha de Hiperion a porta adorna, Por donde Apolo sai do claro Oriente:
Rico orvalho em pérolas entorna Sobre o fero Nemeu resplandecente, Que dos solares raios abrasado, Da terçã esquecido ruge irado.
Com a nova maré ferro levanta O branco junco, e a ponte imiga aferra, E com a fúria, que ao imigo espanta, Dos batéis juntamente o esquadrão cerra:
Lima, que dos primeiros se adianta, Pegado ao junco dá princípio à guerra: Ferozes os imigos se defendem, E quanto podem intrépidos ofendem.
Sobem Lima, e Garcia em competência: Sobre eles pedras dardos, frechas descem; Mas qual dous montes firmes à violência De feras tempestades, permanecem:
Chegando acima encontram resistência Maior, que ao seu encontro se oferecem Malano cos Darus, que acaudilhava, E Rostacão, que a plebe governava.
Porém Garcia, que já a seu desgosto Na defendida ponte os pés pusera, Bem do escudo coberto o peito, e rosto, Esgrime contra os dous a espada fera:
Lima no mesmo ponto sobe ao posto, E da ponte senhor se considera; Não menos os Pagãos de si fiavam, E dar-lhes logo fim também cuidavam.
Uns dos outros recebem golpes duros, Crescendo a turba de uma, e outra parte: O pó, o fogo, e fumo os ares puros Perturba, e só já se ouve o som de Marte.
Treme a terra, o mar brama, e nos escuros Aposentos da morte se reparte O furor, onde blasfemando descem As almas dos Pagãos, que ali perecem.
Do junco já também com leve salto Se tinham Melo, e Abreu lançado à ponte, Contra quem acudindo ao duro assalto Estava Solimão já fronte a fronte:
Por outra parte já subira ao alto Coutinho, e tinha morto ao fero Ormonte, Que com socorro de Bintão chegara, Deixando em triste pranto a esposa cara.
Sobem Dom João de Sousa, um, e outro Andrade: Mas ao valente Arnaldo, que os seguia, Cortou o fio da florida idade Parca férrea, que ardente o ar fendia:
Do junco neste tempo tempestade De fogo, setas, lanças descendia Sobre a multidão bárbara, uns matando, Outros ferindo, e aos mais acobardando.
Porém igual em tudo estava a sorte Sem que resolução tomasse Marte, Quando subindo Afonso bravo, e forte Se viu das Quinas Santas o Estendarte:
Como se viram nele o rosto à morte, Perderam os Pagãos o esforço, e arte; E quanto valorosos resistiram, Já faltos de valor as costas viram.
Correndo os segue a Lusitana gente, Quanto encontra arruinando, e desfazendo, Qual foi no Inverno a rápida corrente Arrancar penhas, plantas sovertendo:
Iroso Solimão, rocha eminente, Ou novo Horácio, aquele curso horrendo De ter cuida, dez lanças se romperam Juntas nele, e movê-lo não puderam.
Ele intrépido aqui, e ali lança, Qual dos Monteiros duros rodeado Tigre feroz, que por tomar vingança Em lugar de fugir, remete ousado.
De alto a baixo a cabeça a Nuno alcança, Que nele tinha o estoque já quebrado; E fendendo-o até os dentes a homicida Espada, deixa ao mísero sem vida.
Após Nuno a Fernando abre no peito, Do vital humor fonte caudalosa; Por onde a alma apressada deixa o estreito Cárcere humano, e sobe a ser ditosa:
Vendo isto Melo, iroso, e com despeito Contra ele move a espada rigorosa; E tal golpe lhe deu em descoberto, Que fora pouco haver um monte aberto.
Porém a concha da Egípcia fera, A quem guarnecem pranchas de aço fino, Resiste mais, que resistir pudera, Quando fora de um seixo diamantino;
Mas do golpe, que o Cáucaso rompera, Quase fica o Pagão fora de tino; E foi dando traspés até afirmar-se, E formidável torna por vingar-se.
Mas ordenou de Melo a amiga sorte, Que Gerardo com ânimo atrevido Entre ele se metesse, e o Pagão forte, Que levemente dele foi ferido:
Antecipou-lhe o atrevimento a morte, Que a duas mãos o imigo embravecido A espada toma, e de alto a baixo o fende, E, quase feito dous, em terra o estende.
Não acobarda o golpe rigoroso A Cristã gente, antes acendem em ira; E de ofendido o Turco generoso, Já mais repara, do que a golpes tira.
Porém talvez, qual javali cerdoso, Que retirando-se aos lebréus se vira, Faz rosto, e a ferir torna com braveza, E dos imigos o valor despreza.
A ferir o não torna o invicto Melo De Aranteu estorvado, rigorosa Sorte, e grande valor a socorrê-lo O trazem, onde o esperava a parca ira.
Fere o Cristão guerreiro ao filho belo De Alcifira, de ponta, e a luminosa Espada, o arnês falsando, entrou lá donde O alento vital o peito esconde.
Cai morrendo entre os mortos, eclipsadas As luzes belas, murchas frescas rosas, Já de mil belas damas invejadas, Que em flamas acenderam amorosas:
Livres da ponte entanto as estacadas Deixa o Lima, e Garcia, as numerosas Tropas de imigos ante si levando, Malano, e Rostacão mortos deixando.
Cai o bravo Malano, a altiva fronte, Por Garcia até os olhos dividida; E Rostacão, por Lima ao mar da ponte Aberto o peito, dando em sangue a vida.
O fero Solimão, movível monte, Amparando os Malaios, a homicida Espada esgrime, após de si trazendo De armadas gentes um dilúvio horrendo.
Tornam vendo valor tanto a ajuntar-se Contra as Lusas esquadras as contrárias, E com novo furor tornam a dar-se Com diversas feridas mortes várias:
Forças apuram por avantajar-se, Que ali lhe são mais que a arte necessárias; E enquanto dura o belicos brio, Mais que água, leva sangue o fundo rio.
Geinal a Ardônio, que fugia, alcança, E de fera estocada em terra o estende; Quer temerário Argeu dar-lhe vingança, Porém sua morte o mísero pertende:
Desvia-lhe Geinal com escudo a lança, E de horrendo altabaixo ao triste fende A bárbara cabeça, em vão armada Contra tal braço, e bem regida espada.
Abdelá, que já a destra luz perdera No passado conflito, deixa o leito Bramando, por fartar a sede fera, Que de sangue cristão lhe abrasa o peito:
A Fernando, e Mateus à morte dera, Que encerrou juntos um materno estreito, Juntos do mundo a luz primeira viram, Juntos a ver a eterna paz partiram.
Soberbo destas mortes se imagina Pela fama subir ao imortal cume; Mas a lança de Abreu, modéstia ensina, Tirando-lhe o segundo ocular lume.
Feri-lo, vendo-o cego, ser indigna Façanha ao seu valor o herói presume; E o triste deixa com furor interno, Esgrimidor sem luz, nau sem governo.
Quis raju retirá-lo compassivo Por seu mal, porque o cego considera Do Lusitano bando, e fero, e esquivo Pela vista lhe lança a espada fera:
O Pagão já meio morto, vingativo Co súbito furor, que concebera, Meia espada deixou nele escondida, E caem ambos sem vista, ambos sem vida.
Encontra-se Ragois co forte Lima, De quem Carol astuto se escapara: Ao duro encontro ao grão Pagão se anima, Mas bem tanta ousadia compra cara:
Porque o Cristão guerreiro, a quem sublima O Céu, depois que firme se repara Contra ele, ira brotando se arremessa, E do peito às espáduas o atravessa.
Saída abrindo ao sangue o ferro duro, Lhe foi cobrindo a vista, sombra eterna, Deixa o cadáver frio, foge o ar puro À rebelde alma, e desce a grão caverna:
Solimão era entanto dos seus muro, E o Príncipe Aladino, que governa A Malaia nobreza, também corre Aquela parte a tempo, que o socorre.
Ao Príncipe valente os Pagãos vendo, O aclamam levantando grito horrível: Ele envolto em furor, fero, e tremendo, Se oferece ante todos invencível:
Logo seu velho pai, raiva vertendo, Traz ele chega, e faz mais do possível A decrépita idade, e longos anos, A que estavam guardados tantos danos.
Aqui esteve em seu ponto largo espaço O rigor, e crueldade da batalha: Representa Aladim um monte de aço, E tudo, quanto encontra, rompe, e talha.
Da outra parte ao Pagão impede o passo Coutinho, que também abre, e desmalha. O Sol perde a cor, vendo o encontro duro, A terra treme, e treme o centro escuro.
Nunca Esteropes, Piracmon, e Brontes Com fúria tal, a safra de Vulcano Golpeando, gemer fizeram montes, Como os dous por chegar-se a extremo dano:
Por força inclinam as altivas frontes Aos golpes (que ministra o ódio humano) Em favor de Aladim: crescem Malaios, E de Coutinho Lusitanos raios.
Ali se ajuntam de uma, e d’outra parte Dos dous imigos bandos os mais fortes, Repartindo igualmente o favor Marte, Mas com vários sucessos várias sortes.
Na igualdade cruel de esforço, e arte Infinitas, e várias são as mortes, E infernal confusão era aos ouvidos Estrondos, vozes, gritos, e gemidos.
Neste tempo do Sol a luz cobria Nuvem de pó, e de fumo, a que ajudavam, Dando vitórias mil à morte fria, Tiros, que de uma parte, e outra voavam.
O belicoso estrondo ensurdecia, Os mortos passo aos vivos estorvavam, E entre confusão tanta o Sá famoso, Raio, vibrando a espada, era espantoso.
Com Solimão se achou peito com peito: Dão-se os dous feros, com furor violento Inimigos mortais, a braço estreito, E fogo exalam com apressado alento:
Tivera cada qual por si desfeito (Quando arrancado não do firme assento) Entre os braços um monte, e na dureza Igual dos dous se via igual firmeza.
Forcejando três vezes, intricadas Voltas dão, logo tornam a firmar-se, Travam-se pés com pés, e co as usadas Tretas se afastam, para mais juntar-se.
Até que, bem as forças apuradas, Procura cada qual do outro lotar-se, Já que um ao outro enfim desembaraça, A fera espada aperta, o escudo embraça.
A ferir se antecipa o Turco irado, E de alto a baixo golpe horrendo tira, Acha a espada a Garcia reparando, Mas duro efeito faz imensa ira:
O grosso escudo parte, e o temperado Arnês, e no ombro esquerdo fere, e tira, (Bem que leve ferida) em copiosa Veia sanguino humor com dor penosa.
Cresce com a dor a ira, a ira aumenta A força do guerreiro soberano, E na cabeça ao Turco fero assenta Duro golpe, que o chega a extremo dano:
Não pode à fúria resistir violenta A concha do que finge o choro humano; Chega fendendo ao casco a espada esquiva, De líquido carmim sai fonte viva.
Da ferida o Pagão no peito iroso Fúria de novo concebeu tremenda, E espantoso trovão, raio furioso, De golpes forma tempestade horrenda:
Com não menos furor o Sá famoso O fim procura da áspera contenda, A arte dando, quanto ao furor parte Mais o Turco ao furor, menos a arte.
Intempestivos golpes mil dispende, Que o menor um penhasco partiria; Mas Garcia, que aquela fúria entende, Alguns rebate, e de outros se desvia.
Um golpe, que nos ares fogo acende, Passar deixa, e da espada a ponta guia; Metendo o corpo, e pés, e a fronte irada Foi do ferro homicida penetrada.
Purpúrea corrente aos olhos desce Da ferida cabeça, e ao Pagão cega: O guerreiro Cristão, que assi o conhece, Melhor os golpes, e a seu salvo emprega.
Solimão, que sua morte reconhece A que a falta do sangue, e vista o entrega, Ardendo em ira intrépido imagina A vingança alcançar com sua ruína.
Corre braços abertos usso irado, E de novo co forte imigo cerra, Dizendo: Acabarei, porém vingado; Vamos no mar dar fim à nossa guerra.
Iracundo, do invicto Sá travado, Precipitar-se intenta; e entanto a terra Co próprio sangue alaga, que, descendo Das feridas formava rio horrendo.
Resiste-lhe Garcia o fero intento, E firme o aparta, e oprime sua braveza: Perde o sangue o Pagão, co sangue o alento, Porém não perde a natural fereza.
Faltam as forças, não furor violento; O vencedor, e a morte, e o Céu despreza, E qual co a dor raivoso o alão costuma, Lançam os olhos fogo, a boca escuma.
Enfim à terra vai torre eminente, E o forte vencedor leva consigo, Vira ao estrondo a Pagã, e a Cristã gente, E Garcia se vê em mortal perigo:
Que o Príncipe Aladino impaciente Por socorrer, e por vingar o amigo, Sobre ele vai vibrando a ardente espada; Mas Coutinho se opõe à morte irada.
O escudo forte deu ao golpe duro, E mil se tiram em igual batalha Entanto, que Garcia mal seguro Por ver o fim de Solimão trabalha.
Abre largo caminho ao fado escuro, Por junto ao paladar rompendo a malha Com agudo punhal; e inteira palma Alcança; a desce ao abismo a feroz alma.
Morto o Turco valente, as costas deram As catervas Pagãs desordenadas. Grita, ameaça Aladim: mas não valeram Injúrias, reprensões ao vento dadas.
Detaide, Ali, e Batrão o socorreram, Fazendo heroicas provas, e arriscadas: Salva-se o fero Príncipe da morte, Mas alcança a Batrão a adversa sorte.
Enquanto de Coutinho se repara, De entre a turba comum frecha se tira, Que rigorosa, abrindo o peito, para Junto donde a de amor de amor sentira.
Turbam-se os olhos, perdem a luz clara, E no último espirar de amor suspira; Que pronunciar não pode o nome amado, Já dos mortais soluços atalhado.
Salvar Detaide entanto pode a vida, Acompanhando o Príncipe furioso, Que, dos seus vendo a bárbara fugida, Se retira, do justo Céu queixoso.
Naquela parte o Rei apercebida Tinha a sulfúrea mina; e cauteloso Aguarda que o Príncipe passasse, E nela a Lusitana esquadra entrasse.
Davam os vencedores no perigo; Mas advertido o Capitão prudente Do sábio Etol, não quis seguir o imigo, E deter manda a vencedora gente:
Para à vista do Rei, que já consigo Vê poucos, e temor no peito sente; E, trocado o furor em sentimento, O posto deixa, e muda pensamento.
Enquanto dão lugar desbaratadas As esquadras imigas, fortifica Afonso a ponte; grossas estacadas, Antes muro fortíssimo fabrica.
Contra as ruas de imigos ocupadas A artilharia ali ganhada aplica, Que mortes rigorosas disparava, E excelsos edifícios derrubava.
Apolo ardentes setas despedia Dês do Zenit entanto contra a terra, E mais, que a dos imigos, ofendia Aos Lusitanos a Celeste guerra:
Tudo co solar fogo se acendia; Nas entranhas o vício ardor se encerra Daqueles, a que fere sem defensa Do planeta maior a flama imensa.
Sente dos seus o Capitão as penas; E, para dar remédio a aflição tanta, Das naus manda trazer velas, e entenas, E contra a ardente luz toldos levanta:
Qual sói ao caminhante nas amenas Ribeiras do Mondego a verde planta, Quando Febo no Cancro reverbera, Tal aos de Luso a sombra refrigera.
Porém, como os imigos irritados Últimas forças, e última esperança Provar quisessem, ou desesperados Tornassem a morrer pola vingança;
Contra eles manda Afonso aos esforçados Paiva, Caldeira, e Jaime, que descansa Co trabalho, buscando o amado objeito, Que tanto fogo lhe acendeu no peito.
Com Sousa, Castelbranco, Abreu, Andrade Mandou outro esquadrão, que socorresse O primeiro em qualquer necessidade, Que o caso belicoso oferecesse.
Saem os de Luso, e supre a quantidade O valor, que em qualquer deles floresce. A recebê-los sai o imigo bando, Os Céus puros com gritos penetrando.
Na vanguarda Geinal aventureiro, Com Lemos, e Coutinho competia; E Jaime, de amor vão forte guerreiro, Buscava aquele bem, que não havia.
Já falto de esperança o cavaleiro, Assi seu pensamento reprendia; Que fruto de meu largo mal espero, Se uma sonhada formosura quero?
Sigo (mostra-o a razão) um claro engano, Que é o que minha esperança solicita? Oh de monstruoso amor imenso dano, Dor, que tem de infernal ser infinita!
Mais, que meu mal, já temo o desengano, E será a liberdade mor desdita; Que é tanto a grave dor de mim querida, Que ao ponto que faltar, faltará a vida.
No pensamento amante assi discorre, E o assim calado ferro esgrime: entanto Gente infinita da Malaia morre, Que obstinada contrasta valor tanto.
De sangue caudaloso rio corre Pela Cidade, que se envolve em pranto; E dês que a terra inunda tristemente, Da cor paga tributo ao grão Tridente.
Mata o forte Caldeira a Sarcamante, E Coutinho até o peito fende a Ormonte, Que imprudente com ânimo arrogante Ousou acometê-lo fronte a fronte:
Assombra os Pagãos golpe semelhante; Já não receiam que o fugir afronte; As costas dão aos fortes vencedores, Que os vão seguindo com mortais rigores.
Seguindo os inimigos fugitivos Teixeira, Lemos, e Geinal chegaram Onde piedoso amor, fados esquivos No bélico teatro se ajuntaram:
Fugia os vencedores vingativos, (Fontes os olhos, que almas abrasaram Entre a feminil turba temerosa D’el-Rei de Pão) a mal guardada esposa.
Na vista fere do Pacém valente O raio da afligida formosura; Arder o antigo fogo na alma sente, Que de cinza cobrira sorte dura.
Furioso amante, a vida impaciente Já pela bela amada dar procura; E, antes que cheguem a fazer-lhe ofensa, Se emprega, e se aventura em sua defensa.
E disse: Conhecido tens, senhora, O esposo, que escolheste; o desprezado Conhecerás com minha morte agora, Posto que até o morrer me nega o fado.
Enquanto assi dizia, a cortadora Espada vibra; e em quanto fero, e irado Detém a esquadra Lusa, a bela Infanta Num elefante sobe, e se adianta.
Jaime, e Lemos, que tarde conheceram A mudança do bárbaro atrevido, Iracundos contra ele se moveram, E duramente foi deles ferido.
Perdera o triste a vida, e feneceram Vãos cuidados; mas, sendo socorrido De Aladim, e Detaide, a morte a palma Perde, e ele segue quem lhe leva a alma.
Aladim com Detaide se retira, Também à sorte irada obedecendo; O peito fogo, fogo a vista espira, Atrás por muitas vezes revolvendo.
Tal o acossado touro, ardendo em ira Contra os feros libréus virando horrendo, Cos fortes cornos dividindo o vento, Acende os ares seu fogos alento.
Neste tempo, a Malaios rigoros, A recolher a tuba Cristã soa: Ao sinal obedece o vitorioso Esquadrão, bem que a muitos n’alma doa.
Do Céu entanto o injusto Rei queixoso, Do grande Império seu perde a coroa; E em toda a parte tristes, e infinitos Dava o mísero povo ao vento gritos.
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