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1600–1664

LIVRO VIII

Francisco de Sá de Meneses

Assi vaticinando Etol dizia. E o lenho pelo líquido elemento Resvalando ligeiro discorria, Imitador do leve pensamento;

E atrás deixando a China, quando o dia Declinava, acalmou o amigo vento, Que força dava ao pano do navio; E se acharam na foz de um fresco rio.

E posto que na entrada pedregosos Rochedos se levantam, dentro ficam Amenos vales, campos saudosos Que a cultivar seus naturais se aplicam:

Ali angelins, e sândalos cheirosos Teatros verdes são, onde publicam Ciúmes alguma vez, outras amores As aves com suavíssimos clamores.

A região (disse o Mago) já chegamos, Que os nossos cavaleiros nos encerra, E convém que depressa os pés movamos, Até chegar ao cume dessa serra:

E porque a parte ignoras, que pisamos, Saberás que está rica, e fértil terra Tem a bela Titônia por senhora, Que se faz aclamar filha da Aurora.

E preza-se de ter por ascendentes A Júpiter, Electra, e Laomedonte, E a Titon, que amorosos acidentes Na Aurora acende lá no Idálio monte.

Gerou este a Menon, que entre os parentes Por Troia a vida deu, e Eurimedonte, Que lá não foi, por ser de pouca idade, E a mãe depois da guerra o dissuade.

Ele chorando o fraternal sucesso Nestes montes, que são limite, e muro, Entre a China, e Catai, o triste excesso Da mãe imita num silêncio escuro.

Depois seu descendentes no progresso De armas o Reino estendem, e co duro Exercício das armas subjugaram Além do Brema, e Cambalu fundaram.

Logrou o Reino vários sucessores Desta ilustre ascendência; e reina agora Titônia, que só os ásperos rigores Destes montes amava caçadora:

Aborrecendo o amor dignos amores De seus iguais fugia; mas já chora, E sentirá de amor penas imensas, Que vinga amor num ponto anos de ofensas,

Tirou de um lio enquanto assi dizia (Conforme ao Cataio uso) dous vestidos, Que para aquele efeito já trazia, Com sábia prevenção apercebidos.

Estes cubramos (disse) que seria Certo o perigo, sendo conhecidos Da Titônica gente, que ciosa Vigia amante, e teme receosa.

E a Glaura disse: Aqui ficais segura: Bem da falta de sono restaurar-vos Podeis; que antes, que fuja a sombra escura, Tornaremos, senhora, a acompanhar-vos.

Ela lhe respondeu: Queira a ventura, Ou queira o Céu, que pode só guardar-vos; Que eu, como já cheguei ao mor extremo, Tendo perdido tudo, nada temo.

Assi dizendo o Sábio, o barco atava À torcida raiz de um tronco antigo, E por um vale acima, que lhes dava Com bastas ramas encoberto abrigo,

Subiram, quando já no Ocaso entrava Da bela Leucotoe o claro amigo, A quem a escura noite sucedendo Envolveu tudo no seu manto horrendo.

Desaparecem logo os Horizontes, Nas Estrelas reluz a luz alheia, Por verdes campos, e silvestres montes, Apenas o silêncio se meneia:

Somente murmurar se ouvem as fontes, Porém sem dano alheio: senhoreia O sono aos animais, pondo aos humanos Em doce esquecimento bens, e danos.

Nas folhas respirando o fresco vento, O murmuro das águas ajudava; E Filomena com suave acento A Favônio, e às Linfas se queixava:

A hera pelos troncos laços cento, Subindo té o mais alto, fabricava; As parras com os álamos frondosos Mil se davam abraços amorosos.

Encontravam pela áspera subida, Que amena fez da natureza a arte, Ora o bruto feroz, em que homicida Quis ser do belo Adônis cioso Marte

Ora o fugaz, a quem custou a vida Ver nua a Diana na escondida parte, Com outros animais inferiores, Da espessura do bosque habitadores.

No mais alto, cercado de arvoredo, Viram precipitar líquida prata, Branda sangria de áspero rochedo, Que pelo vale abaixo se desata:

Assentaram-se ao pé do alto penedo, Depois que a fresca linfa a sede mata, Por descansar e entanto o brando vento Trazia, roubado às flores, suave alento.

Já que um espaço breve descansaram, Pouco do ameno sítio inda apartados, Com a luz das estrelas divisaram Em torres altas capitéis dourados:

Então de novo o modo praticaram, Que haviam de guardar depois de entrados Na casa, que em grandeza, e lavor rara O antigo Erimedonte edificara.

Parte do ardente estio era habitada Da formosa Titônia, que o respeito De ser de caça a terra povoada, Aquele sítio fez aos Reis aceito.

Enfim Catais fingidos à portada Os dous chegaram do soberbo teito, Em cujo saguão Régio um lume ardia, Que contra a noite conservava o dia.

Cem monteiros de guarda ali assistiam, Com eles às paredes arrimadas Cem fortes hastes, que resplandeciam Com pontas por Vulcano fabricadas:

Nas portas co esplendor claro se viam Amorosas histórias entalhadas Entre a Aurora, e Titon, no monte Ida Da formosura juvenil vencida.

Da Frígia Troia ao pé do monte estava A máquina soberba: o claro Xanto Os Apolíneos muros rodeava, Rompe Simois do campo o verde manto:

Titão as feras perseguir mostrava, E a fuga delas por temor, e espanto, Por entre os arvoredos, e espessura O primor, e viveza da escultura.

Representa outra parte o marchetado De ouro, aljôfar, estrelas, prata fina Carro da Aurora, e nele a amante, e amado, A cujo ardente amor cega se inclina,

Descuidada de si, perde o cuidado De abrir a porta ao dia, e só imagina Como melhor segure a amada prenda, De seu receio, e amor doce contenda.

Quatro cavalos pelo leve vento Cândidos, e purpúreos da Alva amante O carro conduzindo, lá no assento Áureo descansam no último Levante.

Aquele dia, e dizem que outros cento, Visto não foi o auriga rutilante, Que, como a Aurora as portas não lhe abria, Por entre nuvens arrojava o dia.

Dês do saguão o Mago, e Sousa entraram Num pátio de suberba arquitetura, E no fim dele o invicto Melo acharam Do caro irmão sentindo a morte dura:

Cujo ilustre cadáver entregaram A tarde antecedente à sepultura, Posto que inculta, rara, e suntuosa Obra da natureza artificiosa.

No coração do áspero rochedo, Em que bate contínuo o mar furioso, E com boca de serras, e arvoredo Beija a Anfitrite o rio caudaloso,

Representa pirâmide um penedo Alto, e por natureza cavernoso; Ou por obra do tempo, que bem basta Para abrir pedras quem memórias gasta.

A este fizeram funeral erário Do defundo valor, a quem só a morte Vencer pôde, ajudada do contrário Destino, mais que férreas armas forte:

E abriram no fiel depositário Este epitáfio, recontando a sorte, Contrário do guerreiro soberano, No Cataio idioma, e Lusitano,

Este penhasco, ó peregrino, encerra O Lusitano Melo, a que era estreito, Para tanto valor, o mar, e a terra, Das cem línguas da fama digno objeito.

Deixou a pátria amada pela guerra, A riscos, e trabalhos pôs o peito, Deu-lhe o Cataio mar a morte dura, Este remoto sítio a sepultura.

No mais alto, aonde faz a rocha ponta, Puseram o sinal, onde o Cordeiro Divino satisfez a errada conta, Que deu a seu Criador o homem primeiro.

Agora o caso aos passageiros conta Navegando à sua vista o marinheiro, E do caminho, de lugar distante, Ao companheiro amostra o caminhante.

Entanto que estas fúnebres memórias Ao triste cavaleiro magoavam, Lá dentro aos que entretêm mundanas glórias Músicos instrumentos descantavam:

Ao som deles, de amor altas vitórias Quatro acordadas vozes celebravam; Era da bela Citereia o canto, Que amou de Mirra o belo filho tanto.

Cantaram depois disto Galateia Entre os braços de Ácis reclinada, E que Délia o Céu deixa, e se recreia Do seu pastor prezando ver-se amada:

Como a Bóreas o amor a fúria enfreia, E a Júpiter mitiga a chama irada, Acende o grão tridente, e como dentro Plutão sujeita no tartáreo centro.

Das vozes a brandura, o tom suave Os mais rebeldes peitos moveria; Porém de Melo o sentimento grave Fazer tréguas co a dor não consentia:

Os gostos foge, e faz que mais se agrave A pena, que já na alma não cabia. Sousa advertido então do companheiro, Assi reprende o triste cavaleiro:

Não remedeia o sentir o mal passado: Chora o tempo, que perdes ocioso; Que deste diferente era o cuidado, Com ue climas passaste, e o mar furioso.

Quem és tu, respondeu Melo indignado, Que sem razão reprendes rigoroso, Que sinta do perdido irmão a sorte, Quando só que sentir me deixou a morte?

Com este grave mal sinto, e aborreço Juntamente a forçosa ociosidade; E dá mais força à pena, que eu padeço, Ver que usar já não posso da vontade.

Sousa lhe respondeu: Eu me ofereço A pôr-te a ti, e aos mais em liberdade Onde o forte Albuquerque vos aguarda, Que em dar princípio à guerra por vós tarda.

Por conselho, invictos cavaleiros, De um varão que o porvir já compreende, Até se acompanhar de tais guerreiros, De Malaca o castigo se suspende:

Avisa, ó Melo ilustre, os companheiros, De quem o valor Luso só depende, Albuquerque vos chama, eu por vós venho, Embarcação segura, e breve tenho.

Levou com alvoroço entre seus braços Melo o guerreiro dele conhecido, E duplicara os amigáveis laços, Mas do prudente Mago foi detido:

Deixai para outro tempo esses abraços, Não sejo nosso intento pervertido (Disse) e o tempo que voa, aproveitemos, Que, passado uma vez, mal cobraremos.

Assi é (disse Melo) mas o gosto De um bem não esperado o peito altera, E só o que em ver-vos sinto, meu desgosto Irremediável mitigar pudera:

Porém, para que vosso pressuposto Consiga o efeito, que Albuquerque espera, Darei àqueles companheiros conta Na delícia da casa, que os afronta.

Aque nela achareis de amor escravo Garcia, idolatrando um brando objeito, Fazendo àquele heroico intento agravo, Que concebido tinha o nobre peito.

Porém não porque tanto o caso agravo, Presumais dela incontinente efeito, Que até gora Titônia, quanto amante, Foi guarda a seu decoro vigilante.

Com laço de Himeneu atar-se intenta No que até gora mostra, e já o fizera, Mas as leis diferentes o que assenta Amor, alteram, e assi tempo esperam:

Mas como a lei de amor é lei violenta, Que nunca inconvenientes considera, Não sei, não vindo vós, no que parara, E se o casto desejo se trocara.

Que posto que em Garcia pensamento Não vi, que o casto, e puro amor ofenda; Ou que respeito oprima o atrevimento; Ou razão, o apetite vença, e prenda:

Não sou eu de arriscar o entendimento A erros, que incapazes são de emenda Depois de cometidos, pois sabemos Que amor não para até chegar a extremos.

Assi dizendo, entrou lá dentro adonde Em aprazíveis jogos despendiam As horas, em que a sombra o mundo esconde, Que em silêncio o ligeiro pai seguiam:

Com a ceia, que em tudo corresponde À grandeza Real, já então cobriam As suntuosas mesas os criados, De antigos Mestressalas governados.

Excedia da casa o ilustre ornato, E dos aparadores a riqueza, A fragrância, do Céu quase retrato, E do trato políticoa estranheza;

Era igual em magnífico aparato No modo, no concerto, na grandeza Ao grão banquete das histórias digno Da bela Egípcia ao vencedor Latino.

Sentaram-se Catais, e Lusitanos, E no lugar mais alto a descendente Da Aurora, cujos olhos soberanos Docemente inspiravam fogo ardente:

E se da liberdade eram tiranos, Garcia diga o que no peito sente; Nem tinha ardor menor ela no peito, Que se acendia vendo o amado objeito.

Ficou Melo, ou que fosse indústria, ou sorte, Assentado entre Lemos, e Coutinho, E o que passara, lhes contou, co forte Sousa, e a causa de seu grão caminho;

E porseguiu: Honroso intento é o Norte, Que seguimos, deixando o pátrio ninho, Este nos leve lá, donde nos chama A honrosa empresa, e nos convida a fama.

Entendo vilalobos, que defronte Ficava, o caso, e disse: Quem duvida Partir-se, antes que este ócio mais afronte O crédito, por quem se arrisca a vida?

Isto confirmam todos, e na fronte De qualquer deles fora conhecida A tenção, se Titônia bem notara, E os sentidos amor lhe não cegara.

Aquela ceia esplêndida acabada, Se encheu de licor puro (que recreia Confortando) uma taça coroada Das flores, com que a Aurora a fronte arreia:

Nas mãos a toma a bela namorada, Que de si mesma por amar-se alheia; E, conforme ao gentílico costume, Assi a Aurora invocou, e o diurno lume:

Diva, que o mundo alegras precursora Do lume eterno, que dá luz ao mundo, Favorece os intentos, clara Aurora, Em que minha esperança algre fundo;

E tu, a quem devota Delo adora, Claro da noite imigo alto, e jucundo, Se inda Dafne te custa, pensamentos Ampara, e favorece meus intentos

Disse, e logo à formosa, e doce boca O rico vaso, o néctar puro aplica; E depois que o licor sabroso toca, Deixando a taça de mil graças rica,

A passou a Garcia, a quem provoca A amorosos furores, que publica Um desusado modo de inquietar-se; Porque não pode o amor dissimular-se.

Também para os mais hóspedes trouxeram Coroadas taças do licor precioso. Satisfeitos dali alguns se ergueram Por dar-se ao sono, dom dos Céus sabroso.

Recolheu-se Titônia, e não perderam Tempo os guerreiros, que onde cuidadoso Sousa esperava, e o sábio companheiro, Encaminham o amante cavaleiro.

Sai-lhe ao encontro o valoroso Sousa; Industriado do prudente Mago Disse: Aparecer, e ver o Sol ousa Quem padece na fama tanto estrago?

Como teu bravo coração repousa Em ócio afeminado, quando lago De sangue já Malaca ser devera Por teu valor, que o Luso bando espera.

À reprensão confuso, e já alterado O cavaleiro responder queria; Mas prosseguindo Sousa, o venerado Sinal da rendenção lhe descobria:

Dizendo: O ilustre intento aqui há parado, Que com fé tanta o largo mar cobria Deste final Divino tão devoto, Que era morrer por ele o menor voto.

Tu, que te prometias fazer tanto, Que nos Reinos da Aurora se adorasse A Divina Ara do Cordeiro santo, E que templo até o Chim lhe edificasse,

Em voluntário pouco honroso encanto Não sentes que ligueiro o tempo passe? Vão teu desejo idolatrando adora Na que se faz chamar filha da Aurora.

Do Cristo prometeste ser guerreiro, Não de amor, que em ti põem nódoa tão feia. Acorda, namorado cavaleiro, Do sono, que de teu valor te alheia:

Ressuscite o desejo, que primeiro Ardeu nessa alma então de fé tão cheia; Vem donde Afonso cuidadoso aguarda, E o Céu vitórias mil para ti guarda.

Vista a Cruz santa do guerreiro amante, De repreensor se humilha aos pés choroso, Quanto o ver-se acusado de inconstante; Confuso o deixa, triste, e vergonhoso.

Calou um pouco; mas passando avante Sentimentos daquele erro amoroso, Em gemidos rompeu, e gritos dera, Se o lugar, em que estava, o concedera.

Qual desfazer costuma o Sol a noite, Que o frio congelou do largo inverno, Tal da Cruz santa aquela vista breve Em pranto lhe desfez o mais interno;

E disse: Como erguer olhos se atreve A vós, chave do bem, que dura eterno, Aquele, a que tão facilmente inclina Mais a beleza humana, que a Divina?

Como farei, precioso lenho, emenda, Que a incomparável culpa em parte iguale? Como farei que lastimado a entenda Somente o coração, e ao mundo a cale?

Que façanha obrar posso, que defenda Que livre em meu defeito o mundo fale? Ó se logo daqui fugir pudera, Que da culpa fugi também dissera!

Contrito assi chorou, quando animado De Sousa foi, com lhe dizer adonde O navio fatal deixara atado, Que a seu veloz desejo corresponde.

O que ele ouvindo, disse envergonhado: A partida apressai, de mim disponde, Não perdem tempo, partem logo: ai quanto Fica a Titônia sentimento, e pranto!

Por porta oculta, que talvez deixava Ora o cuidado, ora o descuido aberta, Fogem, e mal entanto repousava Titônia, mal dormindo, e mal desperta:

Andar junto de um rio então sonhava, E correr pela estéril, e deserta Areia em vão; porque beber queria, E como a Tântalo, a água lhe fugia.

A grande pena o coração no peito Lhe estreita assi, que despertou gritando; A voz retumba no dourado teito, A gente em sono envolta despertando:

Cerca a família feminil o leito, De tanto grito a causa perguntando. Ela suspira, e diz: Grão mal me aguarda, Que em sonhos já me aflige, e me acobarda,

Não tarda o mal, que ao ponto dous Monteiros Dos que a emprazar a caça madrugaram, A fugida dos ínclitos guerreiros À bela, e triste amante revelaram.

Julga Titônia os sonhos verdadeiros, Dos olhos fontes vivas lhe brotaram; E como na alma o dardo de amor sente, Da infausta cama salta impaciente.

Gritando meia descalça, e mal vestida, Após o ingrato amado sai correndo, Sem reparar, da grande dor vencida, No crédito, que arrisca, e vai perdendo.

Já neste tempo a Aurora, despedida Do amante esposo, vinha aparecendo: Parou ela entre a gente, que a seguia, E assi se queixa à que abre porta ao dia.

Rubicunda Deidade, a quem adoro, Clara do claro dia precursora, Não consintas que ofendam teu decoro Em mim, que mãe te chamo, bela Aurora.

Ah não se diga que te vejo, e choro, E que me deixas em tristeza agora, Que o mundo alegras, sendo a confiança, Que em ti pus vã, e vã minha esperança.

E se o chamar-me descendente tua, Não são do mundo fábulas sonhadas, Hoje se mostre impede a tenção crua, Que deixa minhas ânsias enganadas.

Assi o Céu vida a Mêmnon restitua Pelas lágrimas belas derramadas De teus olhos, que enxuga a luz do dia, A quem já as minhas fazem companhia.

Não disse mais; que a pressa, e grande pena A mais larga oração lugar não davam. O monte desce enquanto a luz serena Com cânticos as aves saudavam.

À praia chega, e nela amor lhe ordena A execução dos males, que a esperavam. Dar vê ao navio à vela. Ai fera vista, Quem haverá, que a tanta dor resista?

Já então vinha saindo o grão planeta: Dormindo estava o mar, dormia o vento; E qual sai pelos ares veloz seta, Rompia o lenho o líquido elemento.

Conhece os fugitivos, e indiscreta Rendida, quanto a amor, a seu tormento, Disse gritando: Foges, inimigo? Mas do Céu mais ligeiro é o castigo.

Deuses, cujo poder é imenso, e eterno, Do cristalino assento moradores, E os que tendes do mar largo o governo, E quantos sois na terra habitadores;

E vós, que lá imperais no escuro averno, E punis dos ingratos os rigores; Se justos sois, à pena, que me alcança, Guardai justiça, concedei vingança.

A ti, Nêmesis vingadora, invoco, E a vós negras irmãs, ministra de ira; Que bem cuido que a lástima provoco Inda a mesma impiedade, que ódio inspira:

Deste, por quem em pena a glória troco, Açoute viperino o peito fira, E perseguido seja como Orestes, Ódio mesmo, a humanos, e a Celestes.

Ó Tétis, bela mãe da bela Aurora, Tu que és (se a antiga fama não me mente) Da casa de Titon progenitora, Dói-te de tua afligida descendente:

O úmido povo, que em teu Reino mora, contra o pérfido incita; o grão tridente empregue nele o digno teu consorte, Posto que indigno de tão nobre morte.

Fique entre a vasa, e limos sepultado, De Malaca não chegue a ver a terra; E quando vê-la lhe conceda o fado, A traição morra na primeira guerra.

Mas ai, que digo? amor é só o culpado, Que cego infante sempre os golpes erra; Do peito me roubou a liberdade, E ao perjuro deixou livre a vontade.

Mas triste, que deidade o favorece, E contra mim por ele se conjura? O mar traquilo, e brando se oferece, Presos os ventos na masmorra escura;

E o navio traidor desaparece. Ah Deuses inimigos! sorte dura! Não vos mostreis em tudo rigorosos, Dai-me a morte, sereis também piedosos.

Neste tempo vencendo a dor penosa O espírito, que infunde aos membros vida, Perdeu a bela face a cor da rosa; E caíra, a não ser dos seus sustida.

Cercou-a a turba feminil chorosa, Imaginando em todo ter perdida A natural senhora; e gritos davam, Que em vales, e cavernas retumbavam.

Chegou da linda (quanto triste amante) A vida quase ao derradeiro fio: Usam remédios mil, nenhum bastante Para curar de amor o desvario.

Era o mal ao da morte semelhante, Banha o pálido rosto um suor frio; A luz se turba de uma, e de outra estrela, Mas neste extremo por extremo bela.

Assi o vital espírito suspenso, Ao nobre alcáçar em braços a levaram, E com mágoa, e com dor, pesar imenso Mais ativos remédios lhe aplicaram.

Entanto aquele sentimento intenso, Por quem as vitais vias se cerraram, Fez termo; e recebendo alento o peito, Feriu com gritos o estrelado teito.

Do mortal paroxismo em si tornada, Se alegram todos: ela soluçando Os olhos baixos, como envergonhada, E no amoroso excesso imaginando.

Ora amor sente, ora a paixão mostrada, E o caso com razão considerando A desesperação lhe acende a ira, Já por vingança, já de amor suspira.

O dia todo passa entregue ao pranto, Também chorosa a noite não sossega: E lhe ordena o mesmo amor entanto Fim, mas fim triste, ao mal, a que se entrega.

Na grande Coréia, do Japão espanto, A quem a paz há largos anos nega, Reinava Joculano aos seus aceito, E a formosa Titônia no seu peito.

Desejoso de ver, e de mostrar-se Nos jogos, que celebra belicosos Cataio, aos Deuses vãos, em que ajuntar-se Os guerreiros costumam mais famosos,

O mar passou; e quando a assinalar-se Se apercebe entre tantos valorosos, Dele triunfa amor; que em toda a parte, Ostenta mais poder Amor, que Marte.

A clara filha da luzente Aurora A ver a festas a um balcão saía, Qual a formosa mãe na alegre hora, Que o mundo alegra, dando passo ao dia.

A formosura estranha o Rei adora, Admirado, e contente do que via, Todo o suspende um amoroso encanto, E a amada liberdade perde entanto.

De amor preso, sem alma, levantado, Se tornou assistir ao Real governo; Donde, posto que não desesperado, Tudo o mais era um amoroso inferno:

À boa, ou má fortuna aparelhado, Fazer procura seu amor eterno, Declarando quanto ama, e quanto sente Co as finezas, que usar pode um ausente.

Intenta tudo, quanto amor ensina, Por ter da esquiva amada o bem de esposo: Mas dura estrela, que a rigor a inclina, Ao passo, que era amante, o fez odioso:

Felice em seu desprezo, outro imagina, Que vive, quem bem ama, receoso, Um, e outro cuidado o inquietava, E em amorosas iras se abrasava.

Nestas ânsias chegou de voo a fama Da suspirada ingrata, exagerando O mal fundado amor, o quanto a flama Dos ciúmes, e amor cresce abrasando:

Iniquíssimo o amor mil vezes chama, E a que desesperado está adorando Geme, suspira, chora, e não descansa, Todo envolto em desejos de vingança.

Já condenando o longo sofrimento, Passa o mar com trezentos escolhidos, E dando pano ao favorável vento, Ao Catai porto chegam desmentidos.

Dali sobem ao célebre aposento Todo revolto em choros, e gemidos: Era então alta noite, e de repente Entram ferindo a descuidada gente.

Confusas vozes com estrondo horrendo Nas bóbedas, e teitos retumbavam: Defendiam-se alguns; outros temendo, Onde chorava a triste amante entravam:

Ela o rumor ouvindo, e fugir vendo Os que guardar a vida procuravam, De um dardo lança mão, e generosa Corre aonde a confusão era espantosa.

Bradando vinha o amante juculano Aos seus, que a amada ingrata respeitassem, E àquele, que era causa de seu dano, Ou prender, ou dar morte procurassem:

Quando destino cruel, ao bem tirano, Quis, então mais cruel, que se encontrassem Num corredor escuro, donde a vida Truncou incauto, dele mais querida.

Com o dardo ela passa o escudo forte Do príncipe infeliz, que a fera espada No peito lhe escondeu, envolta em morte, Lá donde era de amor doce morada:

Cai a infelice como o quer a sorte, E assi disse, esforçando a voz cansada: Sejas bem-vinda, ó morte hoje piedosa, Fim desejado a vida tão penosa.

Fere no coração do amante irado A delicada voz, e logo teme A desgraça maior acobardado, De sua má fortuna, e triste geme.

Correm com luzem um, e outro soldado: Seu dano reconhece; e vendo-o, treme O coração feroz no peito ardente, Que já males da morte, e de amor sente.

Brotar o sangue vê do aberto peito, E nele tinta a rigorosa espada, Por terra derribado o áureo teito, A luz dos belos olhos eclipsada:

Vê seu mal infinito, o bem desfeito, Morta a esperança, a dor eternizada: E assi os queixumes derramou ao vento, Que lhe ditava o grave sentimento.

Possível e que o justo Céu permita Que injusto amor, e injusta sorte unidos Promulguem dura lei com sangue escrita, Contra fracos mortais endurecidos?

Monstro infeliz de amor, e de desdita, Em quem erros, sem culpa cometidos, Pedindo aos Céu estão maior vingança, Que haver perdido a vida, e a esperança.

Os funestos vestígios do ferino Rigor, que me movia, triste vejo, E não me mata a dor? duro destino! Vingança de mim mesmo ter desejo.

Olhos, que mais cruéis inda imagino, Que a dura mão, que tão incauto rejo, Enxutos vós, sem luz uma, e outra estrela, A mão a chaga fez, vós podeis vê-la?

Ó beleza divina, hoje eclipsada Por esta dura mão inadvertida, Quem como de mim sois morta adorada, Pudera com morrer dar-vos a vida.

Tu sacrílega mão acelerada, Para do bem maior ser homicida, Emprega em mim tua fúria, volta o ferro Contra este peito origem de teu erro.

Mas costumada ao feito atroz, receio Rebelde a este serás, por ser piedoso. Oh não seja assi, não, se o caso feio A morte me não faz também odioso.

E tu, gentil espírito, bem creio Que agora me serás mais rigoroso: Aceita este de mim último ofício, Se por vingança não, por sacrifício.

Assi dizendo, sobre o ferro duro Se lança, antes que ser possa estorvado: Entra no amante peito o fado escuro, E cai mortal sobre o objeito amado.

De altos clamores o Celeste muro Triste, e piedosamente penetrado, Cobre as Estrelas, e começa o dia, O sucesso chorando a Aurora fria.

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