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1600–1664

LIVRO VII

Francisco de Sá de Meneses

Neste tempo dês da alta popa via O forte capitão fazer em terra Tranqueiras, e plantar artelharia Com várias outras prevenções de guerra:

Já de alcançar os presos desconfia, E teme algum engano dos que encerra Todo o Agareno peito; e no tirano Considera um artífice de engano.

Como pois dilatasse este conceito Com largo discorrer no entendimento, Desconfiança entrou no ilustre peito, A ira provocando o sentimento:

E por que não se ofenda seu respeito, E culpa venha a ser o sofrimento, Que armem com grande pressa batéis manda Leão, Pereira, Andrade com Miranda.

Nos quatro armados lenhos aos valentes Varões reconhecer manda a cidade, E notar os lugares convenientes, Por donde a entrar com mais seguridade:

Ferem logo cos remos diligentes O mar os remadores; e, a vontade Do capitão prudente executando, Tudo os quatro Guerreiros vão notando.

Manda também o Rei sair do rio Armada, que o mar cobre, a cometê-los. Porém não perde Afonso o heroico brio, E manda os mais batéis a socorrê-los:

Causa nos inimigos medo frio Tanta resolução, e com só vê-los, Vindo a voga arrancada, volta deram, E no rio outra vez se recolheram.

Tuão Bandão a bordo com recado Composto de desculpas amanhece; Que Albuquerque não quis ouvir cansado Dos enganos, que nele já conhece:

E lhe mandou dizer que em todo estado, Quando a fortuna sobe, e quando desce, Sempre palavra o Português mantinha, E um rosto, um Rei, um Deus somente tinha.

Encheu Malaca de medroso enleio A severa resposta inopinada, Duvidando do fim, se falta um meio, Na guerra já de todo declarada:

Só no Rei se conhece entre o receio Irado o coração, a alma obstinada: Faz juntas, roga, manda, persuade, E tudo é confusão, e variedade.

Albuquerque também entanto estava Flutuando num pego de cuidados: Era alta noite já, e inda não dava Repouso aos lassos membros trabalhados:

E quando o sono os olhos lhe ocupava Dos continos desvelos agravados, Do castelo de popa vozes deram, Que da noite o silêncio interromperam.

Bradaram os que estavam de vigia, Quando a bordo um batel chegar sentiram, E quando pela enxárcia já subia, Por quem de novo as vozes repetiram;

Desejam saber todos quem seria O que ousou tanto: e sobre o convés viram Um velho, cuja barba chega ao peito, Da cor da neve, venerando o aspeito.

Formando em torno dele a gente um muro, Pediu que ao capitão forte o levassem, Dar procurando entre o noturno escuro Mostras, que de fiel o acreditassem:

Mas não bastou mostrar-se tão seguro, Para que dele mal não suspeitassem Alguns, a quem ocorre ali à memória De Sinon, e de Troia a triste história.

Trazem-lhe para entrar enfim licença Lá donde o capitão mal repousava. Entra; e, saudando-o, disse: Glória imensa O Céu, varão insigne, te prepara:

De teu trabalho vejo a recompensa; Contigo a ocasião tens cara a cara, A dourada guedelha te oferece, E teus intentos altos favorece.

Quem és tu? (disse Afonso) e com que intento Esse bem pronosticas, e me animas? Serei, inda que humilde, um instrumento (Lhe respondeu) com que o tirano oprimas.

Merecer teu favor, servindo, intento; E se, qual hera, a forte muro arrimas A teu alto valor minha humildade, Subirei grato à mor felicidade.

Mas, para que não fiques duvidoso, Ó magnânimo Afonso, em Cristo adoro. Nasci na parte, onde Tomé glorioso Morreu por Cristo; e em Malaca moro:

Fui ao turinao fero suspeitoso, Porque livre falei, e porque ao coro Dos falsos conselheiros contradisse, E verdades lá pouco aceitas disse.

Contra mim o Rei cruel em ira aceso, Por ele à prisão dura fui mandado, Onde senti do ferro o duro peso, No conceito de todos condenado:

Porém não sofri muito ver-me preso; E em teu nome, de tudo respeitado, Rompi as prisões; e venho a que me mandes; Que te espero fazer serviços grandes.

Que, inda que te pareça fraco velho, Força o desejo dá, a razão, o agravo: Servirei pelo menos de conselho, Irmão no amor, na sujeição escravo.

E se de alto valor és claro espelho, Arte, e ciência alcanço, que a Timavo Igualo na observância das estrelas, E a Atlante em conhecer o curso delas.

Com arte alterar posso os elementos, Mover a terra, atrás tornar os rios, Turbar o mar, mudar num ponto os ventos, Vivo fogo acender nos gelos frios:

Mas isto, enquanto aos atos tão violentos Não cortar o Motor supremo os fios; Que sem licença sua considera Que contra Jó Satão nada pudera.

E não julgues que, qual o falso Mago, De Pedro contendor, desta arte uso; Que entre Pagãos a Cristo n’alma trago; E deles aborreço o torpe abuso:

De Malaca alcancei o triste estrago; Mostram-no os Astros Júpiter confuso, Desfalecido, e triste em ponto forte Nos dous de Helena irmãos casa da morte.

Porém, para isto ser, convém primeiro Que um guerreiro, que vive em branda calma De amor, se vá buscar onde estrangeiro Em mole ócio padece afrontas d’alma:

Tendo contigo o forte cavaleiro, De Malaca terás inteira palma, Que o Céu, que altas vitórias te destina, Assi o estabelece, e determina.

Abrindo vinha o mar este famoso, Por ser nos danos de Malaca parte; E seguindo o estandarte belicoso, Da milícia apendere contigo a arte:

Mas violência infernal o tempestuoso Dia o levou à mais remota parte, Com cinco valorosos companheiros, Que são entre os famosos dos primeiros.

Este, cujo valor se estende a tanto, Aqui trarei, com que dos teus famosos Um me acompanhe, a quem não causem espanto Casos, que possa haver dificultosos.

Escutavam-no muitos, e entretanto Alguns dos circunstantes invejosos Deste encarecimento honroso estavam; Outras ver o guerreiro desejavam.

Também o capitão a alma suspensa Na mente o que escutava, referia. E respondeu: Se o justo Céu dispensa Que extinga de Malaca a tirania,

Do mesmo Céu terás a recompensa; E que a terás de mim na terra, fia; Serás do Lusitano povo honrado, Sempre favorecido, e respeitado.

Mas no tocante ao cavaleiro forte, Que pedes, que haja muitos não duvido Já desejosos que lhe toque a sorte, Por mostrar o valor na alma escondido:

Porém quanto me a mim primeiro importe Segurá-lo, discorre no sentido; Pois que me importa dar de todos conta; E, dando-a má, que sentirei de afronta?

Dom João de Sousa moço valoroso, A quem mais o desejo o risco acende, Assi lhe diz: Seja eu, varão famoso, Esse, a quem esta empresa se encomende:

Não há no mundo caso perigoso, Quando do Céu a causa se defende; E do risco maior desta aventura Esta segura espada me assegura.

Coutinho juntamente a empresa pede Com outros muitos, todos dos famosos: Mas constante Albuquerque a nega, e impede, Deixando-os descontentes, e queixosos:

Entanto que ele considera, e mede Mil sucessos no caso perigosos, Sousa, que da licença duvidara, Chamando a Etol no seu batel faltara.

O Sábio o segue envolto em névoa escura, Que invisível o faz aos circunstantes, Até que, dando à vela, o ar se apura, E conhecem no barco os navegantes:

Por grande espaço o espanto em muitos dura Do sucesso, e de ver que as espumantes Ondas o fatal lenho dividia Tão ligeiro, que a vista desmentia.

Parte o Guerreiro forte: os mais ficaram Sentidos, e invejosos da partida: Outros, mal suspeitando, imaginaram Ser esta a derradeira despedida.

O sentimento, e cólera abrasaram O peito ao capitão; mas, resistida A paixão, dá esperança da jornada, Posto que a julga fábula sonhada.

De novo o Sol com lúcido retorno As reluias da noite desterrava, E com alegre, e radiante adorno As cousas já distintas ilustrava:

Da armada o bosque no úmido contorno (Se não naval Cidade) já dourava, A conselho co diurno raio chama Afonso, e corre da aventura a fama.

Acodem logo os capitães valentes, De acabar casos grandes desejosos: E o capitão lhes disse: Obedientes A vosso Rei e a Deus, varões famosos;

Vós assombro fatal de Mauras gentes, Que alcançastes triunfos mil gloriosos, Já a razão grita que princípio demos A obra, por que tanto mar rompemos.

Até agora esperei chegasse o dia Que a palavra Real, a fé guardasse Nosso inimigo, e, como prometia, Os presos companheiros nos mandasse.

Mas, vista a falta sua, já se via Perder reputação, se mais tardasse Em lhe dar o castigo merecido, Tanto ao peito obstinado em vão detido.

Assi Albuquerque anima, e persuade: Mas levantando a voz Jorge Botelho, Acreditado por valor, e idade, Escutai, disse, o parecer de um velho.

Antes que assalto demos à Cidade, Que se queimem os lenhos aconselho Guzarates; porque é certo o perigo, Se nas costas deixamos o inimigo.

Despois que deles posse ao fogo demos, Para se conseguir do intento o efeito, Se cômoda a maré, e lugar tivermos, Logo poremos à Cidade o peito;

Que, posto o caso nos Mavórcios termos, Que a cheguemos é bem ao mais estreito, E, de rigor executando extremos, Quando descanse o Sol descansaremos.

De excelente varão, voto excelente, Disse Afonso, e dos mais foi aprovado; E, armados os batéis com destra gente, Foi no seguinte dia executado.

Nova já dava a Aurora no Oriente Da vinda de Titão, quando o esperado Sinal a tuba deu, que os rostos muda; Grita a gente até então atenta, e muda.

Arrancam todos com clamor horrendo Ferindo os ares, e cos remos duros As ondas alteradas revolvendo, Espuma levantando, e cristais puros.

Gritam também os inimigos, vendo De improviso o rebate mal seguros, Nas côncavas cavernas repetiam Mil ecos tudo, e tudo confundiam.

Qual foi tocando a fogo noite alta, Que em casa cada qual ter imagina Correr a gente, que da cama salta, Até que à parte, que se abrasa, atina:

Tal no mar, e na terra sobressalta O estrondo, e a vozeria repentina: Os de Luso entretanto o mar cortavam, E por chegar os remos apressavam.

Chegados à distância, que podia Fazer emprego, e efeito rigoroso Nas inimigas naus a artilharia, Fogo ao salitre dão, que arde espantoso:

Nos ardentes pelouros morte fria Se envolve, e logo se ouve um lastimoso Som confuso de gritos, e gemidos Dos que morrendo estão, e dos feridos.

Bravos os inimigos responderam, Também a artilharia disparando, E, chegando a bordar, os receberam Pedras, fundas, e dardos mil tirando.

Cubertos dos escudos remeteram Os fortes Portugueses; e pegando Em várias partes fogo, num momento Some chamas, e fumo pelo vento.

Entrou o medo, confusão, e espanto Nos Guzarates míseros, cercados De fogo, e fumo, um lastimoso pranto Aos ares levantando acobardados:

Vendo seu fim alguns em rigor tanto, De outro remédio já desesperados, Saltam por entre as chamas acendidas, Procurando no mar salvar as vidas.

Mas já também no mar a imiga sorte Lhes tinha aparelhada morte dura; Acabam nele às mãos da gente forte, Que a ferina treição vingar procura:

Preza os imigos já da justa morte, Dão-lhes o mar, e fogo sepultura: Movem contra a Cidade os vencedores, Querendo executar novos rigores.

Bem como o bravo touro, magoado Do farpão duro, segue ao que o feria, E apenas morto deixa o moço ousado, Quando outro logo segue ardendo em ira:

Tal Afonso iracundo, e indinado Traz de um castigo a dar já outro aspira; Com a Cidade belicoso cerra, Fazendo a ferro, e fogo dura guerra.

Em seu ser o maior influxo estava, E aos edifícios, em que o mar batia, Desde os batéis co fogo se alcançava, Que em balcões, e janelas se acendia:

O sopro Boreal, que respirava, À chama forças dava, que subia, Ameaçando ao Céu pontas vibrantes, Imitadoras vãs dos vãos Gigantes.

O forte Lima foi o que primeiro Uma casa acendeu com mão ousada, Descendo sobre o invicto cavaleiro Tiros, que a pagã turba arroja irada:

Teixeira, por amor aventureiro, O fogo numa nau, e noutra a espada, Com pezar do inimigo, e vilipêndio, Fez noutra casa rigoroso incêndio.

Abreu, Silva, Miranda, um, e outro Andrade A foz do estreito rio atravessaram; E, de tiros formando tempestade, Saída à armada bárbara estorvaram:

Os mais, correndo ao longo da Cidade, Mil ao fogo edifícios entregaram; Entre os primeiros vai Jorge Botelho, Em larga idade de valor espelho.

Coutinho, cujo peito generoso Aos maiores perigos se inclinava, Com alguns salta em terra, e espantoso, Parece que arruinar tudo ameaçava:

Uma grão casa vê, que numeroso Esquadrão de inimigos amparava: Iroso raio os acomete, e ofende, E o suberbo edifício em fogo acende.

Estavam nesta casa apercebidos Das armadas Reais os bastimentos, Enxárcias, munições, com os fundidos Por Vulcano Mavórcios instrumentos:

Cresceu a voraz chama; e, recolhidos Os fortes Portugueses, pelos ventos Voa a casa em pedaços dividida, Pelo furor da pólvora acendida.

Os míseros Malaios, quando viram Tão espantosa, e súbita ruína, Todos de um medo frio se cobriram, Solicitando o que o vil medo ensina.

El-Rei de Pão, e Príncipe acodiram Àquele estrondo horrível, e com dina Reprensão os animam a que virem, E à vingança do grave estrago aspirem.

Pôde a vergonha tanto, e Real respeito, Que tornam animosos à defensa; E com mil tiros de mortal efeito Fazem à Portuguesa gente ofensa.

Mas como o fogo já de teito a teito Vai correndo veloz com fúria imensa, A que parte acodissem não sabiam; Que tudo envolto em morte, e chamas viam.

Em tanta confusão, em dano tanto, Tenros meninos, tímidas donzelas, Imbeles velhos com interno espanto, E gritos altos ferem as estrelas:

E correndo à Mesquita em triste pranto, Envoltas rogativas, e querelas, Mil votos liberais ofereceram, Que, sendo a Deuses vãos, nada valeram.

A derribada Troia quando ardia, E a Roma ao natural representava, O incêndio fero, e a turba, que temia, Chega lá donde o Rei turbado estava.

Entre o povo confuso Damur ia, Que por Santo Malaca venerava; Porque devoto Peregrino fora A tumba visitar, que o Mouro adora.

Vendo este o Rei turbado, assi o reprende: Não te doem, disse, de Malaca os danos? Que mais teu duro coração pertende, Que ver do Céu tão claros desenganos?

Bárbaro fogo esta Cidade acende, Que assombro foi do mundo tantos anos: O Céu o quer assi, que não houvera Quem contra seu Decreto se atrevera.

Não sofre o Céu que tenhas por cativos Homens, a que fizeste guerra injusta: A danos te aventuras excessivos, Além dos muitos, que a teu Reino custa.

Abranda, ó Rei, os peitos vingativos; Dá-lhes os que dão causa à guerra justa; Que não será julgado por fraqueza, Pois vencer paixão própria é fortaleza.

Estas palavras, ou necessidade, Que a tudo obriga, ao duro Rei mudaram O peito, e dispuseram a vontade, Que dispor fortes casos não bastaram.

Dar manda logo aos presos liberdade, Que dele pode ser não alcançaram, Se o esperado socorro lhe chegara Antes que a guerra Afonso começara.

Entanto em belicosa competência Cometiam façanhas espantosas Os de Luso, e já toda a resistência Era vã contra as forças vitoriosas:

Crescendo ia das chamas a violência, As torres consumindo mais famosas; Por entre o fogo, e fumo andava a morte, Ministra da ira de Albuquerque forte.

Andava o capitão destro, e valente Pelo mar discorrendo a toda a parte, Solícito acudindo, e diligente Co valor grande acompanhando a arte.

E enquanto à forte, e vitoriosa gente Favor Netuno dá, Vulcano, e Marte, Eis vem sair de males tão esquivos, Como triunfando, livres os cativos.

Qual nas Albânias serras leão iroso, De quem fora o monteiro perseguido, Que os filhos lhe levava, e temeroso Soltara, por se ver dele seguido:

Vendo-os livres, se esquece generoso Da dor, que tanto o tinha embravecido, Alegrar-se com eles só procura, E do monteiro tímido não cura;

Tal o varão insigne ante si vendo Os que em lugar de filhos estimava, A concebida cólera perdendo, De se alegrar com eles só tratava:

Das armas cessar manda o estrondo horrendo, Em sinal de alegria, que gozava; E, por honra dos hóspedes, o dia Em festas passa ao som da artelharia.

Rompia o fatal lenho o mar entanto Com a velocidade, que acontece Cortar a pomba o ar co negro manto, Também a noite entanto se oferece.

O forte Sousa, que ignorava quanto Veloz corre, no Céu, que se enobrece Com tão raros milagres luzes belas, O concerto contempla, e curso delas.

O sábio companheiro, isto notando Da popa, onde assentado no governo Do batel assistia, desejando Intertê-lo, soltou a voz do interno:

Dos astros, que contemplas, ignorando Quarto trabalho do arquiteto eterno, Conta a gentilidade vãs histórias, E lhes aplica fabulosas glórias.

Lá pinta os heróis Gregos, lá ao Romano, Que à Pátria pôs o jugo, dá aposento, Tanto ao mundo cegou aquele engano, Do que padece no Tartáreo assento:

Mas se lugar tão alto dar-se a humano Valor devera, o grão merecimento Dos vossos Lusitanos já tivera De todo hoje ocupada a eterna esfera.

Que lá o primeiro Afonso, lá o segundo, E o grande Sancho luz eterna deram, E os claros descendentes, que no mundo Em virtude, e valor resplandeceram:

Mas deixando passado, inda o profundo Oriental mar, que vossas naus romperam, Este que agora abrimos, verão glórias Dos Portugueses, que honraram histórias.

Isto ouvindo o valente cavaleiro, Desejando saber cousas futuras, Conta-me, disse, ó sábio companheiro, Desses heróis as altas aventuras:

Do por vir, valoroso aventureiro, Te direi o que só por conjecturas Ciência alcançar pode, investigando O que os astros estão prognosticando.

Quando um Sequeira em armas excelente Governar o Indiano senhorio, Infestará seus mares insolente Melique Az feroz senhor de Dio.

O que há de quebrantar forte, e prudente Suberba tanta com heroico brio; E quatro lenhos em naval peleja, Diogo Fernandes se dirá de Beja.

Reformará o imigo a rota armada, E vingativo com poder dobrado Ousará cometer nova jornada, Onde o rebaterá o Luso ousado:

Mas a morte cruel acelerada, Com raio de uma espera disparado, Romperá o peito, quando o braço forte Mais despreze o poder da mesma morte.

Porém ocupará o lugar honroso, E ao morto capitão dará vingança Dom Jorge de Menezes, que famoso Será, enquanto no mundo houver lembrança.

O bárbaro Caudilho já medroso, Perdido o valor, falto de esperança, Deixará com fugida vergonhosa Entregue ao fogo a armada numerosa.

A estes seguirão vários conflitos Entre a gente Cambaia, e Lusitana, Até que, após de males infinitos, Se entregue Dio à força mais que humana:

Ali escureceram altos espíritos A ilustre fama Grega, e a Romana, Começando num Cunha ilustre, e forte, Que abaterá o poder ao tempo, e à morte.

Este fabricará a grão fortaleza, Onde fará durar sua memória Manuel de Sousa, que o viver despreza, Por exaltar a Portuguesa glória:

Já cantar ouço em Musa Portuguesa De Antônio da Silveira heroica história, E parece que o vejo rebatendo Os feros Turcos, Dio defendendo.

Insignes duas Matronas lá contemplo, Adquirindo renome alto, e preclaro, Uma de amor, e fortaleza exemplo; Outra piedade ostenta, e valor raro:

Estas ilustrarão da Fama o templo, E darão vida aos mármores de Paro; E do Empíreo serão luzes mais belas, Que essas que vemos lúcidas estrelas.

Seguirá a nobre Veiga o claro esposo Entre os perigos, e furor da guerra; E serás Vasconcelos venturoso, Seguindo-te dous Anjos cá na terra:

A famosa Ana em ato valoroso Mostrará quanta fé, e amor encerra, Verá o ferido filho já acabando, E ao perigo estará outro animando.

Eternizará ali sua memória Lopo de Sousa, célebre Coutinho, Por quem adquirirão perpétua glória O Tejo, Guadiana, o Douro, e Minho:

Será admirando assunto da alta história, Luz aos que seguem imortal caminho Fernando Penteado, e suas façanhas Eterna inveja das nações estranhas.

Alta dará também matéria à Fama Dom João Mascarenhas, cujo brio Oposto a Rumecão, já Marte o aclama Heroico defensor da ilustre Dio:

Dom Fernando de Castro de entre a chama Atrás fará tornar o Turco frio: E os três Irmãos Almeidas farão tanto, Que darão aos por vir inveja, e espanto.

De um Antônio Galvão, que herói valente Passará além dos límites humanos, Memórias durarão enquanto ardente O planeta maior dourar os anos:

Romperá de oito Reis a imensa gente Com cento e vinte raios Lusitanos, Alaga o sangue imigo a terra, e logo De Tidore a Cidade abrasa o fogo.

De Ataíde a prudência, e valentia, Que, acudindo a Chaul, Goa defende; E do grão Mascarenhas a valia, Que do Nizamaluco o furor rende:

Bem aparada pena inda algum dia Os feitos, que por hora mal comprende Observação confusa, com profundo Engenho escreverá, alegrando o mundo.

Virão os Irmãos Sás da foz do Douro; Por que do alto valor, que neles mora, O Turco trema, o duro Persa, e Mouro, E quantos vem primeiro a luz da Aurora:

A fama, que amarão, não prata, e ouro, A seus feitos dará tuba sonora, Deixando mil valentes invejosos, E muitos de imitá-los desejosos.

Sebastião de Sá na forte Dio Ao fero Rume mostrará os quilates De seu alto valor, e heroico brio, Que temerão o Ganges, o Indo, e Eufrates.

E lá no Mauritano senhorio (Cruel fortuna quanta glória abates!) Mostrará que temor nele não cabe, E que invicto voltar atrás não sabe.

Pantaleão de Sá não menos forte, Ormuz socorrerá no mor perigo; Na Cafraria foge dele a morte, E em Pondá roto o exército inimigo,

Verá Salsete em duvidosa sorte, Que é mais de glória, que da vida amigo, E contará ilustre, e eterna história, Que seu raro valor deu a vitória.

Se viras de Dom Paulo, ilustre Lima, As que não sei dizer façanhas claras, As que a fama por únicas sublima, Novo Marte por elas o aclamaras:

Ou por não ter segundo amor estima, Dever o mundo a seu valor julgaras, Este será, se não remunerado, Aplaudido de todos, e invejado.

Também lá Tristão Vaz da Veiga invicto Socorerrá de Ormuz a fortaleza, Rompendo por um número infinito De armados lenhos com feroz braveza.

Manuel de Sousa em desugial conflito Lhe ficara entre a bárbara fereza: A ajudá-lo o famoso Veiga torna, E da vitória aos dous o Cauro adorna.

Virá um Sampaio, só da fama amigo, A quem Netuno entregará o tridente: Ó quanto ao mar dará sangue inimigo? Quanto inimigo lenho ao fogo ardente?

E se me perguntais, por que não digo As ações de varão tão excelente, Direi que, para entrar na menor parte, Já não alcança o engenho, falta a arte.

De Fernando Ximenes a piedade Também asas dará, línguas à fama, O fraternal amor, alta bondade, Que louva o mesmo Céu, e o mundo aclama,

Quando naufrágio infando a crueldade No mais brando, e mais pio peito inflama. Tu, pelo amado irmão só dás a vida, Por Deus, que o zelo preza, defendida.

Mas do valor de um Sá, da grão fortuna Dará o Índico mar eterno indício, E será de Ceilão forte coluna, No tempo, que irá toda em precipício.

Este, os Céus querem, que as virtudes una Exercendo feliz o heroico ofício: E se verão no ilustre Constantino Em ser humano assomos de Divino.

Depois que este com obras admiráveis, Sendo de Ásia terror, de Europa glória, De palmas, e troféus inumeráveis Enriquecer o templo da Memória;

Terás motivos Luso lamentáveis De horica si, mas lastimosa história, Que ao mundo deixará sua ilustre morte, Com que a gozar irá da melhor sorte.

Durará eterna fama, eterna inveja No Índico mar de Antônio de Saldanha: Quem imortalizar-se só deseja, Imite seu valor, conselho, e manha.

Caso não haverá adonde esteja Honrado risco, ou imortal façanha, Que intrépicdo, e terrível não cometa A mira na gloriosa, e imortal meta.

Lourenço Pires, e Carvalho invejo, Que o claríssimo avô representando, Por três vezes cair ao mar o vejo, Co sangue ilustre as ondas esmaltando:

E três vezes subir onde o desejo De honra o fará claro, como quando Vai saindo o planeta rubicundo Do mar salgado por dar luz ao mundo.

Com raios de façanhas replandece Raio de vivo fogo nos efeitos, E a fama dos antigos escurece, Que não foram do tempo às leis sujeitos:

Esta eternas memórias oferece A seu raro valor, heroicos feitos, Com que assombrando os inimigos fortes, Oposto à morte multiplica mortes.

Mas entre as glórias, a que tenho inveja, Motivo já de pena me lastima, O Tejo chora, quando o Céu festeja Mascarenhas, que a vida desestima.

Porém, se honradamente se deseja, Se enfim a honra à mesma morte anima, Com razão dos honrados invejada Será de Dom João a morte honrada.

O ânimo, constânia, e fortaleza Darão no Párseo seu eterno espanto, De Rui Freire magnânimo, que preza Buscar a fama com trabalho tanto.

Dos Persas, Anglos, Belgas a braveza Quebrantando estará, e humilde, enquanto Armado resplandece, o mar sujeita Este, cujo valor Marte respeita.

Obras dirão que admiro juntamente, Quanto a presença de um Botelho importe, Contra as nações rebeldes raio ardente, Do Império Oriental escudo forte.

Chore a Índia o Nuno eternamente Ver, que em seu dano ordena irada a morte, Porque de ti por vezes foi vencida, Que o teu mesmo valor te roube a vida.

De mais heróis o sábio lhe tratara, Ornato, e resplandor do mar do Oriente, Se delicada voz não atalhara, Que rompeu pelos ares tristemente.

Altera-se o guerreiro, que julgara Ser o grito de quem desditas sente; E perguntar querendo ao companheiro, Ouvem segundo grito, ouvem terceiro.

Ouvem logo mais vozes, e gemidos, Que o silêncio da noite interrompiam, E entrando ao coração pelos ouvidos, Mais se chegavam, mais, e mais feriam.

Aplica o sábio atentos os sentidos À parte donde (ao parecer) saíam: Por entre a confusão, que o mundo cobre, Terra em penhascos altos se descobre.

Ao guerreiro a mostrou, que com afeito Piedoso o rogou que ver quisesse Quem com gritos feria o excelso teito, Que a obrigação pedia lhe valesse.

Etol não menos compassivo o peito, Onde de seu furor o mar se esquece, O lenho guia, e com piedoso salto A causa buscar vão do sobressalto.

Foram-lhe as vozes lastimosas guia, E a luz, que a irmã do Sol ao mundo dava, (Que sem nuvens no Céu resplandecia) Quem triste as despedia, lhe mostrava.

Os de amor laços belos ofendia Ofendida beleza, que abrandava Com lágrimas o monte, e as Estrelas Feriam suas mágoas, e querelas.

Torna, dizia, serás mais piedoso, Não usando comigo de piedade, Executa o mandado rigoroso; Se é, que intentas guardar fidelidade,

Com razão teu senhor verás queixoso, E eu com razão te acuso de impiedade: Mas que sejas, ordena o fado duro, Cruel comigo, e a teu senhor perjuro.

Assi chorava, quando salteada Se viu de Etol, e do guerreiro forte: Vence a natural força, e acobardada Todo o mal teme, só não teme a morte.

Mas, sendo pelos dous assegurada, Pra, já oferecida a qualquer sorte: Brandamente a consolam ela entanto; De novo torna ao lastimoso pranto.

Sousa se lhe oferece, e juntamente De seu lamento a causa lhe pergunta. Amo já aborrecido, adoro ausente (Disse ela co a esperança hoje defunda,

E quantas há no inferno, penas sente Meu peito, contra mim tudo se ajunta; Que tanto a ser cruel a sorte chega, Que me dá males, e morrer me nega.

Nasci nobre em Sião, nasceu comigo Amor, que foi crescendo com a idade, Que desdo infeliz berço amei o imigo, Que idolatrando adora esta vontade;

E também tenro infante, quando amigo Me era o Céu, me rendeu a liberdade Esse, que de matar-me tem desejo, Por quem vivi, por quem morrer desejo.

A idade pueril juntos gozamos, Bem que anos juvenis depois negaram Para ver-nos, quais traças não achamos, Depois, que os pais cruéis nos apartaram:

Quais sobressaltos, e ânsias não provamos, Quando dar-me por dono outro intentaram? Até que amor, e fé puderam tanto, Que o laço nos ligou de Himeneu santo.

Entanto bem Batrão (que assi se chama Meu consorte enganoso, ou enganado) Por valer a Malaca, e ganhar fama, Passou o campo azul de naus arado.

Fiquei qual fica ausente quem bem ama, Quando (não tinha cuido o mar passado) Servo, que por fiel sempre foi tido, Tornou de parte do cruel querido.

Na carta, que o mensage acreditava, Morte à ausência chamava, e me dizia (Fingindo) que mostrasse quanto o amava, Passando o mar, se vida lhe queria:

Eu, que só vê-lo sempre desejava, (Julgai que gosto o meu então feria) Vamos (disse) lá donde a vida tenho: E incauta os pés meti em falso lenho.

Eram os nautas de região estranha; E quem em mim levassem, não sabiam; Que foi entendo cautelosa manha: Porque dizer de mim não saberiam.

Tomaram terra ao pé desta montanha, Adonde feras só bramar se ouviam; Havia em todo o mais silêncio mudo, E cobria a noturna sombra tudo.

Com engano me fez saltar em terra, Já apartados da praia, e do navio: Do peito o duro intento desencerra, Tirando a espada com furioso brio,

Dizendo: Bem que julgue indigna guerra, E truncar sinta de tua vida o fio, Perdoa Glaura; mandando é rigoroso De meu senhor, e teu marido iroso.

Eu quase morte, mísera tremendo, A causa perguntei de minha morte. Não sei, me respondeu. E o braço horrendo Contra fraco poder levanta forte;

A vida aborrecida aborrecendo, O peito descobri, e disse: Corte A dura espada o colo, passe o peito Em toda a sorte só a Batrão sujeito.

Por ele, nãopor mim, amava a vida; E pois ele a aborrece, eu a aborreço; Laço de amor a tem com ele unida, Sua é, como sua lha ofereço:

Que foi sua sentença obedecida Com gosto, lhe dirás; ver que padeço Por gosto seu, e que ele assi o ordena, Doce a morte fará, suave a pena.

E a teu sehnor, e meu afirma, quando Ante ele tornes, que de mi ofendido Nunca foi; e seu gosto idolatrando, Morta o amarei, se lá for permitido.

Assi disse, o mortal golpe aguardando, Injusto tanto, quanto obedecido, Quando o que já a ferir-me se aplicava Vi que o ferro da mão cair deixava.

E com alma piedosa, e compassiva Disse: não sofre o peito que te ofenda, Nem está em minha mão deixar-te viva; De mim tua inocência te defenda.

Não me é menos, que a ti, a sorte esquiva: Porque o dia, que meu senhor entenda Que mais piedoso fui, que verdadeiro, Será de minha vida o derradeiro.

Pois dar-te a morte o Céu o não permita; Que também te respeito por senhora: Mas ser aos dous fiel se facilita, Se a lei guardares, que te der agora:

A perpétuo desterro necessita; Mas pode o Céu dispor que inda alguma hora, Claras as cousas, vos vejais unidos, E me sejais os dous agradecidos.

Só que a vida conserves, de ti quero, Oculta, ou peregrina, por que chegue Só de tua morte a fama ao esposo fero, Enquanto a opinião errada segue.

Assi disse: mas eu, que não espero Já da vida algum bem, que o ferro empregue Em mim lhe peço, e aquela cortesia, Que estimação merece, me ofendia.

Assi pedia a morte, e assi a negava Quem dar à triste vida fim devera: Eu por a dar àquele, que o mandava, Ele indigna julgando a tenção fera:

E como já determinado estava Que eu dele a vida aceite, não espera; Só me deixa, dizendo-me ao deixar-me, Podes não te ocultar, eu desterrar-me.

Até a praia o segui; mas qual o vento Partiu voando no infiel navio: Lágrimas de meus olhos cento a cento Ao mar mandaram caudaloso rio.

Com gritos penetri o firmamento, Mil vãos queixumes dando ao vento frio Ao tempo, que chegastes onde agora Males minha alma sem remédio chora.

Os astros contemplando Etol entanto, Que a escutava, lhe disse: As luzes belas Enxuga, ilustre Glaura, que a teu pranto Fim ditoso prometem as Estrelas.

Ir conosco te importa, deixa tanto Inútil suspirar, e vãs querelas. Vem, Malaca verás em tempo breve, Que ao pensamento imita o lenho leve,

Vem senhora, lhe disse Sousa: e fia Que, quando os astros faltem, esta espada Não faltará, e te fará num dia Juntamente inculpável, e vingada.

Ela, que a Etol ouviu, que a levaria Ao áureo assento, disse, confiada Na promessa, que é o mais do nobre peito, Vos sigo, e ao valor vosso me sujeito.

Embarcam os três logo, e pela amara Lagoa o baixel voa, no horizento Entanto de Hespérion a filha cara Já descobria a rubicunda fronte.

Vendo Sousa a luz bela, disse, a clara Esposa de Titon sai lá defronte, As Estrelas do Céu desaparecem, Em mar, e terra as cousas se conhecem.

Mas dize-me; que costa vendo estamos; Que bem de ti, que alcanças tudo entendo? Quanto (Etol lhe responde) navegamos, Nota em que a grão Cambaia estamos vendo:

Ilhas mil para a parte Austral deixamos, E para donde o Sol se vem erguendo, Que assi ocupam o Netunino assento, Como as Estrelas o alto firmamento.

Atrás fica, onde faz a terra ponta, A populosa um tempo Singapura; Cresceu Malaca com seu dano, e afronta, Que também hoje está pouco segura.

A tudo toma o tempo estreita conta, E pesa nas balanças da ventura, Que, subindo, e baixando sem firmeza, De todo estado mostram a incerteza.

Pão, e Patane com Ligor se estende Na costa, que dali corre a Calisto, E os mais lugares, que Sião comprende, Até onde o Menão vês com Tétis misto:

Sai do Lago Chiamai, e a terra fende De vários Reinos, e Províncias visto, Também seus dous irmãos, por quem florescem Os Pegus, e os Bengalas se enriquecem.

Daqui perto a Mecom atrás deixamos; Tem, como o Nilo, inundações crescidas, As causas delas nunca as alcançamos, Que ainda as tem para nós Deus escondidas:

Do Campa a costa agora navegamos, Das plantas adornada, enriquecidas Do odor suave, que entre os bons se estima, Que o coração conforta, alegra, anima.

Eis da China começa aqui a grandeza; Que, com ser tanta, se cercou de muro: De ser filho do Sol seu Rei se preza, O fundamento disso não apuro:

Mas em guardar justiça, inteireza, Em ser em seu governo reto, e puro, Em catsigar o mal, e o bem premiar-se, Bem de filho do Sol pode prezar-se.

E já lá Cancij à mão esquerda fica, E Cauchinchina mais para o Ponente; E temos ao Levante a grande, e rica Ilha Licônia em ouro florescente.

Olha a grande Cantão, que já edifica Onde dar nobre hospício a vossa gente; Que já no revolver dos astros vejo Render tributo o Betampina ao tejo.

Se em dizer as grandezas me ocupara Deste opulento Império, considera Que três vezes o Sol se nos mostrara, E no ocaso outras tantas se escondera,

E não lhe dera fim. Ó gente rara, Se o senhor de bens tantos conhecera! Porém, pois o maior dos bens lhe falta, Na abundância maior de tudo é falta,

Mas virá tempo, que esta névoa escura O piedoso, e Divino Sol desfaça; E a mercê tanta grata com fé pura, E com Divino culto satisfaça;

E o Japão, onde há tanto tempo dura A cega Idolatraia, a Lei da Graça Recebe inculta terra cultivada, E co sangue de Mártires regada.

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LIVRO VII · Francisco de Sá de Meneses · Poetry Cove