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1600–1664

LIVRO VI

Francisco de Sá de Meneses

No horror da escura noite, quando mudo Calçando feltros leve, e diligente, Anda o silêncio emudecendo tudo, E senhoreia o sono brandamente:

O esprito ingrato, que no são descuido A primeira enganou cópia inocente, E perseguiu de Deus o amigo tanto, Que de paciência foi piedoso espanto;

No porto de Malaca a armada vendo, Pela gruta infernal desceu bramando, Novo furor nas almas acendendo, Os rebeldes espíritos turbando:

E não parou o fero monstro horrendo, A escuridão eterna penetrando Té lá donde Luzbel em trono ardente Suberbo pena, e impera impaciente.

Diz-lhe troando: ó da perpétua morte Rei potente, do Olimpo já ornamento, A quem foi queda o esforço, e em menos sorte Pôs o que era do Céu por nascimento:

Vós, cuja frequentada, e grande Corte Tem Reis agrilhoados cento a cento; E triunfando de altíssimos Monarcas, Igualais as tiaras co as abarcas:

Vós, cujo poder alto não se encerra Nalguns confins; que termos não consente O pensamento ousado a fazer guerra (Ah não feliz) ao mesmo Onipotente:

Vós, que fazeis o mar irar-se, e a terra Tremer; vós, que em seu dano armais a gente, O Sol toldais, e ao fero vento os ferros Rompeis, e encheis de peste o mundo, e de erros:

Ouvi a triste nova, e mais tremenda, Que chegou a este trono soberano. Em vão ao vão poder meu se encomenda A destruição do ousado Lusitano.

Força maior desde hoje é bem que emprenda Vingar afronta minha, e nosso dano: Ancorada em Malaca causa espanto A armada, que no mar persegui tanto.

Não foi descuido meu; que sabe o inferno, Que tirei destes negros aposentos À região clara esquadras; e no interno Lá da eólia a prisão rompi aos ventos,

Subi alterado o mar quase ao superno, E quase trastornei os elementos, Quando vi o Céu a meu valor oposto, E não há com Miguel pôr rosto a rosto.

Ouvindo isto Luzbel, deu um bramido Com a dor grande, horrendo, e penetrante, Aquele estrondo horrível, e temido (Do trovão turbulento semelhante)

Tudo tremeu, julgou-se por perdido Em Aqueronte o velho navegante, Porque as ondas ardentes se alteraram, E livres pela antiga barca entraram.

Bateu o Buitre as asas espantado: Que do mísero Tício se apascenta E Sísifo soltou do ombro cansado O peso, que subir em vão intenta:

Por pouco houvera Tântalo gostado Da água, que fugitiva o atormenta: Porque co abalo súbito cresceram Ondas, que os beiços quase umedeceram.

Aqueles, que a ruína do penedo Sempre tremendo, aguardam por momentos, Cuidaram ser então o último medo, Aquele ar cego enchendo de lamentos.

Calou Flégias; e donde estava quedo Teseu se levantou, feriu os ventos, O Cérbero com uivos triplicados, Que soaram nos confins mais apartados.

Em pé o Rei das trevas, mor que Atlante, Move as cabeças sete horrivelente, E vibra a cauda, com que o terço errante Arrebatou do Céu mais reluzente:

Os mui violentos braços ao Levante, Ao Austro, a Calisto estende, e ao Ponente, Com que num ponto Reinos mil revolve, E em males a estendida terra envolve.

Por grande espaço horrível, e suberbo, Fogo, e fumo exalou à dor sujeito; E apenas respeitando ao sacro Verbo, Blasfêmias mil soltou do ingrato peito.

Vivirá (disse o espírito protervo) Meu valor, que não pode ser desfeito, Por mais que me persiga vingativo Aquele, por quem vim ao fogo vivo.

Se a forte lança, que empunhei valente, Quando o primeiro intento foi rompida, Armas conservo, com que a humana gente Cada dia a meus pés veio rendida:

Não se alegre Miguel; que o Reino ardente Encerra esquadra, que se foi vencida Nos Céus, na terra alcança inda vitórias, Que eternizar farão minhas memórias.

Que tornes dela acompanhado quero A ver a luz Solar, dessa que espanto Maior no abismo causa; e certo espero Que vencerás com ele orgulho tanto.

Despedido Asmodeu suberbo, e fero, O Reino penetrou de pena, e pranto, Atravessando o tormentoso rio, Cuja corrente é fogo, e gelo frio.

Lá donde voluntário se desterra O dia, e ocupa a noite eterno assento, Jaz nas entranhas côncavas da terra O tesouro da pena, e do tormento:

De fora o prazer abre a porta, e a cerra Por dentro a contumácia a chaves cento, Onde a milhões contino os mortais descem, E as esperanças de tornar perecem.

Os confins, e arrabaldes deleitosos Neste encuberto rio se terminam; Que, porque o gosto tira aos criminosos, Da privação do gosto o denominam:

De entorno cerca os campos temerosos, Que Deus mal diz, e os Santos abominam, O rio é dois estímulos chamado, Sempre em firme onda mostra o mal passado.

Brota disforme parto sua clareza Negro licor, que em lago se entorpece, E gera incosolável à tristeza, Que assi (da morte amante) se aborrece:

Longe rebenta em rio, e com braveza Correndo, horrível som faz que o ensurdece, Dos vícios rodeia a casa, que cercada De cousas vãs tem sempre livre a entrada.

Este infame edifício, caos ardente, O lugar é do abismo o mais profundo, Onde suplício eterno mais se sente, Imunda habitação de povo imundo:

E na desordem da perdida gente, Que o apetite adorou, serviu o mundo, Ondem há nos castigos, e rigores, Que as grandes culpas tem penas maiores.

Tem cada vício cárcere deputado, E cada cárcere própria pena; e em todo O Divino castigo executado, Qual foi da vária vida errado o modo.

Mas quase todo o centro é povoado Do Venéreo rebanho envolto em lodo, Que o rio, que de fogo se derrama, Castiga em flama eterna a breve flama.

Ali, onde um tempo Minos presidia, Tímon está dos homens inimigo, Monstruoso Ateniense, que fugia O trato humano, cruel também consigo:

Bruto entre brutos só fero vivia, De trágicos, e infandos fins amigo, Em tudo vaso de ira, e de aspereza, Desprezador da humana natureza.

No mais baixo, onde mais o rigor cresce, Os vãos heresiarcas são punidos; Árrio grita, Mafoma se infurece, E os mais, nas opiniões só divididos.

O sacrílego Judas se oferece Entre eles, e os em vão arrependidos, Que com dor grande a culpa conheceram, Mas a esperança de perdão perderam.

Os Simoniacos com perpétuo grito Pertencer à sua classe ali alegavam, Vendedor do Divino, e do Infinito; E dele com grão fúria derriçavam:

Também demandam o malvado aflito, E arrastá-lo à sua gruta porfiavam, Os que de latrocínios cá viviam, E, vendendo a justiça, as leis torciam.

Junto as tropas de Caco, e Simão Mago, Em sangue envoltos vão os parricidas Dos que lhe deram ser, de irmãos estrago, E os assassinos de inocentes vidas.

Aposenta a Tifeu sulfúreo lago, Que confusões exala mal nascidas, Com os mais, que (sacrílegos) intento Tiveram de escalar o Firmamento.

E como sempre aos míseros danados A desesperação mais os irrita, E, à privação da graça condenados, A culpa não conhecem, que os incita:

Viu Asmodeu a muitos, que levados Do natural, que neles ainda habita, O mal (se já com as obras não podendo) Co a danada vontade cometendo.

Midas, e Polimnêstor se ofendiam Com número infinito deste bando; Os tesouros, que em vivo fogo ardiam, Com avarentas mãos inda ajuntando.

Sardanapalo, e Nero lá seguiam Com Tibério, e Calígula o nefando Vício, que exercitaram cá na vida, Tão vergonhosamente despendida.

Xerxes com um iroso desatino Inda lá castigar o mar mandava: E de Mezêncio o peito diamantino Ardendo em ira mais se exasperava.

E como o mal da inveja é lá tão fino, Ali a impaciente dor atormentava Um número infinito de invejosos, A quem o bem alheio faz queixosos.

Com estes estiveram, tempos antes À insaciável sede condenados, Os vis ambiciosos infestantes, Que viveram em ânsias, e cuidados:

Mas hoje, os tem cem guardas vigilantes Debaixo de cem chaves encerrados, Que mostra (ao que parece) o Rei do Escuro De um ambicioso não estar seguro.

Galieno remisso, e negligente Tem um leito de abrolhos por encosto; E, para que desperte, sempre ardente Metal fundido lhe burrifa o rosto.

Se alguma hora pudera ser contente, Matéria ali Asmodeu tinha de gosto; Porém, breve detença não sofrendo, Ao claustro principal passou correndo.

Tem a Suberba lá o primeiro assento Com grande ostentação de majestade; Mas sempre acompanhada do tormento Da pesada inchação, e gravidade.

Encerra-se a Avareza em aposento Escuro; usa consigo de impiedade, Vilmente idolatrando na riqueza, E padecendo sempre a mor pobreza.

Lasciva a Impudicícia se passeia; Favores finge, traja várias cores; A quem seguindo vão com pompa feia Afeitos tristes, multidão de dores.

A Ira, que inda contra o Céu guerreia, Está sempre ameaçando com rigores: Assiste-lhe a Discórdia, torva a vista; Que até das companheiras é malquista.

A Gula, com glotônico aparato Sentada à mesa está grossa, e impedida: Apoplexia lhe ministra o prato, E a torpe embriaguez serve a bebida.

Lá num canto se dá mísero trato A vil Inveja, magra, e carcomida, Sem gosto, nem proveito só vivia, Do Ódio visitada cada dia.

Jaz a Preguiça no portal deitada Co descuidoso, co Ócio, co a Ignorância, Muitas vezes dos outros é pisada; Não se altera porém, nem deixa a estância.

A Fraude, e Ingratidão lá tem morada, A néscia presunção, douda arrogância, Também foi a ambição lá habitadora; Mas em todo o universo impera agora.

Exalando Asmodeu furor, convoca A monstruosa esquadra para o feito, Que tanto ao iracundo inferno toca Em defensa do Reino tão sujeito.

Mas a lascívia, que ânimos provoca, Com a preguiça, e gula a mole efeito, Por então as não quis naquela empresa, Na quel queria ações de fortaleza.

Guiando a turba feia em males certas, Bramando sai da lôbrega morada, Abrindo a porta para entrar aberta, Porém para sair sempre cerrada.

Por toda a parte, que a passar acerta, A serena região fica turbada, Deserto o campo de seu fruito, e flores; Entra em Malaca, e faz danos maiores.

Tiveram toda a noite desvelado Ao pagão Rei contrários pensamentos, Ora à guerra, ora à paz determinado, Sem tomar conclusão em seus intentos:

E, já de tanto vacilar cansado, O sono confundindo os fundamentos Destes cuidados, tréguas assentaram Os sentidos, e ao sono se entregaram.

Quando, tremer fazendo o régio teito, Entra Asmodeu dos seus acompanhado: Chegando, a ira aplica, e a fraude ao peito, Do ódio, e da avareza já ocupado:

Correu veneno ao coração direito, Cheio de confusão, pena, e cuidado; E na matéria já disposta prende; A fraude o furor cobre, a ira o acende.

Opróbrio julga vil, e afronta sua, Que Albuquerque com tal desigualdade Ouse pedir que os presos restitua, E por temor servil torça a vontade.

A paixão a tomar vingança crua (seja força, ou treição) o persuade; Arde no peito o iroso pensamento, Mas prova a executar sem risco o intento.

Qual o faminto lobo, que escondido Lá donde espessa brenha é mais cerrada, Que o gado vê na rede recolhido, Dos valentes rafeiros rodeada,

Não sossega inqueito co sentido Em assaltar a tímida manada; Tal o tirano Rei só tempo espera, E fogo entanto exala a vista fera.

Dali, lá donde o Príncipe inquieto Co bélico alvoroço mal sossega, Passa o Anjo rebelde; e o mais secreto Lhe enche de ira, suberba, e paixão cega:

Turbado, furioso acorda, e indiscreto, De modo, que a si mesmo paz se nega; Não derramar já sangue Cristão sente Iroso, apaixonado, e impaciente.

Era o Príncipe moço, valoroso, De grandes forças, corpo de gigante, De emprender feitos altos desejoso, Ousado nos perigos, e constante.

Também no grau maior presuntuoso, Altivo, temerário, e arrogante, Asmodeu, que lhe alcança a natureza, Aplica-lhe os afeitos da braveza.

A todos os mais, logo que sabia Terem na abominável treição parte, A grave culpa trouxe à fantasia, Engrandecendo-a com indústria, e arte.

Eles, temendo a pena, em vindo o dia O povo alteram, e apelidam Marte: Assi que, amanhecendo, em toda a terra Abominando a paz, pregoam guerra.

Mas posto que ao desejo do tirano Sopro, e matéria a fúria ministrasse, Quis ver se urdia o Cristão dano De modo, que em ventura não ficasse.

E como em tudo mestre era de engano. Pareceu-lhe mandar quem bem notasse Debaixo de amigável fingimento, Da armada força, de Albuquerque o intento.

Era Tuão Bandão mouro valente, E sagaz, neste tempo ao Rei aceito, Para o importante caso conveniente, No fingir sábio, cauteloso o peito.

Com ele se aconselha, e largamento Da alma pratica o mais secreto efeito: Depois ao capitão egrégio o envia, Fingindo Embaixador, dobrada espia.

De alguns nobres do Reino acompanhado Partiu da terra o Mouro cauteloso, Por ir mais naquele ato autorizado, E menos a Albuquerque suspeitoso.

À capitaina sobe confiado; E quando chega ante o varão famoso, Como o bárbaro povo de Agar usa, Corpo, e cabeça inclina, os braços cruza.

Em pé o capitão co tratamento, Que sempre usava em atos semelhantes, Mandou-lhe em coxins ricos dar assento; Ele o assento ocupou, que tinha de antes.

Os capitães, de Luso alto ornamento, Raios do claro Afonso rutilantes, Ocupavam, em torno dele armados, Assentos ricamento alcatifados.

E qual pintava a cega Idolatria Seus deuses vãos no claro Olimpo, quando Júpiter grave entre eles presidia Importantes negócios decretando:

Cada qual deles Nume parecia; E o capitão preclaro, e venerando Na grave majestade, que mostrava, Nos deuses o maior representava.

Deles em guarda de uma, e outra parte, A gente militar brava, e lustrosa, Com as armas nas mãos, posta com arte, Se mostrava galante, e belicosa.

Sentados, disse o Mouro: Cristão, Marte, Prospere o Céu tua fama, que gloriosa, Teus feitos, e vitórias relatando, Universal espanto vai causando.

Lá, donde Hércules pôs limite ao mundo, Até cá, donde o Sol primeiro aquenta, Teu singular valor, já sem segundo, Da seca Inveja as mágoas acrescenta:

Netuno te ama, e no seu mar profundo De que igualmente imperes se contenta; E Maomé, que este Império senhoreia, Escutando teus feitos se recreia;

Que, como é valoroso, o valor ama, Que ódio causa nos tímidos, e inveja; E co teu Rei, que estima já por fama, Amizade perpétua ter deseja.

Riquezas liberal o Céu derrama Neste seu Reino; e folgará que veja Entrar na foz do Tejo carregada, Teu Rei, de todas elas esta armada.

Por tanto pedir podes confiado Quanto dar pode o mar, e a terra cria Dês donde tem seu berço o Sol dourado, Até lá donde vai dar tumba ao dia:

O metal, mais que todos desejado, Toda a sorte de aroma, e especiaria, O rubi, e a safira rutilante, Aljôfar grosso, rígido diamante.

Albuquerque, às palavras derramadas Do cauteloso Mouro respondendo, Assi disse: Não drogas estimadas, Aromas, ouro de teu Rei pertendo;

Nem por perlas, no fundo mar geradas, Rubis, diamantes, vim o mar rompendo, Posto que agradecido estimo honrar-me Teu Rei, e com promessas obrigar-me.

Aqueles Portugueses, que ficaram Nessa Malaca pelo grave excesso, Quando o rigor da morte alguns provaram, De um nosso capitão triste sucesso

Das praias Indianas me apartaram, Estes venho buscar; e a teu Rei peço Que mos entregue: e dele assi o espero; Despois se tratará do que mais quero.

Não disse mais: e com severo aspeito Seguro se mostrou, e confiado, Causando ao Mouro no secreto peito Grande perturbação, novo cuidado:

E despedido, pouco satisfeito De quanto ouviu, e viu, todo assombrado Tornou, e ao velho Rei conta o que vira, E a reposta, que todo o acende em ira.

Porém desta paixão, que tanto o altera, Passada a fúria do ímpeto primeiro, Político discorre, e considera No inimigo o poder, peito guerreiro.

Teme; mas tanto não, que a tenção fera Modere: e com o cauto conselheiro Traças pratica, com que o entretenham, Por que lugar de aperceber-se tenham.

Cada qual adelgaça o entendimento, E passa a noite, e o dia imaginando; E despois um, e outro pensamento Com madura prudência praticando:

Entre muitos escolhem novo intento, Com que, segunda vez o mar cortando, Ao capitão o astuto Mouro torna, A quem dizendo assi sua fraude adorna:

O grão Sultão Maomé, que ter deseja Contigo, e com teu Rei larga amizade, Porque bastante a estorvar não seja Suspeita alguma falta de verdade:

E para que também o mundo o veja (Se acaso ofende o mundo sua bondade) Inculpável contigo se desculpa; Ou dá satisfação, pois não há culpa.

Que naquele sucesso, em que enfim para, O que hoje (pode ser) teu peito irrita, Está da parte de meu Rei tão clara Sua inocência, que o Céu puro imita.

A morte do seu pérfido Bendara, Que foi do dano autor, isto acredita; Que já deves saber, que foi provado O seu delito, à morte condenado.

Aqueles Portugueses, que do infando Sucesso em terra míseros ficaram, Um tratamento nele sempre brando Com obras de piedoso pai acharam.

Deles esta verdade ouvirás quando Os vires, que por vezes confessaram; E, por que mais se estendam seus louvores, Ricos tos mandará de seus favores.

O capitão (que bem lhe descobria O veneno no peito) assi responde: Nunca me persuadi que sofreria Teu Rei cousa, que a Rei não corresponde.

De um coração nu de honra, e valia Se pode coligir que engano esconde; Não de tão grão senhor: e já informado Venho; e sei que o Bendara foi culpado.

E sendo assi que foi a culpa sua, Que em parte satisfez, perdendo a vida, Razão é que a meu Rei se restitua, No que era seu, a perda recebida.

E não tratando mais de obra tão crua, O Sultão desta armada apercebida (Pelo vir a buscar) pague o dispêndio, A guerra a causa tire, a lenha ao incêndio.

Como isto faça, e como a bautizada Gente me entregue, que em Malaca mora, Servir de mim se pode, e desta armada, De tantos inimigos vencedora:

E atrás não tornarei, por arriscada Que seja a empresa, e de esperança fora: Nem em nome de um Deus só poderoso, Há caso para mim dificultoso.

Mostras do peito valoroso dando, Assi disse o Varão forte, e prudente. Atento o Mouro o ouviu, se bem ficando Da resolução nobre descontente:

Porém como sagaz dissimulando Com falsas mostras o pesar, que sente, Se despede, o mar passa, toma terra, Imaginando na esperada guerra.

Turbado, e triste ante o tirano chega; Que, ouvindo-o, se enfiou mais perturbado; E com afeitos de ira, à razão cega, Tais razões solta do furor levado:

A suberba lugar à prudência nega A este vão arrogante, confiado Na boa fortuna, que até gora teve, Assi em meu Reino a pôr-me leis se atreve?

Mas, se me não mentir minha esperança... Aqui parou; que o mais ficou no peito, Atalhando a duvidosa confiança, Na consciência, a força do defeito.

E como o pensamento não descansa, Juntamente a temor, e ira sujeito, Entre afeitos contrários vacilava, Ora ira, ora temor o senhoreava.

Tal, como quando exalação da terra Com Celeste influência se levanta, A quem escura nuvem prende, e encerra Violenta causa de violência tanta,

Pelejam quente, e frio, e nesta guerra Aceso o fogo, que os mortais espanta, Com tanto extremo a fúria vai crescendo, Que a nuvem rasga com estrondo horrendo;

Tal daquele alterado peito a ira Ardendo rompe, os ares abrasando; Brama furioso o Rei, triste suspira, Beber o Cristão sangue desejando.

Pela vista o infernal fogo respira, Que na alma lhe acendeu do abismo o bando: E assi nele era tudo ira, e braveza, Contumácia, ambição, ódio, avareza.

Com este infernal ímpeto convoca Assi seus naturais, como estrangeiros, Aos quais quase com lágrimas provoca A ser da infausta guerra companheiros:

A vós, disse, varões insignes, toca (Pois o nome prezais de cavaleiros) Sustentar este Reino: e minha afronta Corre, amigos, também por vossa conta.

Desta cossária gente, conhecida Por seus insultos, a suberba armada Vedes em vosso porto já surgida, E para nosso dano aparelhada.

E, porque a causa disto é tão sabida, A não refiro; porém é fundada Em razão que justo é da vida prive: Quem de roubos tiranamente vive.

Se infesta o mar, se faz na terra saltos, É cousa em toda a parte assaz notória. Não valeram a Ormuz os muros altos; Também lamenta Goa a triste história;

E todos eles, de respeito faltos, Piráticos insultos têm por glória: Correm roubando o mar; e, se puderem, O mesmo, e mais usar convosco querem.

A tenção sua se vos mostra clara No desprezo, com que ouve meus recados O pirata suberbo; e bem declara Nas repostas o fim de seus cuidados:

E Bandã vos dirá como prepara Nosso dano por termos nunca usados, Com que suberbas leis dispõem, condena, E já a seu modo minha afronta ordena.

Assi dizendo do enganoso peito Suspiros despedia cento a cento: Causou em todos compassivo afeito: Aquele acreditado sentimento.

Bandã, que interessado, e por respeito, Animava do Rei o pensamento, Foi prosseguindo, o que passou contando Com Albuquerque, em parte acrescentando.

Mas ao fim não chegou; porque indignado O Príncipe Aladim, moço valente, Com o rosto de cólera banhado, Em pé se levantou fero, impaciente.

Inda, pai, e senhor (lhe disse) o herdado Valor da Jaua, e da Celátea gente Em teus vassalos vive, e em ti agora Vive também o grão Paramissora.

E eu, que de filho teu me prezo tanto, A não degenerar também me obrigo, Antes espero ser do luto, e pranto De tantos vingador, fatal castigo.

Não amedrente não, nem cause espanto, Sem lhe provar as forças, o inimigo: Nem se diga de nós que nos assombra A fama vã, do inimigo a sombra.

Princípio em armas este Estado teve, Que seus termos despois tanto estenderam: Das armas, grão senhor, usar se deve, Que tanta glória a teus passados deram.

Conheça, invicto Rei, quem se te atreve, (Como já os feros Siames conheceram) Que produz de Malaca a nobre terra Gente imiga do ócio, e que ama a guerra.

Assi falou o bárbaro arrogante, Ou a fúria infernal nele falava. Logo Hacém Rei de Pão, fero o semblante, Que agradar ao tirano desejava,

Por se mostrar valente, quanto amante Da Infanta, cujas bodas aguardava, Disse o que não cumpriu tão facilmente; Que mil vezes amor promete, e mente.

Eu, soberano Rei, a quem vós destes, Levantando-me ao Céu, título honroso De filho, o dia, que me engandecestes Com riquezas de amor, e bens de esposo:

Esta vida, e meu Reino, que fizestes Com a bela Argiana venturoso, Para que desponhais, vos ofereço: Mandai; que por meu Rei vos reconheço.

Tenha exemplar castigo o livre intento Desse pirata, só com fracos forte: Seja este, por maior atrevimento, O derradeiro com sua justa morte.

Assi disse em favor do pensamento Do triste Rei, a quem guiava a sorte, Ou Divina justiça, a merecidos Castigos dos insultos cometidos.

Neste conselho vários assistiram, Arábios, Guzarates, Malabares, Pegus, Bengalas, Jaus, que persuadiram A guerra, por paixões particulares;

Que já em passadas ocasiões sentiram (Sulcando com suas naus da Índia os mares Muitas vezes) o ferro Lusitano, Que origem seu rancor teve em seu dano.

Mas aqueles, a quem os largos anos, Valor diminuindo, o sangue esfriam, Persuadiam a paz; e os graves danos, Que a guerra traz consigo, referiam.

Os feitos engradecem Lusitanos; Entre eles um, que todos entendiam Que o dispor das Estrelas alcançava, Perda do Reino ao Rei pronosticava.

Era a sua pátria Meliapor; seguia Como os seus naturais o Cristão rito; Nomeava-se Etol; a mercancia Um tempo o teve habitador no Egito.

Insigne em Mênfis foi na Astrologia, Aprendendo também do mago Clito Versos, que os infernais ministros ligam, E contra o natural obrar obrigam.

Chegando a armada, levantou figuras; E os astros todos nelas ameaçavam Incêndios, perdas, roubos, desventuras, E daquele alto Império o fim mostravam.

Vendo estas cousas, posto que futuras, Contra os que a tenção bélica aprovavam, Com razões brandas já se tinha oposto; Mas livre então falou, severo o rosto.

Não sei (lhes disse) em que estribais seguros, Ou porque vos mostrais tão confiados. Vedes por esta gente os Rumes duros Tantas vezes fugir desbaratados;

Assoladas as forças, e altos muros De Ormuz, os Reis da Índia sujugados; E vedes quantas vidas vos custaram Os que em Malaca para mal ficaram.

Pois como vãos daquela grosa armada As forças desprezais, e do prudente Capitão o valor, e ter fundada Sua causa em razão tão evidente?

Deixai a presunção vã enganada; E não busqueis razão, que é só aparente: Que se a guerra se rompe, claro o digo, Tereis a terra, e o Céu por inimigo.

Vereis esta cidade (que hoje vemos Tão rica, tão suberba, e populosa) Entrada a ferro, e fogo; e sentiremos O domínio da gente belicosa.

Irás tu, Rei, fugindo, mil extremos De misérias sofrendo, a poderosa Majestade perdida, e Régio mando, No desterro; uns temendo, outros rogando.

Mais prosseguir quisera. porém sendo, Por Cristão conhecido, suspeitoso, Irado o cego Rei gritou dizendo: Prendam este profeta mentiroso.

Cumpriram todos com estrondo horrendo O tirano mandado rigoroso; E como os malfeitores afrontado Foi à dura prisão dali levado.

Sossegado o alvoroço, o Rei severo Por animar aos seus, inda iracundo, Pois, disse, ao Céu é clara, mostrar quero Justifacada minha causa ao mundo.

Poder Malaca alcança; e cedo espero Socorros grandes, em que também fundo Minha esperança. e, declarada a guerra, Os mais despede, e com Tuão se encerra.

Entanto que em Malaca se entendia Em juntas, e aparatos belicosos, Juntos na Cristã frota estando um dia Andrade, Lima, Jaime, e os mais famosos:

Suspendida a braveza, e valentia, Vindo a tratar de casos amorosos, Senhores (disse Jaime) em toda a parte Reina amor, e seu fogo sente Marte.

Tal é (respondeu Lima) e bem o vemos Em vós, que Marte sois a amor sujeito; Porém só que arde amor em vós sabemos, Mas não a causa do amoroso efeito.

E se a amizade estreita, que nós temos, Obriga, não havendo algum respeito, Que a ser secreto amante vos condena, A causa nos contai de vossa pena.

No meu caso (disse ele) vão, e triste, Porque lhe devo ser uma vaidade, E sou a parte, e o todo; e só consiste Em que de um vão amor sigo a impiedade.

A romper o segredo me resiste Minha reputação, que em nossa idade Será fábula ao mundo mui cuidado E serei eu por doudo reputado.

Mas, por que hoje vejais que facilita Muito a amizade, agora contar quero Aquela história na memória escrita, A que ver fim ditoso desespero.

Um sonho escutareis, que necessita A padecer agravos de amor fero; E, sendo eu contra amor duro diamante, Bastou um sonho só a fazer-me amante.

Não tendo o quarto lustro inda cumprido, Uma noite (oxalá que fora eterna) Tendo-me o brando sono já vencido, E ligada a razão, que nos governa;

A bela imagem no interior sentido Se me mostrou; e a parte mais interna Do coração, que nunca amor sentira, Sentiu do amor no mesmo instante a ira.

Pintar do belo objeito cada parte Fora trabalho em vão, fora infinito, Que atrás ficara todo engenho, e arte, E fora necessário um alto espírito:

Não é mais bela aquela, por quem Marte De ciúmes tem o Deus do fogo aflito; Nos seus formosos olhos amor mora, Nas faces belas amanhece a Aurora.

Por grande espaço estive contemplando Cos olhos d’alma a grande formosura; E dava lenha ao fogo, que abrasando Tomava d’alma já posse segura:

Ela também me estava mostras dando De amor no suave modo, e na brandura, Com que em mim punha os olhos; e mostrava Que junta palma a palma desejava.

Eu, que também nesse desejo ardia, Dizer-lhe procurava minha pena: Porém não sei que força mo impedia; Da estrela deve ser, que me condena.

Com aquela ânsia ardente, que sentia Em meu coração disse: Quem ordena Tão sem razão, que o fruto amado veja, E com Tântalo igual na pena seja?

Entre a espiga, e a mão, que muro há em meio, Se não é o rigor de minha sorte, Que à dita minha põem limite, e freio, E indícios claros dá de minha morte?

Passei a noite no sonhado enleio, Temendo, e desejando (ai ponto forte!) Aquele, em que acordei, nunca acordara, Ou nada do passado me lembrara.

Já então era alto dia, que saudoso Do meu passado bem, passei chorando, E, dando assi mais força ao amoroso Veneno, muitos outros fui passando.

Vede se haverá caso rigoroso, Que ao meu se iguale, sempre suspirando Pelo que não tem ser; nem se concede Mal grande, que em rigor à morte excede.

Como da vida ao extremo me chegasse Este mal incapaz de medicina, Porque o remédio em parte não faltasse, Que a tudo piedoso o Céu o destina;

Ordenou que por fava consultasse Um varão douto, que a entender ensina Dos planetas o certo movimento, E quais astros dão luz no Firmamento.

Este imitando aquele antigo orago, Que lá num tempo em Delfos respondia, Assi me disse: Passa o salso lago, E o berço busca donde nasce o dia,

Alcançarás entre mortal estrago Esse bem, que te priva de alegria. Não disse mais, dexando-me a esperança Tão incerta, que falta a confiança.

Mas como não ouvesse em mim sossego, Animado a seguir esta incerteza, À duvidosa fé do mar me entrego, Donde provei dos ventos a braveza.

A toda a parte, donde agora chego, Seguindo o ingrato amor, sigo a aspereza De Marte sanguinoso, e furibundo, O bem buscando, que não há no mundo.

E não desistirei (a qualquer sorte Oferecido desta empresa dura) Até que a Parca o vital fio corte, Ou veja a suspirada formosura:

E perigo não há, nem pena forte, Que eu tema já; porque dês que a ventura Me fez a padecer males sujeito, Tudo, o que há de rigor, se acha em meu peito.

Seguirei fantasias, que passaram Tanto mar, com tão poucas seguranças, E tanto do descanso me apartaram, Que já nem dele tenho as esperanças:

Fortuna enfim, e amor se conjuraram A que a vida sustente só em lembranças De aquele bem, que foi tão limitado, Que não chegou a mais que ser sonhado.

À compaixão movidos, e admirados Estavam a amorosa história uouvindo Os fortes cavaleiros, quando brados Ouviram a rebate, o ar ferindo.

Levantaram-se logo alvoroçados, E viram como vinha o mar cobrindo Uma armada de remo aparatosa, Dando mostra soberba, e belicosa.

E do Cretense labirinto escuro As voltas imitando fabricadas, Em vão as fustas no elemento puro Formam giros, e voltas intricadas.

Depois em bandos, qual no campo duro, Africanos ginetes nas travadas Escaramuças, cometendo tiram, E ora estes, ora aqueles se retiram;

Entre si com gentil ordem travaram Uma batalha (ao parecer) ferida, Na qual bem a naval arte mostraram Com exercício de anos aprendida.

Dês que de Nero, assi representaram, E de Cláudio as Naumáquias, foi seguida Dos mais a capitania para a terra, Com grande estrondo, e música de guerra.

Aquela, e outras muitas vezes deram, Sem efeito nenhum, mostra os Malaios, Que assombrar ardilosos pertenderam Os deu Luso com bélicos ensaios:

Porém foi obra, e tempo que perderam, E geraram de novo ardentes raios De ira no peito de Albuquerque forte, Que em Malaca choveram fogo, e morte.

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LIVRO VI · Francisco de Sá de Meneses · Poetry Cove