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1600–1664

LIVRO IX

Francisco de Sá de Meneses

Em militar estrondo se envolvia Malaca entanto, e prevenções de guerra, Satisfação Afonso pertendia, E a santa Fé prantar na infida terra.

Maomé (que a avareza, e tirania, E furor infernal no peito encerra) Da razão de Albuquerque forma ofensa, E trata da vingança, e da defensa.

Experto Capitão, Rei cuidadoso, Com estacada altíssima repara Quanto de Tétis banha o fluxo undoso, Terraplanada, e munições prepara.

E aquele dia quando o Sol formoso Se mostrava, seguindo a manhã clara, Sobre elefante de Ceilão se mostra Ao campo militar, que lhe dá mostra.

Servia ao bruto forte de ornamento O despojo de um tigre matizado Em bela proporção de manchas cento, Com franjas de metal mais estimado.

Maomé inda feroz, inda violento, Como na idade mais florida, armado Vinha daquele fino arnês, que usava Quando contra os Siames militava.

Divina musa, tu me inspira agora Os Príncipes, e Reis, que armas tomaram Nas apartadas Regiões da Aurora, Que em favor de Malaca se ajuntaram.

Tu, contra o esquecimento guardadora Das cousas, sabes quantos lá se acharam Varões fortes, e o número da gente; Abre-me o arquivo de tua sacra mente.

Entraram os Malaios os primeiros No bélico teatro árido espaço, Já mais, que namorados, cavaleiros, Por bizarria vagaroso o passo:

Eram os Capitães quatro guerreiros, Com os quais o valor não era escaço; A quem o uso fez mestres da guerra, Já no mar militando, já na terra.

Oito vezes seiscentos governava Indoráspis, marítimo Almirante Da milícia feroz, que o mar cortava Em corso do estrangeiro navegante:

Traz ele Baturel trez mil guiava, Esquadrão entre todos importante, Que a salitre exercita furibundo, Com que infestado tem Germânia o mundo.

Rostacão a terceira esquadra adestra De cópia mais, que as duas, numerosa; Porém gente nas armas menos destra, Que a forçosa ocasião fez belicosa.

Necessidade, que é de tudo mestra, Dos ofícios civis à perigosa Guerra os passou, e dela a disciplina Em defensa da amada pátria ensina.

Logo após estes Aguazel seguiram Fileiras mil dos que se exercitaram Na cultura do campo em que viviam, E do rumor da guerra não curavam;

Primores militares não sabiam, Mas das fundas, e dardos, de que usavam Contra as feras da serra em sua defensa, Armados vinham à Mavórcia ofensa.

Ao Príncipe Aladim segue a nobreza Malaia generosa, e bem armada; Tudo arrogante (ao parecer) despreza, Tudo mostra ameaçar sua vista irada.

Três mil o esquadrão formam, na aspereza Das armas gente toda exercitada, Inclinados aos bélicos furores, E já de vários transes vencedores.

Impenetráveis armas a este bravo Os membros robustíssimos cobriam, Forjadas por aquele grão Timavo, De quem os vãos espíritos tremiam:

E bem que armar-se tinha por agravo, A seu valor, de ornato lhe serviam, Dizendo não estar seu forte peito À força de nenhum mortal sujeito.

Após estes os feros Jaus passaram, No exercício das armas excelentes, Que por feitos heroicos alcançaram Imortal apelido de valentes:

Escudo, lança, arco, e frecha usaram Irosos, vingativos, impacientes: Tuão Colascar, e Utimuraja os guiam, Que da arte militar pouco sabiam.

Eram estes dous Jaus favorecidos D’el-Rei, e da fortuna poderosos; E pelo trato mercantil subidos A lugares, e títulos honrosos:

E aqueles, que os seguiam, escolhidos, Nesta guerra, se ousados, não ditosos: Oito mil são de ânimo ferozes, Prontos a cometer casos atrozes.

A Malano dous mil Bernéus seguiam, E após ele a Cambir, Léquios quinhentos, Que os perigos de Marte não fugiam, Inda tratando em mercantis intentos:

Dous mil Arus, que fama só queriam, Desenrolaram a bandeira aos ventos, De Táide os guia, Capitão egrégio, Que em Aru depois teve o cetro Régio.

Irmão era de el-Rei; ele o mandara Em favor do Malaio seu vizinho, Posto que a bela Infanta lhe negara, Abrindo a inimizades o caminho.

El-Rei de Pão, que bem tanto alcançara, Do ciúme sentindo o duro espinho, Nele o competidor odioso vendo O segue, e passa o campo em ira ardendo.

Seguiam-no oitocentos tiradores De ervada frecha, e mil, que lança usavam; Mas pouco achados em marciais furores, Porque tempos havia paz gozavam:

Quatro mil de Patane moradores Num esquadrão galhardos se mostravam, Seguindo o raro em forças Ariavo, Em sangue humilde si, mas forte, e bravo.

Batrão rege os nascidos nas ribeiras, Por donde do Menon as linfas correm; Mil e quinhentas são cujas fileiras, Vivem da guerra, e na guerra morrem:

Desenrolado tinham já as bandeiras Contra o Malaio Rei, que hoje socorrem, Julgando que ficavam superiores, De seus contrários sendo valedores.

A caudilha Carol mil Camboianos Soldados destros, luz do mar, e terra, Mestre por exercício, e largos anos, É das astúcias, que a milícia encerra.

Aragóis oitocentos Mindaranos Disciplinados na contínua guerra, Que fazem aos vizinhos de Manilha, Que o Sul habitam da Lucônia ilha.

Passa com mil Ligores Aranteio Galhardo, e belo, quanto em armas forte D’el-Rei de Ceilão, que era negro, e feio; Alcifira o pariu, adversa a sorte:

Como alvo, e louro o viu, teve receio De nota infame, e de infame morte; E dando o seu lugar a Infante indino, À morte entregar manda ao Real menino.

Mas Tigranes a lástima movido, Lhe salva a vida, mais que a mãe piedoso, E a Ligor o mandou ao conhecido Mirém, em guerra, e paz varão famoso:

Das graças naturais favorecido Foi crescendo, e nas armas valoroso, Ganhando estimação no Real conceito, Foi Capitão deste socorro eleito.

Novecentos pegus, que as águas puras Bebem do Martabão, passaram logo; Eraspe é o Capitão, couraças duras Vestindo, usam também de armas de fogo:

A estes seguem com largas vestiduras, Quase forçadas de um tirano rogo, Os que na foz do Ganges rico habitam, Que na marítima arte se exercitam.

De Guzarate os bárbaros cultores, Inimigos mortais do povo Luso, Guia Abdelá, e de Dio os moradores, Que seguem do Agareno o torpe abuso.

Quatro mil Coraçones, e Mogores, Que o bélico exercício tem por uso, Seguem a Solimão soberbo, e forte, Que, desprezando o Céu, não teme a morte.

Já Solimão se tinha em Goa achado, Quando Albuquerque a entrara a vez primeira, Donde heroico valor tinha mostrado Em defensa da Canarim bandeira.

Depois, do natural furor levado, Seguindo o ardor da inclinação guerreira (que aos tais a cousas belicosas chama) A Malaca o levou da guerra a fama.

Era do Turco fero, o arnês soberbo A pele de um monstruoso Crocodilo, De que o despiu, sendo em conflito acerbo Dele assaltado junto ao pátrio Nilo:

O dano esteve do animal protervo Das simuladas lágrimas no estilo; E donde qualquer outro a morte achara, Armas, e glória seu valor ganhara.

Passada a militar mostra, o severo Rei, ao sagaz Bandão, que da privança Gozava o bafo, chama; e disse: Quero De meu Reino em ti pôr hoje a esperança;

De teu valor, e boa fortuna espero Vitória; e razão me dá confiança: Toma o bastão, e nele o cetro entrego: Manda: faze na fama ilustre emprego.

Gastou o tempo as forças: mas, se a idade, Em que aos Siames resiste, gozara, Tal te estimo, que com igual vontade, Sujeito a teu governo militara.

O Pagão ante a Régia Majestade, Que a tão alto lugar o levantara, Com grata adoração, posto que indina, Por três vezes cabeça, e corpo inclina.

Com teu grão nome, que será infinito, Eternizas, senhor, minha memória. Toma da invicta mão bastão invito, Felice agouro da ínclita vitória;

Que tua virtude no maior conflito Me infundirá valor, causará gloria: E nesta alta fortuna só me pesa Que é de um pirata vil pequena empresa.

Oxalá, Rei potente, me mandaras Despregar teus pendões lá donde o Tejo Páreas paga a Netuno de águas claras, Por que de ouro as pagasse a teu desejo:

Ou, como Euristeu a Alcides, me empregaras; Que inda por ti arriscar-me a mais desejo: Mas será ensaio para quando mandes Acabar em teu nome feitos grandes.

Assi dizendo, o medo, que encobria, Disfarça com esforço o cauto Mouro, Que ao seguro semblante desmentia O coração pressago a triste agouro.

Já neste ponto no Zenit ardia Ferindo a terra o Sol com frecha de ouro: Feroz Bandão pelo arenoso campo Co cetro militar recolhe o campo.

Mas primeiro com vivas, e alarido Da gente Marcial (que idolatrava Na vontade do Rei) foi recebido, A cujo aplauso grato se mostrava.

O campo na cidade recolhido, Albuquerque no mar se preparava Com fé, com esperança intento alto Para dar à cidade um forte assalto.

Desda alta popa o Capitão de Cristo Passar a mostra belicosa vira Do idólatra, e Agareno povo misto, Que à defensa da pátria terra aspira:

Porém ter o soberbo campo visto, Em lugar do temor, lhe aumenta ira, E aos poucos seus, que mais que muito valem, Lembra que a cópia com valor igualem.

Bem como ousado da guerreira popa Da nau primeira os seus animaria Jasão cabeça do melhor de Europa, Que o fatal velo conquistar queria;

O forte Afonso, que da imiga tropa Confiado no Céu pouco temia, Mostrando-lhe a riquíssima cidade, Aos seu falando, anima, e persuade.

Cavaleiros de Cristo, que, de Tejo A santa Fé levando além do Ganges, Terror sois, antes do Marcial ensejo Dessas, que vistes, bárbaras falanges;

A cuja glória pendurados vejo Malaios crises, Árabes alfanges Pela atônita fama na tomada Desta do Sol península dourada:

É chegado, amigos companheiros, O tempo, que já tanto desejastes, Por quem deixando a pátria, aventureiros, Tantos climas, por tanto mar passastes:

E posto que como ínclitos guerreiros Empresas tão difíceis acabastes, Para o crédito nosso esta é a forçosa, E própria vossa, por dificultosa.

Usados a escalar sois altos muros, E co as armas abrir largas estradas Por Malabares, Persas, Rumes duros, Nações sempre a vencer acostumadas:

E sendo assi, mal estarão seguros Detrás de mal tecidas estacadas Os vãos Malaios, nem seus valedores, De vossos braços, sempre vencedores.

Dizendo assi, com repentina grita A gente se levanta alvoroçada, Vendo um navio, que no curso imita A frecha do arco Persa disparada.

Chega o lenho fatal com infinita Admiração da gente batizada; E nele aqueles desejados tanto, Que gozo causam, que se iguala ao espanto.

Subiram, e o convés atravessaram, Os parabéns, e aplauso recebendo; E, donde o Capitão estava, entraram, Por então o conselho interrompendo;

Recíprocos abraços começaram, A festejada vinda engrandecendo: Afonso a recebê-los se levanta, E Garcia a saudá-los se adianta.

O Céu, por quem trabalhas, teu desejo Aceite (disse) e ao sucesso o iguale; E co a dita de César, que em ti vejo, Tudo venças, e a fama de ti fale.

Triunfo te aparelhe o pátrio tejo, E para ornato teu ar puro exale Perlas de nova Aurora em rico orvalho Em gratificação de teu trabalho.

Passei na Ásia por acompanhar-te, A teu nome, e valor afeiçoado: Quis fortuna estorvar-me, e àquela parte Mais remota do mundo fui levado:

Vem com o mesmo intento de buscar-te De Povolide um Melo sinalado, E deixou Lemos o paterno ninho, O forte Vilalobos, e Coutinho.

O Capitão os braços oferece Aos guerreiros; e a Etol consigo estreita, E com dignos abraços lhe agradece Trazer em sua ajuda a cópia eleita.

Etol lhe disse: o Céu, que favorece A justa empresa, teu desejo aceita; E se o passado modo inda me culpa, Ache minha tenção em ti desculpa.

Vi teu prudente zelo impedimento A necessária obra, o segurar-te Impossível; e quis meu pensamento, Por te servir melhor, descontentar-te:

Também, senhor, de Sousa o herico intento Escusa a culpa, que houve de sua parte: E se merece a culpa castigada, Merece a obra ser gratificada.

Assi disse. e Albuquerque alegre, e grave A todos louva, a todos engrandece, Sabendo que o louvor sempre é suave A quem por obras claras o merece:

E seguiu: Por que o sangue, e fogo lave A culpa abominável, que escurece Este Reino, a que o Sol dá luz primeiro; Mas em vão, pois lhe falta o verdadeiro.

E pois razão anima, o Céu dá ajuda, A Cidade amanhã cometer quero: Dia é do Santo, que guerreiro ajuda, A pátria Espanha, e seu favor espero.

Cada qual ao romper da Aurora acuda Apercebido para o assalto fero, E sinal vos dará a tuba sonora, Despertando co ronco som a Aurora.

Lima, Coutinho, Jaime, e Paiva assaltem Esta parte com fera arremetida, E de seu grão valor o ouro esmalte, Caminho abrindo aos mais pera a subida.

Eu (por que ajudas aos imigos faltem Da que tem fundo o rio dividida) Procurarei ganhar com duro assalto A ponte, aonde no fim faremos alto.

E vós, aventureiros valorosos, Que o Céu propício manda em nossa ajuda, Pois estimais os riscos perigosos, Cada qual ao maior perigo acuda.

Acudireis aos casos duvidosos: E porque neles o sucesso muda Às vezes o conselho, isto tratamos; O Céu lá nos ensine o que façamos.

Dizendo assi, de Glaura, que segura Não esperava bem, nem mal temia, Reparou na afligida formosura, Que eclipsar a tristeza não podia.

O que notando Etol, a alta ventura, Raro amor, firme fé lhe referia, E quanto na aflição, que a atormentava, De sua ajuda, e favor necessitava.

Compassivo Albuquerque, e admirado De tanta fé, tão mal correspondida, Sua palavra empenhou, que em todo estado Dele seria ajudada, defendida:

E deu ordem que fosse com cuidado Devido respeitada, e recolhida; E quantos a amorosa história ouviram, Dor, e comiseração na alma sentiram.

Assi deu fim o Capitão prudente Ao discurso, que todos aprovaram; E, por aperceber armas, e gente, Alvoroçados às suas naus tornaram.

Entretanto nas ondas do Ocidente De Febo os claros rais se encerraram; A mais da gente ao sono olhos entrega, O Capitão o sono aos olhos nega.

Manda ante si trazer finas espadas, Seguros capacetes, fortes peitos, Firmes escudos, armas, que ganhadas Tinha na guerra com heroicos feitos:

E aos cavaleiros, como destinadas Já pelo Céu, a fim de altos efeitos, As repartiu alegre, encarecendo O gosto de lhas dar, assi dizendo:

Destas armas, que foram já defensa De mortais inimigos da Fé nossa, Cubertos vingareis a injusta ofensa; Elas asas serão da fama vossa:

Que, dando ao dano justa recompensa, Fio que as ilustreis quanto ser possa, E que em Malaca com felice sorte Fareis ilustre engano ao tempo, e à morte.

Queira (disse Garcia) o Céu, que seja Par o efeito ao deseja, que em nós arde, Para que o mundo vencedor te veja Do fero imigo arrependido tarde.

Voava o tempo entanto, que deseja Gastar as cousas, e fugia cobarde Do claro dia a noite, e já as Estrelas Buscavam de Nereu as filhas belas.

Toca a sonora tuba despertando A gente militar, que a armada encerra. Eis se vem os batéis logo ajuntando, Arma toca Malaca pronta a guerra.

Devoto o Capitão pio invocando A Rainha do Céu, glória da terra, E de Espanha o patrão, manda animoso Com os freixos rasgar o pego undoso.

Eis que um súbito grito se levanta O marco abalo, e grave peso geme, E nas vizinhas praias se quebranta, A terra, ao parecer, co estrondo treme.

Lima co a sua esquadra se adianta, Que, de glória ambicioso, nada teme: Por cima dos reparos aparacem, E à defensa os Malaios se oferecem.

O velho Rei, que mal suster podia O grave peso da comprida idade, De armas cuberto, aqui, e ali acodia, E com sua vista anima, e persuade.

Chega-se a tiro enfim da artilharia, Cuja horríssona fera tempestade Começou destruindo, e arruinando, Grossa nuvem de fumo o Sol turbando.

Disparam de mais perto os mosqueteiros; Mil, e mil voam parcas rigorosas; A luz do Sol encobrem os arqueiros Com multidão de frechas venenosas:

Seus almazéns despedem os besteiros; Já se ouvem ais, e vozes lastimosas, Em uma, e outra parte sangue corre Por donde a morte pálida discorre.

Por entre frechas, balas, fogo ardente, Instrumentos belígeros de morte, Em terra salta a Lusitana gente, E em subir as tranqueiras prova a sorte.

Não foi a pagã turba negligente Em resistir: ali Indoráspis forte Rostacão, e aranteu se antepuseram, E provas altas de valor fizeram.

Dobram-se os gritos, e espantoso estrondo, Chegando-se a ferir já de mais perto, Uns pela pátria amada a vida pondo, Outros por Cristo, glória, e prêmio certo.

Subia Alberto o grosso escudo opondo A golpes mil, eis que de braço incerto Chegou vibrando rigoroso dardo, Que abriu no peito o coração galhardo.

Deixara os férteis campos do Mondego, Filho único dos pais, que procuraram Da guerra dissuadi-lo, que o sossego Nega, que ter com ele desejaram:

Mas apartá-lo do brioso emprego As lágrimas piedosas não bastaram; Cai ele enfim aos pés do invicto Lima, A ditosa alma dando a causa prima.

Veloso, que era deste companheiro, Em competência honrosa igual subia, Trabalhando por ser ali o primeiro No louvor não sofrendo companhia:

Mas bala ardente ao forte aventureiro Num momento entregou à morte fria, Da altiva fronte ao cérebro passando, Os honrados intentos atalhando.

Cai Guilherme a par deste, atravessado Da lança de Indoráspis, desde o peito Esquerdo à destra espádua; mas vingado, Já passou de entre a vida, e morre o estreito;

Que Lima, destas mortes magoado, Contra a tranqueira corre ao brabo efeito: Indoráspis se opôs, que mal cuidava Que do seu fatal fio o fim chegava.

Qual solto pardo, que com salto horrendo Formidável se lança, vendo a preia, As contrapostas armas não temendo, Lima saltou desda molhada areia.

Pôs-lhe a lança Indoráspis, pertendendo Rebatê-lo: mas, como em rocha alheia De mudança, a quebrou; e ardendo em ira, O guerreiro a vencer entanto aspira.

Co fero mouro cerra, e a limpa espada No peito lhe escondeu: ela homicida Da prisão desatando a alma indignada, Co sangue lha arrancou pela ferida.

Sobe após Lima a gente batizada, E fora dos Pagãos certa a fugida: Morto seu Capitão, se não chegara Rostação, que os reprende, anima, ampara.

Donde tímidos is? com que esperança Tão livre entrada dais ao fero imigo? Pois quem sois esqueceis, tende lembrança Que dais, se este fogis, em mor perigo:

Tomai do morto Capitão vingança, E à defensa tornai do Reino antigo, Que já vossos passados conquistaram, E à custa de seu sangue sustentaram.

Assi dizendo o bárbaro arrogante Contra o bom Lima remeteu furioso. Mas qual no mês de Maio touro amante Contra o competidor corre cioso,

Tal Lima corre intrépido, e constante Ao duro encontro do inimigo iroso: A força, por vencer, um, e outro apura, E executar a cólera procura.

No mesmo tempo tinham já subido Andrade, Paiva, Sousa, e procurava Jaime subir, mas era resistido De Aranteu, que em valor se lhe igualava.

Tinha o forte Pagão melhor partido, Porque do sítio forte se ajudava; Porém valor não val, nem sítio forte Contra poderes da inimiga sorte.

Para ferir a destra irada erguia, Quando, fendendo seta aguda o vento, Lha prega na haste, que até ali regia, Já não defensa, mas impedimento:

Ele mais não podendo se desvia, Sendo muito maior o sentimento De se apartar forçado da defensa, Que a grave dôr da recebida ofensa.

Retirado Aranteu, sobe Teixeira Com morte de Emirem, e Belugano. Não sucede assi a Mendo, da traqueira Precipitado a mãos de Cariolano.

Alli em seu sangue envolto a derradeira Hora passou da vida Feliciano; Crava a Bernardo um pé na solta areia Um dardo, que seu leve curso enfreia.

Teixeira, que se vê na tranqueira alta Com morte dos valentes defensores, Entre o Agareno bando feroz salta, Seguindo amor nos bélicos rigores,

Já co sangue inimigo a terra esmalta Aspirando a façanhas superiores: Quis resistir-lhe Eurilo, e brevemente Seu engano conhece, e o dano sento.

Entanto os fortes Sousa, Paiva, Andrade Vão ferindo em honrada competência Nos Jaus, que com igual ferocidade Procuravam fazer-lhes resistência:

Porém Tuão Colascar, a quem já a idade Negava ardor, e forças, da violência Marcial o perigo, em que se vira, Temendo pouco a pouco se retira.

Os três fortes guerreiros conhecendo A fraqueza, com ímpeto apertaram: E sofrer fúria tanta não podendo Os feros Jaus, as costas lhes mostraram.

Levantam os de Luso um grito horrendo Seguindo os que invencíveis reputaram, Com rigor uns ferindo, outros matando, Nova cor em seu sangue ao ferro dando.

Já também Rostacão se retirava Dos golpes duros do valente Lima, Que, vendo os seus fugir, só procurava Salvar a vida, que até o fim se estima:

Porém o forte imigo o não largava, Imitando o falcão ligeiro em cima Da garça, que, esgrimindo o bico forte, Defende a vida, ou dilata a morte.

Ganhada esta tranqueira com terrível Assalto, provas altas arriscadas, Deixando em tudo atrás tanto o possível, Que causam hoje espanto imaginadas,

Segue a gente, que o Céu fez invencível, As bárbaras catervas derramadas Pelas ruas, que em sangue vão tingindo, Ora o rosto mostrando, ora fugindo.

Os ares rompem gritos mil em tanto Que a Cidade Albuquerque entrar procura Pela outra parte, donde horror, e espanto, De fumo, e pó envolve nuvem escura.

Cresce a braveza nos de fora tanto, Quanto mais era a resistência dura. Tuão Bandão anima os defensores, O valoroso Afonso os ofensores.

Em grossa chuva frechas, e ruínas De cima das tranqueiras altas descem, Contra as quais, traz mil provas peregrinas, Seguro teito cos escudos tecem:

Logo arrimando escadas, obram dignas Façanhas, que incríveis se oferecem; Cada qual o primeiro ser pertende, E subir, desprezando a morte, emprende.

Do escudo bem coberto Adári anima Os destros, e atrevidos Malabares, Que, enquanto cada Luso a escada arrima, Turbam, tirando ao inimigo, os ares:

A multidão de frechas aos de cima Obrar não deixa, dando aos singulares Guerreiros mais lugar para a subida Muito mais perigosa, que temida.

Porém Carol, Ragois com Ariavo Fazem com feros golpes respeitar-se, E sobre todos o suberbo, e bravo Solimão procurava aventajara-se.

Garcia, que da fama ao eterno gavo Aspira, vendo o tempo de mostrar-se, À traqueira, que lhe era impedimento, Generoso se chega, se violento.

As mãos robustas deita às estacadas, E traz grão parte delas em ruína: Teme o Malaio, vendo-as derribadas, E vencedor o Luso se imagina.

Entanto o Sá famoso, desprezadas, As inimigas armas, determina, Rompendo pelos bárbaros guerreiros, Abrir largo caminho aos companheiros.

Mas qual nas oficinas de Vulcano A safra cercam os ministros duros, Quando para o Tonante soberano Os raios formam de elementos puros,

Tal eles, por chegar ao extremo dano, Aquele, de que estão tão mal seguros, Bravos, quando iracundos o cercaram, E nele golpes mil reciprocaram.

Ele, qual já nos Calidônios montes Das inimigas armas não curava, O monstruoso javali, que as fontes, Caminhos, campos, vales infestava,

Dos inimigos as altivas frontes, E contrapostas armas desprezava, Já destes se repara, àqueles tira Segundo o move o caso, ou leva a ira.

Tirou-lhe com a massa, semelhante À do tebano, ariavo um golpe feio, Que bem a derribar fora bastante O robusto do Céu seguro esteio:

Porém o cavaleiro vigilante Se desvia; e ficou Carol no meio, Que ali lhe tinha limitado a sorte O fim da vida em desastrada morte.

Do golpe horrendo em partes mil desfeito Faz com sangue o Pagão a terra impura, Ao tempo que Garcia abriu no peito Do suberbo Ariavo fonte escura:

Passado o golpe, que trocado o efeito Teve do intento, já que a massa dura Tornava a levantar, a aguda espada Saída abriu à vida, à morte entrada.

Cai o feroz, pela cruel ferida Sanguinolento rio derramando: E o fero Solimão, a espada erguida, Sobre Garcia vai, fogo brotando;

Baixava o ferro agudo, que homicida Fora do forte incauto, se, imitando O destro Melo a clito, não chegara, Que no seguro escudo lho repara.

Subira após Garcia o forte melo; E assi reparar pôde o claro amigo, Travando ferocíssimo duelo Com o suberbo quanto forte imigo:

Cuidou o Sarraceno desfazê-lo, Estreitando-o nos braços; mas antigo Carvalho não está, nem sobro duro, Como o guerreiro se mostrou seguro.

Um breve espaço forcejando andaram As forças apurando, por render-se, Até que mais irosos se largaram, Por tornar co as espadas a ofender-se:

Porém outros sucessos estorvaram O tornar por então a combater-se, Entrando com grão fúria os que subiam, A quem mal os Malaios resistiam.

Corre Melo nos bárbaros ferindo; Por onde passa mata, trunca, fende; E o bravo Solimão, só resistindo À Cristã multidão deter pertende:

Decepa um braço a Artur, e dividindo A cabeça a Lionel, em terra o estende; Mas, carregando tantos, foi forçoso Seguir os seus, porém mais vagaroso.

Tal dos monteiros duros acossado O Leão generoso se retira, Porque a vista da morte ao esforçado, Posto que dê temor, valor não tira:

Entanto com Detaide embaraçado O forte Afonso esteve, e dali inspira Valor nos seus co a vista, e claros feitos, E temor frio nos Malaios peitos.

Com o Léquio Cambir Leão se afronta, E Castelbranco co Bornéu Malano, Que então cerrava a irrevocável conta Dos breves dias do vital engano:

Por junto ao paladar a aguda ponta Entra, e o passo lhe abre ao eterno dano; Sai rosicler servente em grossa veia, E cai de bruços na sanguínea areia.

Este ao partir-se da querida esposa O tornar vitorioso lhe assegura; Porém ela afligida, e lagrimosa Não fia de esperanças na ventura:

Parte ele enfim deixando-a receosa; E quanto o ama mais, menos segura; Que o coração pressago adivinhava Do amado esposo a perda, que chorava.

No mesmo ponto entrou pela outra parte Da ponte Baturel com nova gente, E Bandão com um raro esforço, e arte Voltava, junto um esquadrão valente:

Vê Afonso o perigo, e manda parte Da Lusitana esquadra em continente Com Pereira, e Abreu, por que deitassem Da ponte a Baturel, e a assegurassem.

Eles, de assinalar-se desejosos, Como dous feros raios fulminantes Abrem pelos inimigos, que furiosos Vitória se prometem de arrogantes.

Eraspe cos Pegus pouco ditosos Socorre a Baturel; mas semelhantes Foram ali os dous na mortal sorte, Bem que em várias feridas vária a morte.

A boca Baturel gritando abria, Culpando, e reprendendo seus soldados, Quando a lança, que em morte se envolvia De Abreu, por ela entrou, truncando os brados.

Cai o feroz, rendido à morte fria; Os olhos retorcendo inda indignados, Dar-lhe vingança Eraspe bem quisera, Mas de pereira o atalha a espada fera.

Desce a talhante espada, e dividida Deixa a fronte soberba, e chega aos dentes; Cai o bárbaro forte já sem vida, E a rebelde alma nas regiões ardentes.

Mortos os Capitães, logo perdida A braveza dos mais pouco valentes, Salvar somente as vidas procuravam, E ao rio por mais pressa alguns saltavam.

Cos Guzarates Abdelá socorre, E aos que fugindo vão, o medo enfreia, Aos golpes inimigos quase torre Excelsa, e firme, de mudança alheia:

O valente Noutel, por ela morre, E entrega a Antônio, e Lopo a morte feia, Quando um bote de lança o faz terceiro De Anibal, e Sertório companheiro.

Fica adonde a luz perde dor intensa, Os sentidos confusos, e turbados; Retiram-no os seus, e em sua defensa Se mostram ofensores denodados:

Os de Luso, que já nem dão licença Para fugir, os vão seguindo ousados Pelas ruas, que Marte pôs de sorte, Que já as inunda o sangue, e ocupa a morte.

Coutinho neste tempo se afrontava Com Batrão, e na briga perigosa Mal ferido o Pagão mais se indignava, E mais fúria ministra a destra irosa:

Porém Bandão, que a pelejar tornava, Remeteu por seu mal; que a rigorosa Espada, que a Batrão feria o peito, Mais rigorosa nele fez o efeito.

Passa o fio sutil pela garganta, E do alento vital corta o caminho, Cai ele enfim, qual decepada planta, E deixa a alma suberba o antigo ninho.

Clamor bárbaro logo se levanta Chovendo tiros mil sobre Coutinho; E muitos, a quem fúria tanta alcança, Foram do morte General vingança.

Mas Botelho, Alpoém, Silva, Caldeira, Pessoa, Castelbranco rebateram As Malaias fileiras de maneira, Que em desordem cobarde se puseram:

Entanto Solimão a ira primeira Invencível sustenta: não puderam Os encontros fazer de tanto imigo, Que não se oponha intrépido ao perigo.

Não se repara o bárbaro, só trata De ferir a infinitos dando morte; Ao valente Gastão de um golpe mata, Que ousado quis provar com ele a sorte:

A Macedo após este a alma desata, Passando-lhe de ponta um peito forte, Que em Milão sábio artífice forjara, E em planetárias horas temperara.

Com fúria tanta a espada atroz rodeia, Que se faz respeitar dos que o seguiam, E já a vergonha aos seus o medo enfreia, Tornando a socorrê-lo os que fugiam:

Gritando ele, os anima, e se recreia Nos de Luso matando, que perdiam O campo. Oh quantas vidas acabara, Se o Céu ali o Garcia não guiara!

Vinha o famoso Sá, de sangue alheio O valor, como as armas, matizando, Aos que irado seguia horrendo, e feio, A quem o segue heroico exemplo dando:

Os inimigos com igual receio Dele fugiam, qual costuma o bando Das leves pombas, da águia caudalosa, Que ligeira as persegue, e rigorosa.

Conhece o Turco fero o varão forte; Todos por ele deixa, e só deseja Nele vingar do grande Ariavo a morte, E suberbo o chamou assi à peleja:

Já me não poderá tirar a sorte Que o mundo a minhas mãos morrer te veja: Espera, ou foge; que, de qualquer arte, De mim não poderás hoje escapar-te.

Às vãs palavras, que levava o vento, Não responde o guerreiro valoroso, Mas do escudo coberto ao mais violento Encontro corre intrépido, espantoso:

Com duros golpes o furioso intento Cada qual deles executa iroso, Ora usam de arte, ora os leva a fúria, Tratando sempre de fazer-se injúria.

Um altabaixo horrendo o Pagão tira, Que o Cristão cavaleiro lhe rebate, E de ponta responde, pondo a mira Lá donde o coração pulsando bate:

Deu-lhe o Pagão o escudo; e cego de ira, Cuidando rematar o cruel combate, Outra ponta lhe tira, mas errada Passou por entre o corpo, e o braço a espada.

Chegaram a ajuntar peito com peito: Já do furioso encontro a glória fiam Aos fortes braços, já do laço estreito A ferir-se de novo se desviam:

Mas a tanto furor tirou o efeito Belicosa ambição dos que corriam Por ofender também ao Pagão forte, Parte querendo em vão na grande morte.

Garcia o não consente, e iroso grita Que só com ele o deixem, e o ajudara (Tanto ver tantos contra um, o irrita) Se imputar-se-lhe a culpa não cuidara:

Mas no rigor, que o imigo necessita, Se golpe tira algum, de outro o repara, Nem o Pagão, que o cortês ato entende, Já lhe tira, nem dele se defende.

Viegas, Araújo, e os companheiros, Dos passados agravos incitados, Em tudo queriam ser sempre os primeiros Vingativos, ferozes, e indignados.

Reforçado esquadrão de Jaus guerreiros, (Até então a vencer acostumados) Ao encontro lhe saiu; porém já a sorte Uns guiava à vitória, outros à morte.

Feroz o encontro foi, dura a porfia, E estar mostrava o caso duvidoso Até que dos de Luso a alta valia Pelo esquadrão rompeu dos Jaus famosos:

Não que perdesse o Jau a valentia Um ponto do antigo ser brioso, Que das lanças passadas caminhavam, E morrendo vingar-se procuravam.

No mesmo tempo Lima, que invencível Os imigos levava de corrida, Achou diante o Príncipe terrível Com a gente mais brava, e mais luzida.

Salva-se Rostacão contra o possível, Que já nas mãos da morte tinha a vida: A batalha mais fera se renova, Fazendo cada qual heroica prova.

El-Rei de Pão, com quem não foi avaro Amor, feriu também na Cristã gente A tempo, que chegou o em valor raro Geinal, de não vir antes descontente:

Não lhe sofreu o espírito preclaro Estar da guerra vendo a guerra ausente, Sentido de que Afonso se escusasse, E segui-lo na glória não deixasse.

Ele, o competidor odioso vendo, O sangue se lhe altera, a fúria cresce, Move contra ele enfim bravo, e tremendo Qual o raio, que da alta nuvem desce:

Virando o Rei àquele estrondo horrendo, Repentino temor em si conhece; Mas logo, de si mesmo envergonhado, O inimigo feroz espera ousado.

A ferir-se começam com braveza; Mas faz-se conhecer em breve espaço Do Geinal o valor, força, e destreza: E el-Rei de Pão se viu no extremo passo.

Acudiram-lhe os seus nesta estreiteza, Tendo já feito atrás um, e outro passo: Chamando-o vai Geinal, e o vai seguindo, Pelos imigos larga estrada abrindo.

Não fujas, disse; que o fugir da morte É vão, se ao fatal límite chegaste; Se, para me tirar a vida, forte Pois o melhor da vida me tiraste:

Não desmereças por cobarde a sorte Ditosa, que eu perdi, e tu alcançaste: Mas foge; que, pois tens ditosa estrela, Conserva a vida para gozar dela.

Tais palavras Geinal ao vento dava, Porque o Rei assombrado as não ouvia; E de se pôr em salvo só tratava, Vencido já o valor da covardia.

Aladim, que de nada se assombrava, Bravo os seus animava, e reprendia; Corta um braço a Rodrigo; e a Matias Antecipou o fim dos vitais dias.

Porém Dom João de Sousa, que matança Igual fazendo vinha nos Malaios, Os olhos nele pondo, se abalança, E tal, se acaso dous ardentes raios,

Dos que costumam dar ao Céu vingança, Nos ares se encostassem, que desmaios Mortais aos mortais causam, tal irosos Violentes se encontram, e espantosos.

Pesados golpes com furor se tiram, E com igual destreza se reparam; Nunca tais dous de Cadmo os campos viram, Nem os donde Ásia, e Europa trabalharam:

Logo de ambas as partes acudiram, E do modo uns, e outros se ajuntaram, Que lhes foi necessário dividir-se, E atrás tornaram por poder ferir-se.

Porém não torna atrás o heroico Luso, Antes persegue mais o imigo bando No já sem ordem esquadrão confuso, Um número infinito derribando:

Tal, como os lavradores tem por uso, A seu tempo as searas ir cegando, Ou no monte cortar a espessa brenha, Por dar despois ao fogo a seca lenha;

Assi derribam na Agarena turba, Que a vil fugida por remédio escolhe. Brama iroso Aladim, e a vista turba A cólera, e o furor, que a alma recolhe:

Geme, grita, ameaça, e não perturba Do medo a sombra o coração, nem tolhe A fortuna, que irada se lhe mostra, Dar de heroico valor heroica mostra.

Detrás de todos por escudo fica; Ora ofender procura, ora repara; Não foge, não, que a seu valor implica; Mas cos seus se retira, a quem ampara:

Porém em vão aqui, e ali se aplica; E sem dúvida a vida ali deixara, Se então Detaide, e el-Rei não socorreram, Que dos de Luso a fúria detiveram.

Sobre um grande elefante guarnecido De rico arreio de ouro, e seda, obrado Lá na rica Ceilão, tinha subido O velho Rei de forte arnês armado.

A pé Detaide o segue, do luzido Esquadrão dos Darus acompanhado: Dous elefantes diante deles vinham, Que dous castelos sobre si sustinham.

Três, a quem chamam Naires domadores, As adestradas feras lhe regiam; E das máquinas destros tiradores Dardos, e ervadas frechas despediam.

Horrendos gritos, bélicos clamores Rompendo os ares até o Céu subiam: Chegam pois a ferir, mas brevemente Vitória conseguiu a Cristã gente.

Enquanto faz Geinal a Aladim rosto, Paiva, Miranda, Lima, Jaime, Andrade Cometem com heroico pressuposto Dos fortes brutos a ferocidade.

Foi o ferro nos dous primeiros posto, Que com a natural bravosidade, E das feridas grande sentimento, Bramidos deram ao turbado vento.

Os Naires, a que um tempo obedeceram, Nas trombas retorcidas abraçaram; E logo co furor, que conceberam, Meios mortes de si longe os deitaram:

Com isto contra os seus a volta deram, Matam muitos, e os mais desordenaram Derribando a Detaide mal ferido, Que quase falto esteve de sentido.

Chegava co esquadrão Gazel campestre Naquele instante, e claras mostras dava, Guiando a agrária turba, que era mestre Do cargo militar, que exercitava:

Mas dos brutos a multidão pedestre, Quando chuvas de seixos derramava Sobre o esquadrão de Leso, atropelando A Gazel, tudo foram destroçando.

Seguem os Lusitanos feridores Os rotos esquadrões desordenados, E Detaide, e Gazel ante os melhores, Detê-los intentavam denodados;

Mas davam-lhe tal pressa os vencedores, Que não tinha lugar mostrar-se ousados, Até que resistir mais não puderam, E co tropel confuso as costas deram.

El-Rei por se guardar do ímpeto horrendo Dos animais, que bravos volta davam, Entrou por outra rua, não sabendo Que Lemos, e Coutinho lha ocupavam:

Serrão, e Vilalobos, pertendendo Ajuntar-se com Lima, então chegavam; Ao valente animal cada um se lança, Pondo-lhe Lemos o primero a lança.

Mas como cousas grandes já por sorte, Ou por costume, mais, que o mundo, antigo Custam muito (se não lhe custa a morte, Como a Eleazar) vê-se em mortal perigo

Uma tirada frecha do arco forte Do Rei, posto que velho, duro imigo, Ervado o ferro, pelas armas se entra, E no peito feroz se reconcentra.

Assalta-o logo um sentimento intenso, Que mais, e mais cada momento cresce; E seu valor não chega a estar suspenso, A força pouco, e pouco desfalece:

E chegara a pagar o comum censo, Que o tempo cobra, que desaparece, Se logo um Esculápio Lusitano Remédio não achara ao mortal dano.

Magoado o elefante das feridas, Bramando volta aos outros imitando, De caminho tirando muitas vidas Dos muitos, que passava, atropelando:

Solimão traz os seus, já suspendidas As vãs barbatas, se ia retirando Cansado, polvoroso, horrendo, e feio, E com sede cruel do sangue alheio.

Caldeira o segue, e sem igual presteza O moço Andrade desejando a glória De render do Pagão a fortaleza, Digna façanha de imortal história:

Garcia o não seguiu, porque despreza Acompanhado de outros a vitória; Das mãos escapa enfim da morte irada, Por não ser a fatal hora chegada.

No tempo, que do encontro se apartaram Os de Malaca feros defensores, Na destinada ponte se juntaram Os de injustos agravos vingadores:

Agradeceu-lhes Afonso quanto obraram Com estreitos abraços, e louvores, Sabendo quanto estima o peito ilustre Louvores justos, e da fama o lustre.

Chega Geinal; e conhecendo quanto Com prova heroica ser fiel mostrara, Assi lhe disse: Ó da Ásia ilustre espanto, Digno de que Alexandre te invejara;

Para sempre será com valor tanto A fama liberal, se a sorte avara; E se ajudar o Céu meu pensamento, Verte-ás felice no perdido assento.

Oxalá (respondeu) com meu desejo As forças se igualaram, por que viras Quanto servir-te, e a teu Rei desejo, E por mim alcançaras o que aspiras:

Para este efeito Aquiles ser invejo; Mas o valor, que tu nos teus inspiras, Que já me anima, e o coração exalta, É bastante a suprir o que em mim falta.

A gente recolhida, aquele posto Fortificar o Capitão pertende Enquanto a ocasião lhe mostra o rosto, Que, largada da mão, tarde se prende:

Solícito no sábio presuposto, Em levantar tranqueiras logo entende, E nelas plantar manda a artilharia, Que dos imigos fora pouco havia.

Porém para o trabalho considera Cansada, e mal ferida a mais da gente, E do Sol afligida que então era Êmulo ao mundo do elemento ardente:

E bem que o sítio sustentar quisera, E ver que deixa o conquistado sente, Com deliberação grave, e sisuda, E parecer dos seus, conselho muda.

Entanto das janelas, e terrados, Que para aquela parte respondiam, Mil frechas, mil pelouros desmandados Sobre a gente Cristã mortes choviam:

Mas, chamando Albuquerque aos esforçados Lima, e Caldeira, àqueles que regiam, Lhes mandou que de fogo as mãos armassem, E que as vizinhas casas abrasassem.

Manda também o Malavar valente Que com os seus adustos tiradores Impida o assomar-se a imiga gente Às partes, que lhe ficam superiores.

Da empresa o forto bárbaro contente Os seus incita a bélicos furores: Mil, e mil frechas logo os ares calam, Troços de breados cabos fogo exalam.

Dão ao mandato efeito: pega o fogo Na disposta matéria: com tremenda Fúria vibrantes pontas sobem logo Aos ares, e de fum nuvem horrenda:

Grita a mísera gente; porém rogo Não admite a voraz chama, contenda Com as nuvens horríssona travando, As esferas mais altas ameaçando.

Eolo neste ponto desatava Da formosa Oritia o bravo amante, Com que o incêndio cruel mais se esforçava, Com horrível estrondo crepitante.

Contra o fogo remédios mil buscava A pagã gente, mas nenhum bastante, Que co vento de casa em casa prende, E, consumindo aqui, já lá se acende.

Edifício, em grandeza, e valor raro, Sobre secretas rodas se movia; Finge a matéria o mármore de Paro, Ilustre co metal, que Arábia cria.

Nele, se lhe não fora o fado avaro, Da Infante as bodas celebrar queria O Rei, e com alegre variedade Carro triunfante dar vista à Cidade.

À nupcial casa, de delícias cheia, Também se atreve o vingativo lume, E na matéria rica assi se ateia, Que em leve fumo, e cinza enfim a resume:

Dela a mesquita, onde com torpe, e feia Adoração, e bárbaro costume, Ao vil Mafoma honrava a gente cega, A flama ardente em consumir se emprega.

À mesquita esquadrão confuso acode, E procura atalhar o fogo. Entanto Vendo o prudente Afonso que não pode Cansada a gente com trabalho tanto;

Porque o intento ao possível se acomode, Enquanto o incêndio dura, e cresce o pranto, A artilharia embarcar manda ganhada, E a que em terra ficou deixa encravada.

O esquadrão militar logo começa A ir, e vir, despojos embarcando, Como no estio com fervente pressa Multidão de formigas, saqueando

De trigo as eiras, montes atravessa Por entre ervas, e espinhos, sustentando Na boca o grão pesado, até encerrá-lo E na estreita caverna entesourá-lo.

As bárbaras catervas ofendidas, Quando tanto despojo embarcar viram; A dar, e receber novas feridas Bramando vingativos acudiram.

Torna de novo a morte a truncar vidas: Aqui apelidam Marte, ali suspiram; Enfim efeitos crus de dura guerra No mar ostentam, porém mais na terra.

Rios correm do sangue derramado; Que, nas ondas entrando, em sanguinosa Mudam a cor cerúlea: de ira armado Se vê o mesmo furor, vista espantosa!

Mas já fim dava ao dia o Sol dourado Do grande Oceano visitando a esposa: Torna-se às naus a batizada gente; A Agarena o elemento apaga ardente.

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LIVRO IX · Francisco de Sá de Meneses · Poetry Cove