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1854–1932

V

Delminda Silveira de Sousa

Do novo hospital formoso, era ele próprio o enfermeiro; tão santo, tão caridoso, tão afável e prazenteiro,

que o pobre enfermo sorria sentindo a doce alegria daquela consolação; e n’alma grata abençoava

aquele que admirava com funda veneração. E o santo pai da pobreza a todos consolo dando,

nem um enfermo despreza a todos, todos tratando. Moléstias contagiosas, úlceras feias, asquerosas,

cura, de Deus pelo amor; e a noite em vigília passa se vê que a morte esvoaça em torno aos leitos de dor!

O terço à Virgem bendita que à noite vinha rezar, de enfermos turba contrita ia-o logo acompanhar;

pois que todos à Senhora que o fraco enfermo vigora deviam alívios seus; e como grata homenagem

do altar da Santa Imagem, a prece subia a Deus! Depois de finda a oração, todos, silêncio faziam;

e do grave capelão belas palavras ouviam. Eram discursos formosos, breves, porém carinhosos,

mui tocantes e eloquentes, em que à fé exortava, e a paciência ensinava aos infelizes doentes.

Naquelas almas doridas incutia a doce esp’rança; por prêmio às dores sentidas dos Céus promete a bonança,

e o pobre consolado, do seu aspérrimo fado abraça a pesada cruz, ao fulgor da santa crença,

antevendo a recompensa dos eleitos de Jesus! A necessidade via meditando em seu labor,

que de um patrimônio havia aquele asilo da dor. Presto partiu a Lisboa, e à rainha pia e boa

confia o seu ideal; deu-lhe a soberana então uma anual prestação em favor do Hospital.

Depois, sem mais explicar, dos Passos à Irmandade, foi a gerência entregar do Hospital de Caridade.

Jamais se soube o motivo que o fez parecer esquivo a esse encargo piedoso; porém, se creu, com razão:

— fora a santa vocação do seu gênio caridoso. Tanto que indo à Bahia recomeça a faina santa,

e lá, com esmolas, um dia um Seminário levanta, onde a infância desvalida fosse amparada, instruída,

achasse conforto, alfim; e o Seminário acabado tomou o abençoado nome de São Joaquim.

De novo a Lisboa segue, um outro favor rendoso, talvez, a ver se consegue ao seu colégio piedoso.

Ainda bem acolhido foi desta vez seu pedido, e à Bahia tornou, de virtudes, exemplar,

como um pai sabendo amar os cem órfãos que educou. Foi na prática piedosa destas virtudes dos Céus,

que uma carta lutuosa ele um dia recebeu. Continha a notícia triste que seu pai já não existe...

chamava-o ao triste lar, sua legítima, agora, a receber sem demora no que iam partilhar.

Mas tão desinteressado tão amante da pobreza, ele recusa o legado com espontânea franqueza.

De suas irmãs a que era mais desprovida, cedera o que lhe pertence; então, satisfeito assim ficando

vai em paz continuando a sua santa missão.

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