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1854–1932

Tupã

Delminda Silveira de Sousa

Quem, com a plumagem do guará formoso, tapiza o leito para o sol que nasce, e a flor de raios faz brilhar, vivace, da madrugada sobre o azul mimoso?

Quando o sol morre, como o rei das tabas, tem linda rede de vistosas cores; mas quem t’o ordena, ó criador das flores, que presto o raio cintilante apagas?...

Qual magnólia que à manhã descerra, e o aroma vaza na soidão profunda, a lua meiga de saudade inunda meu seio triste que o pesar encerra.

Quem fez o astro que a saudade inspira? a flor, a mata, a solidão frondosa? Quem deu ternura à juriti mimosa, e amor à virgem que de amor suspira?...

Há tantas flores na campina verde! Há tantos astros lá no azul do Céu! E como a rosa que o tufão pendeu, o astro brilhante no bulcão se perde!

Assim a virgem, do guerreiro ausente, é como a rosa que desmaia e chora; é como a estrela de nublada aurora... o véu da morte sobre as faces sente!

A laranjeira se cobriu de flores, depois, de frutos pelo sol dourados; novas folhagens vêm vestir os prados, a selva toda já recende odores.

No verde galho que a roseira estende, macia paina o beija-flor enreda, e à flor mimosa, que desbrocha leda, o brando ninho docemente prende.

Depois, o campo, num lençol de neve todo s’envolve; desfalece a rosa; a cachoeira se despenha irosa; o rio as margens vai transpondo breve.

Desperta o Índio na cabana pobre, desata a igara da palmeira esguia; e, mal desponta a madrugada fria, vai pela água que os outeiros cobre.

De novo canta o sabiá fremente, cores gentis vêm esplender no Céu; junto ao guerreiro que feliz volveu, a Índia virgem já sorri contente.

Ah! quem das flores — virginais tesouros, — dourados pomos, saborosos, fez? O dia? o ar? a noite? o sol?... talvez Tupã, que desce nos seus raios d’ouro!

Tupã, que ordena à primavera alada esparza flores sobre a verde selva; Tupã, que manda desdobrar na relva o branco manto à glacial geada!

Tupã, que pródigo os vergéis enflora, Tupã, qu’estrelas pelo Céu derrama, Tupã, que a virgem não conhece e ama, Tupã, que o índio reverente adora!

Tupã, que eu vejo nos mistérios tantos que a Natureza nos desvenda aqui!... Tupã, que escuto nos amenos cantos que à tarde entoa divinal tupi!

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