Sombras cariciosas e queridas, nuvens de rosa em lágrimas desfeitas, flores à flor de um lago retratadas, ondas que suspirastes e morrestes
onde estais? onde estais... oh! meu passado!... Plácida primavera! Oh, quantas flores o meu jardim vestiam!... as rosas lindas s’espinhos tinham, nunca me feriram!
Tão brancos eram os lírios e açucenas e tão vivos os cravos!... mais viçosas, porém, roxas e tristes, sempre e sempre, eram as violetas e as saudades meigas,
— as saudades — amigas da minh’alma!... E passavam serenas primaveras e o meu jardim sempre florido e verde e as flores sempre, sempre assim viçosas!
Passavam nuvens que o favônio brando da manhã impelia; elas passavam pelo céu, róseas, douradas, lindas, mas, passando, d’orvalhos rorejavam
o meu jardim, e pérolas cobriam as saudades sem fim dos meus amores!... Minha vida era o lago sossegado a retratar o céu; meigas boninas
debruçadas das margens verdejantes, ali — num fundo azul, estremeciam à doce viração do amanhecer. Às vezes, mar ofegante a s’espraiar mansinho
Em merencórias ondas suspirosas, Embalava o batel dos meus afetos, Qual berço de corais, — meu coração! Depois... Oh! nunca mais!...
Do meu jardim murcharam as ledas flores, e desbrochavam só roxas violetas e orvalhadas de pranto, mil saudades! Fora tudo ilusão, prismas, miragens,
sonhos, enganos, juvenis quimeras do meu ideal, do meu ideal de poeta! Sombras cariciosas e queridas, nuvens de rosa em lágrimas desfeitas,
flores à flor de um lago retratadas, ondas que suspirastes e morrestes... Oh! meu passado!... meu sonhar perdido!
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