Quem sabe se a branca nuvem
que vai no azul deslizando
a outra nuvem buscando
até se unirem nos Céus,
não é um’alma que voa
em busca da gêmea sua,
e ali, ao clarão da lua,
s’enlaçam unidas por Deus?...
O alvo lírio singelo
da perfumada inocência
que abriu na rica opulência
de sua farta verdura,
se melindroso desmaia
d’aragem ao beijo ofegante,
quem sabe? — naquele instante
se não pendeu de amargura!
Ah! geme a rola sozinha
e a sombra da noite cai,
não teve um ecoo seu — ai —,
porém a triste não cansa!
Quem sabe?... não volve o amante
E ela o esperava ainda,
E aquela saudade infinda
Matou-lhe a doce esperança!
Casal de garças mimosas,
vai pelo lago boiando
dos nenúfares brincando
co’as... aurora abriu;
assim tão alvas, juntinhas,
no mesmo ninho dormindo,
quem sabe — em lago tão lindo
que terno afeto as uniu!
Doce o crepúsculo da tarde
eu cismo e meu peito anseia:
o que minh’alma receia?...
que mágoa d’estranha dor...
Passa a brisa: por meus lábios,
Por meus olhos roça um beijo...
Meu Deus! que vago desejo...
Quem sabe? — Meu Deus! que amor!...