Vem, lira minha, ó doce companheira,
sócia nos risos, sócia n’amargura,
oh! meu consolo desde a dor primeira,
Chora comigo a grande desventura,
como outrora comigo pranteaste
minha mãe, meu amor, minha ventura!
Houve um tempo, — oh! meu Deus! — que adelgaçaste
o negro véu que te reveste agora,
e das mais ledas flores te adornaste...
Lembras-te, oh! lira? — Foi na fausta hora
em que nos braços apertei, saudosa,
o bom amigo que a minh’alma chora!
Tornara a vê-lo; a alma carinhosa
nos olhos lhe sorria, sempre triste,
qual presa de uma mágoa angustiosa...
Ah! como traduzir o que sentiste,
meu coração, tu, que o amavas tanto,
tu que na sua dor sempre o seguiste...
Naquela dor acerba, que o quebranto
no peito lhe infundiu, cruel, profundo,
deixando-lhe a existência imersa em pranto,
e as falsas esperanças deste mundo
quais rosas que pendidas murcham n’haste
o sul ao sopro gélido, iracundo!...
Alma serena e bela, que voaste
do Deus Eterno à plácida morada,
tu, que a palma de mártir conquistaste,
lá na Glória, onde estás, purificada,
lá, na celeste paz da Eternidade,
aceita de minh’alma angustiada,
— os suspiros, as mágoas, a saudade!