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1854–1932

O sabiá

Delminda Silveira de Sousa

Eu sempre o vejo, em cada primavera, quando lança a manhã seu véu mimoso por sobre a Natureza, qual trovador que o meigo canto esmera

casando — amor — ao treno suspiroso da lira da tristeza. Eu sempre o vejo, e o salmear sonoro, do cajueiro em flor por entre o aroma,

mais terno se desprende, quando silente, pelo ocaso d’ouro mimosas cintas que do Ires toma a tarde bela estende.

Eu sempre o vejo... e embevecida escuto a doce queixa ao rumorejo envolta da verde ramaria, quando a noite desdobra o véu de luto,

e a voz do sino pelos ares solta o — salve — preludia. Quando andorinha forasteira volve co’o renovar primaveril das flores,

à beira dos telheiros eu sempre o vejo, e o canto seu m’envolve de saudoso cismar dos meus amores nos sonhos feiticeiros.

Vem, ó meigo cantor! não tardes tanto, que já no verde laranjal branquejam os ternos botõezinhos. Suspira a brisa em lânguido quebranto,

do sol aos raios tépidos verdejam as moitas dos caminhos. As borboletas, nos relvados bastos, por sobre o verde semelhando flores,

espreitam o abrir das rosas; plúmeos artistas d’entre os lírios castos, fabricam berços p’ra novéis amores co’as plumas cetinosas.

Vem, ó meigo cantor, não tardes tanto!... anseio ouvir o dúlcido lamento que o meu cismar circunda como auréola de luz ou mago encanto

de perfumes sutis que em brando alento triste remanso inunda!

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