Eu sempre o vejo, em cada primavera,
quando lança a manhã seu véu mimoso
por sobre a Natureza,
qual trovador que o meigo canto esmera
casando — amor — ao treno suspiroso
da lira da tristeza.
Eu sempre o vejo, e o salmear sonoro,
do cajueiro em flor por entre o aroma,
mais terno se desprende,
quando silente, pelo ocaso d’ouro
mimosas cintas que do Ires toma
a tarde bela estende.
Eu sempre o vejo... e embevecida escuto
a doce queixa ao rumorejo envolta
da verde ramaria,
quando a noite desdobra o véu de luto,
e a voz do sino pelos ares solta
o — salve — preludia.
Quando andorinha forasteira volve
co’o renovar primaveril das flores,
à beira dos telheiros
eu sempre o vejo, e o canto seu m’envolve
de saudoso cismar dos meus amores
nos sonhos feiticeiros.
Vem, ó meigo cantor! não tardes tanto,
que já no verde laranjal branquejam
os ternos botõezinhos.
Suspira a brisa em lânguido quebranto,
do sol aos raios tépidos verdejam
as moitas dos caminhos.
As borboletas, nos relvados bastos,
por sobre o verde semelhando flores,
espreitam o abrir das rosas;
plúmeos artistas d’entre os lírios castos,
fabricam berços p’ra novéis amores
co’as plumas cetinosas.
Vem, ó meigo cantor, não tardes tanto!...
anseio ouvir o dúlcido lamento
que o meu cismar circunda
como auréola de luz ou mago encanto
de perfumes sutis que em brando alento
triste remanso inunda!