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1854–1932

O poeta

Delminda Silveira de Sousa

Astro — a um Céu puríssimo alumias, quando o sendal das magas fantasias o Gênio te adelgaça; — lírio — rasgas as pétalas nevadas,

ao açoite impiedoso das rajadas, aos golpes da desgraça. Águia soberba a devassar os Andes, quando, do alto, como a luz, expandes

teu ideal sublime; meiga pomba de amor quando entre flores tu’alma arrulha os dúlcidos amores que só teu verbo exprime.

— Quem poderá sondar-te d’alma o fundo, si à flor do lago plácido e profundo só se retrata o Céu? Si do vulcão a chama abrasadora

bem no seio da terra s’elabora e abrasa o imo seu?! Mas quando negra tempestade enluta o puro azul do Céu, e a terra nuta,

aos roncos do trovão; quando derrama altivo monte a lava da profunda cratera que se cava às iras do vulcão:

não vês por sobre a flor do manso lago, sombrio crepe a distender-se vago, lhe vir turbar a cor? e a voraz chama que o contorno abrasa

tornar d’aurora a branca e fina gaza sanguíneo véu d’horror?... Pomba de amor — a alma do Poeta, mimosa e triste, qual gentil violeta,

quer amor, quer ternura; ferida, geme, e altiva o insulto esmaga; mas si a vida sorri-lhe, e amor a afaga — é flor, só tem doçura.

Ah! si na terra o ideal sonhado, como oásis de flores perfumado, encontra a peregrina: — astros, auroras, flores e perfumes,

d’aves canoras gárrulos cardumes — que o Céu vos não fascina!... Sim; do Poeta o coração sensível guarda um Éden, no íntimo, invisível,

que só ventura encerra! e o amor de sua alma apaixonada é como a doce luz da madrugada: — de flores enche a terra!

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