Para abrir o livro vosso
pedi à aurora mimosa
aquelas tintas de rosa
com que abre o dia nos Céus;
mas a aurora desmaiando
acenou-me o lago quedo
que lhe roubara o segredo
dos magos encantos seus.
Veio o sol; pedi-lhe um raio,
um doce raio do Empíreo
com que abrira o casto lírio
tão perfumoso, no val’,
porém o astro vaidoso
prossegue, a flores abrindo,
as frescas rosas tingindo
da viva cor do coral.
Desceu a tarde formosa,
abriram pálidas flores;
pedi à tarde os palores,
aroma às flores gentis;
deu-me a frescura da noite
o grato orvalho do Céu,
e a tarde soltando o véu,
deixou-me aromas sutis.
Para abrir o livro vosso
não tive d’aurora as cores,
nem do sol os esplendores,
só deu-me a tarde o seu pranto!
Assim, na folha tão bela
do vosso livro, Senhor,
só pude deixar a flor
mais desmaiada — o meu canto!