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1854–1932

O meu canto

Delminda Silveira de Sousa

Para abrir o livro vosso pedi à aurora mimosa aquelas tintas de rosa com que abre o dia nos Céus;

mas a aurora desmaiando acenou-me o lago quedo que lhe roubara o segredo dos magos encantos seus.

Veio o sol; pedi-lhe um raio, um doce raio do Empíreo com que abrira o casto lírio tão perfumoso, no val’,

porém o astro vaidoso prossegue, a flores abrindo, as frescas rosas tingindo da viva cor do coral.

Desceu a tarde formosa, abriram pálidas flores; pedi à tarde os palores, aroma às flores gentis;

deu-me a frescura da noite o grato orvalho do Céu, e a tarde soltando o véu, deixou-me aromas sutis.

Para abrir o livro vosso não tive d’aurora as cores, nem do sol os esplendores, só deu-me a tarde o seu pranto!

Assim, na folha tão bela do vosso livro, Senhor, só pude deixar a flor mais desmaiada — o meu canto!

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