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1854–1932

O amor de minha mãe

Delminda Silveira de Sousa

Eu tive um grande tesouro, porém bem pouco o fruí, que o meu escrínio de ouro perdi-o, meu Deus, perdi!

Era um tesouro celeste... Sob funéreo cipreste a terra um dia o guardou. Porém a joia mais bela

que dentro dele fulgia, talvez um anjo que a via a transformasse em estrela que lá no Céu engastou!

Eu tive um jardim mimoso de mil florinhas plantado; não tinham caule espinhoso as rosas do meu agrado.

Era o meu horto querido o meu prazer preferido, a minha consolação: mas numa hora tristonha

vestiu o Céu negras cores, e com lufada medonha a rosa dos meus amores desfolhou cruel tufão!

Eu tive um sol que brilhava no céu da minha existência; a sua luz aclarava a trilha à minha inocência.

Mas a vida inda me era como doce primavera que mil encantos sonhou, quando nuvem fria, escura,

qual negro manto estendido, na sua densa negrura meu sol formoso e querido todo p’ra sempre ocultou.

E tudo, tudo perdi! Nada mais me resta agora! Vivo em trevas, não sorri lindo sol da minh’aurora!

Nem já tenho as meigas rosas, nem mais as joias preciosas que cingiram o colo meu! Oh! meu Deus! — se anjo bendito

levou à Mansão ditosa o meu tesouro infinito, dá que a minh’alma saudosa vá encontrá-lo no Céu!

Sim, no Céu; que esta riqueza, este bem que me fugiu, dos encantos, a beleza dessa luz que me sorriu,

a minha estrela de amores, o aroma das minhas flores, o conforto à minha dor, toda essa doce ventura,

sabeis o que foi na terra, que agora tanta amargura — tanto pranto e mágoa encerra? de minha mãe foi o amor!

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