Meu retrato é a violeta
no ermo vale pendida,
como a virge’entristecida
a duro martírio afeita.
Quando a vires no vergel
das outras flores em meio,
colhe-a, guarda-a no teu seio,
que é meu retrato fiel.
Meu retrato é a rola meiga
gemendo na selva umbrosa;
é a brisa suspirosa
passando triste na veiga.
Quando ouvires seus gemidos
nas brenhas da solidão,
escuta os ais doloridos
de meu triste coração.
Meu retrato é a saudade
de puro rocio banhada,
meiga flor desabrochada
à luz serena da tarde.
Quando a vires, meiga e pura,
curvada a face mimosa,
lembra alguém que suspirosa
curva a fronte de amargura.
Meu retrato é a lua triste
vagando no azul sem fim;
singelo, branco jasmim
que ao vendaval não resiste.
Contempla a lua serena
afaga o branco jasmim
pois que pálidas assim
são a imagem de quem pena.
E no teu peito, mais vivo,
se me amas com ardor,
tu verás, ó meu amor,
o meu retrato cativo!