Do pé da tenra grama debruçada,
florinha azul mimosa,
à corrente fugace enamorada
dizia, suspirosa:
Ah! não me deixes, meiga fugitiva,
não me deixes assim,
leva em teu seio a pobre flor cativa,
ai! lembra-te de mim!
Deixa rever-me em tua face pura,
neste cristal, oh, sim!
Para um momento, ó mágica doçura...
ai! lembra-te de mim!
Vê: si eu não tenho dos jasmins a neve,
das rosas o carmim,
tenho do Céu azul a tinta leve...
ai! lembra-te de mim!
Mas a corrente, — a meiga fugitiva —
corria sem cansar,
a pobre flor azul, triste, cativa,
morria a suspirar.
“Adeus!” já diz o sol adormecendo
num leito de rubis;
“adeus!” — volve a papoula desprendendo
as pétalas gentis.
E no Céu linda nuve’em flocos d’ouro
gazil se desmanchou;
era de fadas místico tesouro,
mil perlas derramou.
Sobre a florinha terna, agonizante,
um aljôfar caiu,
e mimosa safira, num instante,
sobre a grama luziu.
Logo, ao sopro suave d’aura leve
que a impele docemente,
foi deslizando, deslizando breve,
té cair na corrente.
Voz mal distinta e doce, fugitiva,
Lá repetiu assim:
“leva em teu seio a pobre flor cativa...
ai! lembra-te de mim!...”