Ó lua merencória, ó lua de Janeiro,
dessa luz divinal de mágico palor
dá-me um raio sutil, um raio teu fagueiro
que rompa ao meu sonhar o véu de negra cor!
Oh! lua merencória, amiga da minh’alma,
escuta carinhosa o rogo angustiado:
— no teu raio gentil me volve a doce calma,
os risos, a ventura, os sonhos do passado!
Tu vês nos olhos meus a dor que o seio atura...
nos ais do meu penar — o fel do dissabor,
oh! lua merencória, envolve na doçura
da luz dum raio teu — minh’alma, a minha dor!
Do mundo nos parcéis, nas vagas procelosas,
sem rumo a triste vida incerta vai-se além...
Quem há de a frágil barca, em águas tormentosas,
suster, do vendaval nas fúrias do vai-vem?...
Minh’alma angustiada ao Céu transporta agora...
num doce raio teu, me volve a doce esp’rança;
oh! astro meu gentil, no Céu da minha aurora,
sumiu-se em negra cor meu íris de bonança!...
Oh! lua merencória, oh, lua de Janeiro,
escuta de minh’alma o rogo angustiado:
volve-me em teu palor, no teu clarão fagueiro,
— os sonhos, a ventura, as crenças do passado!