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1854–1932

Invocação à lua

Delminda Silveira de Sousa

Ó lua merencória, ó lua de Janeiro, dessa luz divinal de mágico palor dá-me um raio sutil, um raio teu fagueiro que rompa ao meu sonhar o véu de negra cor!

Oh! lua merencória, amiga da minh’alma, escuta carinhosa o rogo angustiado: — no teu raio gentil me volve a doce calma, os risos, a ventura, os sonhos do passado!

Tu vês nos olhos meus a dor que o seio atura... nos ais do meu penar — o fel do dissabor, oh! lua merencória, envolve na doçura da luz dum raio teu — minh’alma, a minha dor!

Do mundo nos parcéis, nas vagas procelosas, sem rumo a triste vida incerta vai-se além... Quem há de a frágil barca, em águas tormentosas, suster, do vendaval nas fúrias do vai-vem?...

Minh’alma angustiada ao Céu transporta agora... num doce raio teu, me volve a doce esp’rança; oh! astro meu gentil, no Céu da minha aurora, sumiu-se em negra cor meu íris de bonança!...

Oh! lua merencória, oh, lua de Janeiro, escuta de minh’alma o rogo angustiado: volve-me em teu palor, no teu clarão fagueiro, — os sonhos, a ventura, as crenças do passado!

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