Quando a estrela da manhã, alta, subia,
Reluzindo e fremente como um guiso,
Três almas se encontraram tiritando,
À porta sideral do Paraíso,
E a primeira bateu. E havia
Um altivo desdém no seu gesto de mando.
— “Quem bate?” docemente perguntaram.
— “Um rei que foi na terra poderoso!”
— “Que sementes divinas espalharam
As tuas mãos?”
Batalhas! Valoroso
“Venci e conquistei cidades e países!”
“E a porta de oiro muda, inviolada,
Como si tivesse raízes,
Fulgindo e cintilando radiosa,
Permaneceu fechada”
E a segunda bateu. E a voz harmoniosa
De novo perguntou: — “Quem bate?”
— “Um sábio que viveu a meditar.
E longos anos passou no duro embate
Do saber. E envelheceu para criar.”
E a porta de oiro muda, inviolada,
Cintilando e fulgindo como um astro,
Continuou fechada!
E a terceira bateu. E a mesma voz:
— “Quem bate?” — Serena e doce interrogou.
— Um poeta que sempre andou de rastro
Pela vida e que a vida maltratou!
— “Que fizeste na terra?”
— “Eu? Amei!
E o meu amor, em versos, semeei!”
Por toda a esfera azul um canto se expandiu.
Então fúlgida, resplandecente,
Rodando nos seus gonzos, lentamente,
A porta de oiro se abriu!