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1854–1932

III

Delminda Silveira de Sousa

Já desperta o val’formoso, todo em galas, jubiloso, todo em risos festivais; fresco orvalho rega as flores,

mais frescura, mais odores espalhando nos rosais. Já se vão pastores ledos, ensaiando mil folguedos,

ao Deus Menino adorar; uns levavam o mel puro, outros o fruto maduro do seu viçoso pomar.

Aqui, a infância contente carregando o leite quente da mansa ovelha dileta; Ali — pastoras singelas

de suas rosas mais belas levando oferenda seleta. Além, um velho curvado sobre nodoso cajado,

alvo cordeiro levava; a seu lado o moço, lesto meigos pombinhos num cesto prazenteiro carregava.

E à gruta ditosa humildes chegaram; no chão se prostraram ao Deus adorando,

das puras ofertas os mimos singelos com santos desvelos ao Cristo ofertando.

Lá da celeste abóbada fulgente, eis um coro d’arcanjos vem baixando, hinos sacros de glórias entoando ante o berço do Deus Onipotente:

“Glória a Deus nas alturas! Paz na terra, que a Luz do Céu as trevas dissipou, mais brilhante que o dia radioso que d’ aurora serena despertou.

Glória a Deus nas alturas! Paz aos homens, que do mundo nasceu o redentor! Graças mil sobre a terra já derrama em mil bênçãos de amor o Eterno Amor!

Formosa no espaço brilhava uma estrela mais pura, mais bela que a estrela do albor;

por ela guiados os reis caminharam e ao berço chegaram de Deus Salvador!

E lá, ante o exemplo de um Deus entre os pobres, os magos, tão nobres, pasmados estão;

e a mirra, o incenso, o ouro mais fino lá dão ao Menino, c’o as frontes no chão!

Celeste ventura de um gozo inefável, da Mãe adorável o seio inundava;

tão bela fitando seu meigo Jesus, de amor nesta Luz seus olhos banhava.

José, piedoso, no solo prostrado, medita, enlevado, mistério tão fundo;

e os anjos celebram nas liras supernas as glórias eternas à face do mundo!

Senhor! — não pode a lira humilde e rude do Messias cantar a glória ingente que o Céu nas harpas d’ouro celebrava; tem de um mortal as vozes poderiam

jamais dizer a divinal ventura que de Maria a alma transportava. Porém, se meu espírito enlevado à doce luz da Fé contempla absorto

o presépio ditoso de Belém, crendo ouvir desse val’abençoado doces ecos de um hino descantado, deixa-o, da lira aos sons cantar também:

“Glória ao Excelso Pai Onipotente, Glória ao Filho do mundo Redentor, Glória ao Espírito Santo Onisciente, Glória à Mãe Divinal do Salvador!”

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