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1854–1932

II

Delminda Silveira de Sousa

A noite ia em meio, os pobres pastores seus rudes labores já vão começar;

ao val’s’encaminham, da noite ao relento, o dócil armento se vão a guardar.

Então, qual num sonho de magos encantos, de luzes, de cantos, cercados se viram!

Que doces eflúvios de místico incenso, que júbilo imenso, que pasmo sentiram!...

No súbito assombro que os tinha, pasmados, caíram, prostrados, com os olhos nos Céus;

talvez procurando no livro sidéreo o fundo mistério traçado por Deus.

D’esplêndida nuvem no áureo regaço, um anjo, no espaço, baixava, radioso;

co’a nívea roupagem a terra tocando, no gesto, mui brando, falou, majestoso:

“Não temais! Feliz nova aqui vos trago, qu’encherá todo o povo de alegria, de bênçãos e de amor; — pois de Jessé na hástea venturosa

brotou a doce flor imaculada — O Cristo Redentor! Ide, além, num presépio reclinado, envolto nas matilhas da indigência,

um menino achareis... É este o Cristo, é este o Salvador!” E as asas brilhantes, d’argêntea plumagem,

por sobre a paragem sereno estendeu; da nuvem mimosa no áureo regaço,

ao célico espaço formoso s’ergueu. Alou-se, alou-se o divo mensageiro fé perder-se no ar resplandecente,

e aos magos poderosos do Oriente foi-se a nova levar, breve, ligeiro.

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