A noite ia em meio,
os pobres pastores
seus rudes labores
já vão começar;
ao val’s’encaminham,
da noite ao relento,
o dócil armento
se vão a guardar.
Então, qual num sonho
de magos encantos,
de luzes, de cantos,
cercados se viram!
Que doces eflúvios
de místico incenso,
que júbilo imenso,
que pasmo sentiram!...
No súbito assombro
que os tinha, pasmados,
caíram, prostrados,
com os olhos nos Céus;
talvez procurando
no livro sidéreo
o fundo mistério
traçado por Deus.
D’esplêndida nuvem
no áureo regaço,
um anjo, no espaço,
baixava, radioso;
co’a nívea roupagem
a terra tocando,
no gesto, mui brando,
falou, majestoso:
“Não temais! Feliz nova aqui vos trago,
qu’encherá todo o povo de alegria,
de bênçãos e de amor; —
pois de Jessé na hástea venturosa
brotou a doce flor imaculada
— O Cristo Redentor!
Ide, além, num presépio reclinado,
envolto nas matilhas da indigência,
um menino achareis... É este o Cristo,
é este o Salvador!”
E as asas brilhantes,
d’argêntea plumagem,
por sobre a paragem
sereno estendeu;
da nuvem mimosa
no áureo regaço,
ao célico espaço
formoso s’ergueu.
Alou-se, alou-se o divo mensageiro
fé perder-se no ar resplandecente,
e aos magos poderosos do Oriente
foi-se a nova levar, breve, ligeiro.