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1854–1932

I

Delminda Silveira de Sousa

Envolta nos véus da noite, há muito Belém dormia; nem um só eco se ouvia na choupana do pastor.

Lá no azul firmamento mil estrelas cintilavam, e as campinas se douravam, da lua ao doce esplendor.

Ao fresco orvalho da noite os prados reverdeciam; mil açucenas se abriam, mil rosas desabrochavam;

Nos vastos campos relvosos, fechadas em seus redis, brancas ovelhas gentis de quando em quando balavam.

No meio da solidão daquele ermo ditoso, dum val’ameno e formoso profunda gruta s’erguia;

festão de mil trepadeiras lhe lançava a austera agrura que de um manto de verdura macio musgo cobria.

Quando o rude pegureiro seu rebanho apascentava, das chuvas lá se abrigava recolhendo o manso armento;

e na tosca manjedoura que ali na rocha entalhava, sempre o rebanho encontrava farto, gramíneo sustento.

Foi aí (mistério ingente!) que o Rei dos reis quis nascer! Quem poderá conceber do Presépio o grão poema?...

Ah! — pobre musa mesquinha da terra no pó manchada, rompe a cadeia pesada com que este mundo te algema!

Maga estrela dos Magos do Oriente, ensina-me os caminhos de Belém; quero ir-me a Jesus levar também as puras flores de minh’alma crente!

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