Envolta nos véus da noite,
há muito Belém dormia;
nem um só eco se ouvia
na choupana do pastor.
Lá no azul firmamento
mil estrelas cintilavam,
e as campinas se douravam,
da lua ao doce esplendor.
Ao fresco orvalho da noite
os prados reverdeciam;
mil açucenas se abriam,
mil rosas desabrochavam;
Nos vastos campos relvosos,
fechadas em seus redis,
brancas ovelhas gentis
de quando em quando balavam.
No meio da solidão
daquele ermo ditoso,
dum val’ameno e formoso
profunda gruta s’erguia;
festão de mil trepadeiras
lhe lançava a austera agrura
que de um manto de verdura
macio musgo cobria.
Quando o rude pegureiro
seu rebanho apascentava,
das chuvas lá se abrigava
recolhendo o manso armento;
e na tosca manjedoura
que ali na rocha entalhava,
sempre o rebanho encontrava
farto, gramíneo sustento.
Foi aí (mistério ingente!)
que o Rei dos reis quis nascer!
Quem poderá conceber
do Presépio o grão poema?...
Ah! — pobre musa mesquinha
da terra no pó manchada,
rompe a cadeia pesada
com que este mundo te algema!
Maga estrela dos Magos do Oriente,
ensina-me os caminhos de Belém;
quero ir-me a Jesus levar também
as puras flores de minh’alma crente!